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IndieLisboa ’20 | Camp de Thiaroye, em análise

“Camp de Thiaroye” é uma obra incontornável e que orgulhosamente integra a retrospetiva dedicada a Ousmane Sembène nesta 17ª edição do IndieLisboa. A longa-metragem foi já exibida na cinemateca, a 29 de agosto, e repete novamente neste espaço pelas 21h30, no dia 4 de setembro.

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Em 2020, tal como anteriormente, o IndieLisboa não é apenas um mosaico do melhor do Cinema Independente feito nos anos mais recentes mas também um local optimizado para a homenagem de grandes trabalhos do passado. Nesta 17ª edição existe um claro foco no continente africano, com as retrospetivas a focarem-se no trabalho de um grande talento emergente e de um dos grandes mestres do continente.

Por um lado o Indie decidiu homenagear a ainda breve mas meritória carreira de Mati Diop, realizadora francesa de origem senegalense, sobrinha do grande realizador Djibril Diop Mambéty (“A Viagem da Hiena”), que em 2019, com o grande “Atlantics” (distribuído pela Netflix) se tornou a primeira realizadora negra a disputar a Palma de Ouro, tendo vencido em Cannes o Grande Prémio.

Ao seu lado enquanto outro homenageado encontramos Ousmane Sembène, realizador, produtor e escritor senegalense auto-didata  que marcou o cinema no Século XX, sendo intitulado como o “pai do cinema africano” e um dos mais afamados autores de cinema de sempre na África subsariana. O Indie apresenta uma retrospetiva completa da sua obra, na qual se contempla este “Camp de Thiaroye”, considerado por muitos como o seu melhor filme. 

“Camp de Thiaroye” é uma obra ficcional lançada em 1988 , vencedora do Prémio Especial do Júri em Veneza, capaz de nos transportar inteiramente para o seu universo ao longo dos seus longos e ainda assim curtos 157 minutos.  O filme passa-se no final da Segunda Guerra Mundial, com uma Alemanha já cercada pelos aliados. Acompanhamos o regresso a casa de soldados africanos que lutaram nesta guerra em nome da França. Antes de serem encaminhados para as suas respetivas aldeias, os soldados ficam temporariamente alojados no acampamento militar de Thiaroye. 

Thiaroye tem más condições de acomodação, desde a ausência de carne à ausência de liberdade e à prolongada estadia indesejada. Como último rastilho, o exército francês propõe uma redução no pagamento aos soldados. Os soldados organizam, como forma de retaliação, uma revolta bastante comedida que tem apenas como intuito a reivindicação do dinheiro que lhes é devido. O exército francês responde com um massacre noturno que arrasa a população do campo.

TRAILER | RETROSPETIVA OSMANE SEMBÈNE –  CAMP DE THIAROYE  

 

“Camp de Thiaroye” é um filme verdadeiramente marcante, em especial se tivermos em consideração o seu carácter semi-biográfico. É quase perfeito no seu retrato das relações tensas entre soldados franceses e africanos e a relação de ambos com o exército norte-americano dos Estados Unidos da América. Por outro lado, é sublime no retrato do desrespeito instaurado contra os soldados africanos, perpetuamente vistos como inferiores.

Esta é uma obra que coloca o dedo na ferida de um colonialismo selvagem, que tornou o Continente Africano totalmente submisso ao Europeu. O grito humanista que aqui se arquitecta recorda-nos uma relação desigual e desequilibrada capaz de envergonhar até aquele que assiste ao filme. “Camp de Thiaroye ” é um filme tão poderoso que parece errado não ser do conhecimento do público generalizado.

Visto como um filme de guerra sem guerra, o esforço humanista é o que mais transparece neste “Camp de Thiaroye”. Os soldados são de carne e osso e sofremos  devido ao seu lamentável fim, condenando por extensão o próprio massacre real que ocorreu em 1944. A longa-metragem consegue assim o poderoso feito de recuperar a história e trazê-la para o aqui e agora sempre que revisitada.

Esta obra cinematográfica funciona como um documento histórico vivo, que devido ao seu carácter incisivo se viu inclusive proibida em França e no Senegal. “Camp de Thiaroye” é documento e uma crítica poderosa , mas não deixa por isso de ser grande “Cinema” com “C” grande. Dos seus grandes planos perfeitamente articulados e coreografados à música clássica que permeia toda a duração do filme, aqui temos um objeto estético com uma componente crítica inegável. Bravo!

Camp de Thiaroye

Movie title: Camp de Thiaroye

Date published: 29 de August de 2020

Director(s): Ousmane Sembène, Thierno Faty Sow

Actor(s): : Sidiki Bakaba, Hamed Camara, Ismaila Cissé, Ababacar Sy Cissé

Genre: Drama, Guerra

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  • Maggie Silva - 95
95

Um resumo

“Camp de Thiaroye” é um gigante filme, capaz de assombrar o seu espectador durante longos períodos de tempo. Um emotivo retrato que promete perdurar na memória sem nunca perder a sua pertinência e atualidade.

O MELHOR: É um tenebroso relato que perpetua memórias coloniais que o ocidente poderia preferir esquecer.

O PIOR: Nada de pertinente a apontar a este grande testemunho fílmico.

MS

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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