"Golpe de Sol" | © Queer Lisboa

Queer Lisboa ’19 | Golpe de Sol, em análise

Golpe de Sol”, a quinta longa-metragem de Vicente Alves do Ó, era uma das antestreias mais publicitadas e antecipadas do Queer Lisboa 23. Infelizmente, acabou por ser uma das grandes desilusões do festival.

A primeira cena de “Golpe de Sol” apresenta o espectador a quatro figuras que dançam ao som de música brasileira numa calorosa noite de verão. Três homens e uma mulher bailam e tocam-se, riem e parecem desfrutar da companhia uns dos outros como só estranhos embriagados ou amigos de longa data conseguem. Neste caso, trata-se da segunda opção, sendo que Vasco, Joana, Francisco e Simão se conhecem há décadas. O que os uniu não sabemos e, se formos honestos, mesmo depois de vermos todo o filme não conseguimos caracterizar muita bem esta dinâmica.

Uma coisa é certa, ao longo dos anos, o quarteto parece ter experimentado todas as combinações de casais imagináveis e, de momento, estão todos solteiros ou envolvidos com outras pessoas que nunca vemos. No passado, existiu mesmo um quinto elemento no grupo – David. Também ele se envolveu nestes jogos de sedução, tendo dormido com os outros quatro. É ele que vem perturbar o idílio de paz e calor estival que os amigos encontraram neste oásis português. Mensagens ambíguas sugerem que ele vai visitar as personagens e todas elas ficam em polvorosa. Será que ele vem buscar uma antiga paixão? Quem será? Qual dos quatro?

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© Ukbar Filmes

Apesar de todos terem sido vítimas de desgraças amorosas às mãos desse homem, os amigos parece desejosos de o ver de novo e nenhum deles sequer considera a hipótese de rejeitar os possíveis avanços de David. Quem quer que ele escolha vai com ele, fugirá e alcançará uma felicidade que está em falta nas suas vidas vazias. Estas pessoas só existem para o amor e para o sexo e David promete isso mesmo. Não dizemos isto com nenhum tom de julgamento moral ou puritanismo. Simplesmente admitimos que o guião oferece pouco mais às suas personagens que um cocktail poderoso de atração e ansiedades sexuais.

De facto, “Golpe de Sol” é um filme de incertezas e indefinições. Gostaríamos de dizer que isso funciona para seu benefício, mas estaríamos a mentir descaradamente. A amizade dos protagonistas é misteriosa, mas também eles o são e mistério aqui é eufemismo para subdesenvolvidos, bidimensionais e profundamente vácuos. Além da teia de relacionamentos amorosos que eles construíram entre si, não vemos grandes provas de personalidade ou uma vida exterior àquela casa de férias isolada. Vasco, Joana, Francisco e Simão amam, fornicam, nadam na piscina, comem comida preparada por um cozinheiro contratado e bebem gins tónicos.

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Quer dizer, eles também apanham banhos de sol à beira d’água, mas isso não é somente mais um exemplo de inação. Muitas são as ocasiões em que os vemos inertes e em fatos-de-banho que fazem pouco para esconder os seus corpos bem esculpidos, de pele bronzeada e volumetria sedutora. Mirar e apreciar a formusura do elenco é um dos poucos prazeres deste narcótico cinematográfico. Mesmo considerando sua carga erotizante, não deixaríamos de recomendar “Golpe de Sol” como medicamento para curar um caso extremo de insónia. O filme é incerto e esboçado, dá sono, excita, mas aborrece em proporção igual.

Os atores lá se passeiam pelos cenários elegantes e são filmados com aprumo digno de um editorial de moda. É pena que este seja um exercício narrativo e não uma edição da Vogue dedicada a fatos de banho. Talvez desse modo fosse um pouco mais vivaço que esta desgraça sem vida e sem inspiração. Perdoem-nos a linguagem abrasiva, mas é difícil não sentir alguma maldade para com uma produção que tanto entedia e entorpece o espectador. Louvamos a aparência dos atores e a fisicalidade que trazem a algumas cenas. As interações de Ricardo Pereira com um potencial amante são uma agradável repetição de códigos sociais desajeitados, por exemplo.

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© Ukbar Filmes

No entanto, não vamos ao ponto de avaliar positivamente o trabalho de ator. É certo que Pereira, Oceana Basílio, Nuno Pardal e Ricardo Barbosa não tinham em mãos um argumento particularmente bom com que trabalhar, mas também não precisavam de ter tornado estas figuras em criaturas tão anónimas e inumanas – o tipo de criação que se pode engolir no contexto abstrato de um espaço teatral, mas não num filme com um realismo material tão grande como este. Essa materialidade e sua beleza são a única solução cinematográfica que realmente merece louvor sem nenhum senão. O trabalho de som é estupendo, imergindo o espectador na calma pachorrenta de uma tarde de verão que só é violada quando se ouvem, ao longe, aviões a combater os incêndios florestais.

As escolhas musicais trazem a energia que falta ao texto e aos atores, e os figurinos e cenários pelo menos entretêm o olho. É pena que tudo isto não resulte num objeto artístico mais substancial. No final, temos uma coleção de clichés e platitudes, de meditações perfuntórias sobre meia-idade e fluidez sexual, sobre moralismos indevidos e drama digno de uma telenovela reles. Este cruzamento entre o “Teorema” de Pasolini e o “À Espera de Godot” de Becket não tem nem uma fração do génio dessas obras passadas.

Golpe de Sol, em análise
golpe de sol poster queer lisboa

Movie title: Golpe de Sol

Date published: 2019-09-27

Director(s): Vicente Ales do Ó

Actor(s): Oceana Basílio, Ricardo Pereira, Nuno Pardal, Ricardo Barbosa, Rafael Gomes, Carlos Oliveira

Genre: Romance, 2018, 82 min

  • Cláudio Alves - 40
40

CONCLUSÃO:

Para ver uma premissa parecida com melhor execução, recomendamos o “Mergulho Profundo” de Luca Guadagnini. “Golpe de Sol”, infelizmente, é algo superficial e aborrecido, portador de alguma beleza, mas sem sofisticação ou um discurso concetual forte o suficiente para a elevar acima do mérito decorativo. Enfim, pelo menos algumas das imagens dariam um bom postal ou campanha publicitária.

O MELHOR: A banda-sonora rica em música brasileira e ritmos que dão vontade de dançar e nos perder em memórias de noites de verão bem passadas.

O PIOR: A anemia dramática do guião, especialmente no que se refere à construção do seu pequeno elenco de personagens.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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