Cartaz promocional da 13ª Festa do Cinema Italiano © Festa do Cinema Italiano

13ª Festa do Cinema Italiano | Stefano Savio, em entrevista

A MHD esteve à conversa com Stefano Savio, diretor artístico da Festa do Cinema Italiano que nos contou tudo sobre a 13ª edição do festival. 

A 13ª Festa do Cinema Italiano foi fortemente afetada pela pandemia COVID-19, disso não restam dúvidas. Inicialmente prevista para abril (mês em que teve que cancelar devido à quarentena), passou para o mês de novembro e continua com imensas restrições tomadas pela DGS – Direção Geral de Saúde no que toca às atividades culturais. Mesmo assim, manteve com os seus alicerces e valores bem firmes, de modo a dar a conhecer ao público os novos autores do cinema italiano e ainda proporcionar uma retrospetiva integral de Federico Fellini (1920-2020) na Cinemateca.

Para revelar um pouco das dificuldades e readaptações da Festa do Cinema Italiano falámos com Stefano Savio, o diretor da Festa, que desde a primeira edição é o inclusive o seu grande responsável.

Sem convidados, sem eventos sociais, mas com muitos filmes é essencialmente a forma como Stefano Savio descreveu a 13ª edição da Festa do Cinema Italiano, que decorre em diferentes cidades portuguesas como Lisboa, Porto, Coimbra, Setúbal ou Cascais e tem um catálogo reforçado na FILMIN Portugal. Verdade seja dita, a Festa do Cinema Italiano é o festival que usa todos meios necessários para promover o cinema: a sala de cinema, o espaço museológico do cinema através da Cinemateca e o meio digital. É esta sua heterogeneidade que a permite ir rapidamente ao encontro dos diferentes públicos.

Após esta breve introdução, passemos a palavra ao Stefano Savio que com toda a convicção apresenta-nos alguns dos filmes que ainda podem ser vistos na 13ª edição da Festa do Cinema Italiano.

MHD: Stefano, estivemos à conversa há precisamente dois anos sobre a 11ª Festa do Cinema Italiano. O que mudou no festival desde então? 

Stefano: Infelizmente mudaram algumas coisas. Em 2018 não havia pandemia… Já em 2019, tivemos a Festa do Cinema Italiano com mais público de sempre e claramente foi onde conseguimos fazer um festival com a dimensão certa, no sentido em que estavam garantidas todas as suas potencialidades. Este ano tal não foi possível. Em abril o festival foi cancelado, enquanto no corrente mês de novembro, o Festival viu novas restrições que limitaram muito o seu potencial. Não é possível trazer convidados, não são permitidos os eventos sociais.. São mil e uma coisas que não favorecem a evolução do festival.

Stefano Savio
Stefano Savio e Adriano Smaldone, os principais rostos da Festa do Cinema Italiano na 11ª edição do festival © MHD

Apesar de tudo considero que temos um festival com uma excelente programação, desde logo temos a obra de Fellini e algumas estreias inéditas e importantes. Não é claramente o festival que havíamos pensado, mas dentro das condições, foi o melhor que conseguimos. Reforçamos ainda mais a colaboração com a FILMIN, que permite que boa parte da programação esteja online. Crescemos de uma maneira diferente. Podemos até ter perdido por um lado, em sala, mas ganhámos por outro lado, no mundo online.

MHD: A Festa do Cinema Italiano foi provavelmente o festival de cinema de 2020 mais afetado pela pandemia Covid-19. Como é que a equipa consegue gerir as diferentes decisões e normativas tomadas pelas entidades de saúde pública sob pressão? 

Stefano: O 13 não é um número de sorte e sim fomos bastante afetados. Acredito que outros festivais, como o LEFFEST que começa na próxima semana, serão ainda mais afetados. Nós como tivemos o festival agendado para o segundo semestre do ano ainda conseguimos adiá-lo, conseguimos fazer alguma coisa. Sei de alguns festivais que não terão edição em 2020, por isso apesar de tudo conseguimos colocar alguma coisa em sala.

Quanto às medidas em si, a Festa do Cinema Italiano trabalha dentro de salas, com uma dada importância como a Cinemateca Portuguesa, o UCI, o São Jorge ou o Trindade, e outras salas do país que respeitam ao máximo os protocolos sanitários impostos neste momento. A lotação das salas está mais limitada e não se pode nem em Lisboa, nem outras cidades do mapa a vermelho, estar numa sala depois das 22h30. Apesar disso, tivemos uma redução do público, mas não tão dramática, afinal o público continua a ir ao cinema e quer ir ao cinema. Na Cinemateca Portuguesa já tivemos algumas sessões esgotadas, como “La Dolce Vita” de Fellini e por isso dentro dos limites o público aparece.

MHD: A Cinemateca Portuguesa desempenha mesmo um papel crucial para dar a conhecer ao público português os principais filmes da história do Cinema Italiano. Como têm sido as relações com esta instituição pública nos últimos anos?  

Stefano: Desde a primeira edição que a Festa do Cinema Italiano tem colaborado com a Cinemateca Portuguesa, deixo por isso o meu obrigado à instituição. Lembro-me perfeitamente em 2008, da preciosa ajuda da Cinemateca quando ainda nem éramos um festival. Na verdade, eu entrei em Portugal através da Cinemateca, comecei a minha experiência a trabalhar na programação, por isso já tinha “um pé lá dentro” antes de começar a Festa do Cinema Italiano. Sempre foram bastante simpáticos por aceitar a nossa proposta de colaboração e depois caminhamos paralelamente. Tentamos realmente proporcionar à Cinemateca Portuguesa uma programação aliciante, seja este ano com Federico Fellini, como no ano passado em que tivemos a retrospetiva a Nanni Moretti. Já tivemos Mario Monicelli ou até o Sergio Leone que ajudaram imenso a encher as salas da Cinemateca.

