Han Solo: Uma História de Star Wars

O estilo irreverente de Han Solo: Uma História de Star Wars

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Seguindo a trajetória de Han Solo, o filme salta de um mundo acinzentado que parece fundir ficção-científica com a Londres oitocentista de “Oliver Twist” para os campos de batalha lamacentos de um conflito imperial que, visualmente, parece ser uma visão fantástica da Guerra do Vietname. Crossman e Dillon certamente exacerbam essa ligação entre história americana e o universo Star Wars, tendo mesmo usado o traje visto em combatentes Vietcong como principal referência para o traje bélico de Val, interpretada por Thandie Newton. Essa inspiração, contudo, manifesta-se de modo perfeitamente pragmático e utilitário, nas cordas e fios que ela usa para carregar as muitas armas de fogo junto ao seu corpo. Nesse detalhe, os figurinistas dizem-nos muito sobre quem esta mulher é.

Han Solo Star Wars figura de estilo
A influência de MCCABE & MRS. MILLER faz-se sentir nas cenas na neve.

Como já referimos antes, o filme salta desse inferno no meio da guerra imperialista para paisagens invernais e uma narrativa centrada no assalto a um comboio de mercadorias. Como tal, as referências de Crossman e Dillon também se alteram e do Vietname passamos para o Oeste Americano. Especificamente, os dois figurinistas basearam o visual da equipa de assaltantes num dos westerns revisionistas mais importantes da década de 70, “McCabe & Mrs. Miller” de Robert Altman. Desse filme eles tiraram a ideia de um traje aventureiro com silhuetas pesadas, cheias de pelo e golas amplas em tecidos pesados, tudo em tons quentes ou vagamente arenosos, como é o caso do casaco vestido por Woody Harrelson no papel de Beckett.

Han Solo Star Wars figura de estilo
Capacetes e máscaras maquinizadas nunca são um bom agoiro no universo Star Wars.

O assalto ao comboio também nos introduz a outras figuras sob a forma de um grupo de assaltantes competidores. Tanto Crossman como Dillon são grandes fãs do universo Star Wars desde infância e isso está bem visível na sua abordagem a estas personagens. É essencial que as intenções e moralidade dos misteriosos assaltantes sejam uma incógnita até ao último ato do filme, mas também é essencial que eles sejam uma presença inquestionavelmente hostil durante o assalto do comboio. Para isso, os figurinistas negoceiam um diálogo com o espectador que presume o seu conhecimento da iconografia de Star Wars onde capacetes de aspeto mecânico são maioritariamente usados por vilões, enquanto roupas de aspeto irregular e artesanal são uma usual marca de benignidade narrativa. Ao misturar esses dois códigos, os figurinistas criam incerteza e ameaça, sem, no entanto, invalidar as reviravoltas do guião.

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Note-se como as vestes de pele utilitárias da equipa de Han Solo, Beckett, Val e companhia limitada assim como os trajes dos seus competidores em nada têm que ver com o fausto elegantemente simples dos senhores do crime que dominam a galáxia e suas cortes. Referimo-nos, pois claro aos habitantes do iate de Dryden Vos, interpretado por Paul Bettany. Na boa tradição dos vilões de Star Wars, o ator enverga um figurino preto-e-branco com um manto ominoso. Contudo, a sua estética geral tende também a referenciar os grandes playboys da década de 70 e 80, com a gola aberta da sua camisa branca, silhueta rematada com chumaços e o uso de joalharia vistosa.

Han Solo Star Wars figura de estilo
Mantos negros são a vestimenta clássica para vilões de Star Wars.

Quase todas as outras figuras no seu domínio luxuoso copiam o seu estilo ou emulam a decoração vagamente Arte Deco do espaço envolvente. A cantora no centro do salão do iate, que enverga um vestido de lantejoulas douradas que podia ter saído de um episódio de “Dinasty” quase parece uma extensão do mobiliário, por exemplo. Por outro lado, a sua principal confidente e concubina enverga uma espécie de versão feminina do seu figurino, com um vestido de seda de ombros exagerados, um decote profundo e joalharia vistosa. Ambas as mulheres são símbolos do seu poder, uma enquanto propriedade, quase um objeto decorativo, a outra enquanto extensão visual da sua presença.

Han Solo Star Wars figura de estilo
Emilia Clarke é a femme fatale deste filme e veste-se a rigor.

Convém referir que Qi’ra, a dita concubina interpretada por Emilia Clarke, é também a personagem mais complicada e multifacetada de “Han Solo: Uma História de Star Wars”, algo refletido na sua indumentária. Antes de a ver reencontrar-se com Han no iate de Dryden Vos, já o espectador conheceu a personagem na primeira sequência do filme, enquanto companheira do herói no seu planeta Dickensiano. Aí, as suas roupas eram largas e andrajosas, um piscar de olho dos figurinistas à iconografia de comédias românticas em cinema, onde muitas vezes vemos as protagonistas femininas vestir as camisolas e casacos demasiado grandes dos seus namorados.

Han Solo Star Wars figura de estilo
Capas escuras são um sinal inequívoco de autoridade neste universo.

Passados três anos da narrativa, ela é a femme fatale em cetim justo ao corpo. Os seus seguintes figurinos mantêm a sua qualidade sedutora e luxuosa, mas fazem concessões às necessidades práticas da aventura e à proximidade emocional que vai crescendo entre ela e o seu antigo apaixonado. Numa cena dentro de um pseudo casino cavernoso, ela veste peles que a ligam ao figurino invernal de Han. Durante a missão em si, ela veste um conjunto de blusa e calças em preto e um casaco de cabedal que parecem quase ser uma versão feminina do fato de Han. É interessante reparar que, quando ela tem de se mostrar como uma figura de poder, Qi’ra acrescenta ao traje uma capa muito ao estilo de Vos e toda uma série de outros vilões deste franchise.

Depois de falarmos de todas estas figuras, sobram-nos ainda duas personagens importantes cujas roupas são, curiosamente, os figurinos que mais gozo deram aos figurinistas. Segue para a próxima página para descobrires a que indumentárias nos referimos.

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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