11ª Festa do Cinema Italiano | Happy Winter, em análise

Happy Winter” de Giovanni Totaro é o único documentário na secção competitiva desta edição da Festa do Cinema Italiano.

Em Modello, uma zona de férias perto da cidade de Palermo na Sicília, todos os anos ocorre uma transformação paisagística nos meses de Verão. A praia desnuda, vazia e desabitada depressa se enche de pessoas assim como mais de um milhar de pequenas cabines de madeira, alugadas pela população em férias e turistas. A primeira imagem de “Happy Winter”, a primeira longa-metragem documental de Giovanni Totaro, começa com um plano a salientar essa mesma realidade através de uma imagem contra-picada do areal, onde se desenrola a quadrícula de telhados coloridos e por onde centenas de pessoas se passeiam, quais formigas apressadas, nos seus fatos de banho coloridos e bronzeados agressivos.

De facto, muito do prazer de ver “Happy Winter” depende do modo como Totaro filma a praia de Modello e seus habitantes, construindo tableaux de grotesco humano e kitsch estival cheios de cor e corpos seminus com uma suprassuma naturalidade e sem nunca mostrar sinais de esforço ou enfática encenação. Paolo Ferrari e Nunzio Gringeri, os codiretores de fotografia do projeto, merecem muito do louvor no que diz respeito a tal qualidade pictórica. No seu trabalho, Modello ganha a aparência de um postal garrido, vagamente festivo, mas também feio no seu excesso e vulgaridade.

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“(…)Modello ganha a aparência de um postal garrido, vagamente festivo, mas também feio(…)”

O modo como Ferrari e Gringeri filmam os corpos dos veraneantes é de particular interesse, exacerbando o seu lustro bronzeado, mas esvaindo-os de qualquer tipo de erotismo, não obstante quão esbelta ou flácida a figura em questão esteja. Também no crepúsculo e noite os seus esforços ganham particular interesse, perdendo algum do grotesco diurno para sugerirem algo quase onírico. A grande celebração noturna no fim de agosto, a que se poderia quase chamar o clímax do filme, é um espetáculo estonteante de fotografia naturalista usada como veículo para o fantástico, através de fogos de artifício, luzes coloridas e os reflexos irregulares de uma maré ondulante.

Tal virtuosismo formal não representa todos os méritos de “Happy Winter”, mas certamente eleva o filme acima de tantos outros documentários. Este filme, na verdade, mais do que uma montra de interessantes pinturas vivas de um verão italiano, constitui uma espécie de retrato antropológico da comunidade em cena, uma examinação de uma sociedade a virar as costas à realidade durante uns instantes de prazer sob o sol estival. A ilha de Sicília sofre uma cataclísmica crise económica, mas esse facto raramente perturba a paz meio idílica de Modello, somente manifestando-se em comentários passageiros ou ponderações preocupadas sobre um futuro incerto.

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O Verão e seu momentâneo boom económico representam um bálsamo para a comunidade, um alívio precário e extremamente momentâneo. De forma inteligente, o filme apenas alude à miséria que se encontra nas margens do Verão, mas o espectador vai-se lentamente apercebendo que, não obstante todos os sorrisos rasgados e mostras de folia, esta é uma comunidade que dança no fio da navalha. O seu equilíbrio é algo que não durará muito e o advento do outono depressa apagará as expressões bonacheironas das suas faces.

Uma das figuras do filme até se apoquenta sobre isso mesmo, murmurando para os seus botões o facto de que tem de conseguir ganhar o suficiente para não ir á falência no inverno. Outras famílias usam o Verão não como fonte de rendimento, mas como uma forma venenosa de se esquecerem dos seus problemas, acumulando mais dívidas só para poderem aproveitar umas semanas à beira-mar. Há algo de delicadamente apocalíptico em “Happy Winter”, que, por entre a sua coleção de momentos aparentemente inócuos constrói um retrato lacerante.

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“(…)é uma comédia, um drama observacional e, por fim, torna-se numa tragédia(…)”

Não se pode terminar uma análise deste filme sem mencionar os esforços de Andrea Maguolo e Fabio Ricci, os responsáveis pela montagem de “Happy Winter”. Não é que o documentário seja uma obra-prima rítmica ou algum objeto de grande complexidade estrutural, mas é na montagem que o olhar do realizador é modulado e os tons do filme emergem. Este documentário é uma comédia, um drama observacional e, por fim, torna-se numa tragédia, invisível a olho nu mas sentida tanto pelo espectador como pelas pessoas em cena que tudo fazem para ignorar a realidade da sua situação.

 

Happy Winter, em análise
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Movie title: Buon Inverno

Date published: 2018-04-12

Director(s): Giovanni Totaro

Genre: Documentário, 2017, 91 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO

Um retrato da efemeridade de um Verão Siciliano, “Happy Winter” é um fascinante documentário observacional, tão pronto a encontrar comédia grotesca nas suas personagens como as insinuações de algo trágico.

O MELHOR: A fotografia, especialmente nas cenas noturnas e ocasionais tableaux crepusculares.

O PIOR: O filme é bastante repetitivo e, não fosse o caso da sua modulação e evolução tonal, o seu exercício de observação revelar-se-ia como um poço de aborrecimento demasiado profundo para qualquer espetador casual se atrever a experienciar.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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