Ajudamo-nos mutuamente no estabelecimento de contactos com instituições internacionais italianas, a fim de obtermos as cópias dos filmes que queremos que sejam projetados. A Cinemateca Portuguesa dá-nos imenso prazer em termos de programação. Queríamos homenagear, de uma maneira ou de outra Federico Fellini, este ano em que se cumpre o seu centenário jamais desistimos de uma retrospetiva. Foi mesmo essencial.

MHD: Realmente Fellini está por todos os lados nesta edição e é provavelmente o grande foco. No entanto, quais são os outros destaques da 13ª Festa do Cinema Italiano?  

Esta noite teremos “Favolacce“, um filme que esteve em competição ao Urso de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Berlim deste ano e que venceu o Urso para Melhor Argumento. Trata-se de uma obra que nos dá a conhecer os novos autores do cinema italiano: os irmãos Damiano e Fabio D’Innocenzo. É um filme “indie” e que tem um grande ator que é o Elio Germano e que corresponde a um destaque desta Festa do Cinema Italiano, principalmente para o público que gosta do cinema de autor.

Trailer de Favolacce, em exibição na Festa do Cinema Italiano

Outra antestreia é o filme “Momento di Trascurabile Felicità“, em português “A Felicidade das Pequenas Coisas”, uma reflexão muito simpática sobre a vida e sobre os 93 minutos extra que as suas personagens ganham, sendo curiosamente a própria duração do filme. O protagonista é interpretado por Pif, um nome do cinema italiano que já ganhou edições passadas do Festival. Como cómico de cinema e televisão, Pif consegue sempre, através do humor, enfrentar grandes perguntas da vida.

Já a sessão de encerramento é um dos melhores filmes de 2020, “Gli Anni Più Belli” (“Às Coisas Que Nos Fazem Felizes”), de Gabriele Muccino. Temos um poderoso melodrama sobre a amizade e até desamizade, e que explora a relação entre 4 amigos durante quarenta anos de história do centro de Itália. Para mim é uma obra que repensa o cinema de Ettore Scola, um filme dentro do habitual universo mucciniano e melodramático, com estes sentimentos expostos de uma maneira excessiva, mas que consegue tocar o público internacional e não só o italiano.

MHD: Colocado um pouco de lado a pandemia, em 13 edições de Festa do Cinema Italiano quais são os principais desafios superados até hoje e quais os desafios que ainda faltam superar? Qual a vossa ambição para o futuro? 

Stefano: Queremos continuar a crescer. Em Portugal marcamos presença em mais de 20 cidades, mas também estamos em África e em Timor-Leste graças à cooperação entre embaixadas. No Brasil, nos últimos tempos houve realmente um crescimento exponencial, bastante significativo. Temos enormes margem de manobra e comprovamo-lo através de um festival de cinema online, com o qual alcançámos mais de 200 mil espetadores. Ali, as proporções são diferentes. Falo de um continente distante, à parte, onde a oferta de cinema italiano e cinema europeu é menor, mas se pensarmos que em São Paulo onde vivem 12 milhões de italo-descendentes, percebemos que há uma ligação cultural tão impactante, que se reflete no interesse pelo cinema italiano.

Sem colocar de lado Portugal, onde queremos continuar a crescer pela programação diversificada. Em termos de distribuição em Portugal temos conseguido quebrar barreiras. Temos mais apoios e conseguimos inaugurar uma nova forma do cinema italiano entrar no mercado nacional. Quero dizer, os grandes filmes italianos estreiam na Festa do Cinema Italiano e não chegam aos outros festivais. No início ainda perdíamos a distribuição de filmes para festivais como o IndieLisboa, o LEFFEST e outros grandes festivais portugueses. Em Portugal, deixamos de ser uma simples mostra, e tornamo-nos no festival para um público mais abrangente.

MHD: Que apelo faz às pessoas que ainda queiram estar presentes na 13ª Festa do Cinema Italiano?

Stefano: Voltem, voltem por favor à sala de cinema. Temos que manter a normalidade, dentro das condições. O importante é mantermos uma vida cultural ativa, é ainda mais importante para preservarmos a nossa sanidade, não podemos passar todo o tempo fechados em casa. O local do cinema é agora mesmo um sítio seguro. Além do público ajudar-nos a nós, Festa do Cinema Italiano, consegue ajudar todo um setor que se viu bastante afetado pela COVID-19 em Portugal.

Deixo ainda a nota que algumas pessoas mostram-se solidários com os movimentos e manifestações no setor, mas depois não pagam bilhete numa sala de cinema há muitos anos, pelo menos é isso que acontece na Festa do Cinema Italiano. Acho que a melhor maneira para apoiarmos o cinema é irmos efetivamente ao cinema.

MHD: Ainda há bilhetes para a sessão de encerramento “Gli Anni Più Belli”? 

Stefano: Falta pouco pouco para esgotarmos. Se ainda conseguimos esgotar uma sala de cinema em contexto de pandemia significa que ainda há público.

MHD: Teremos a Festa do Cinema Italiano em 2021 no mês de abril, ou será novamente em novembro? 

Stefano: Se as condições melhorarem esperemos ter a Festa do Cinema Italiano em abril. A ideia é mesmo mantê-lo como de costume nesse mês. Não acredito que a situação em termos de pandemia esteja completamente resolvida nessa altura, mas espero que haja mais margem para organizar eventos.

MHD: Obrigado e boa sorte!

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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