A Maratona Boca do Inferno é já uma das tradições mais nobres do festival IndieLisboa, com a sua noite sem sono repleta do melhor cinema ao longo de sete horas. Das 23h30 às 7 da manhã, do dia 8 para 9 de maio de 2026, no Cinema Ideal, foram exibidos um total de 10 filmes, com 3 longas-metragens intercaladas por curtas, perante uma vibrante e esgotada sala de cinema.
Maratona Boca do Inferno: a programação ideal para uma noite sem sono
Uma ocorrência já inabalável na programação do IndieLisboa, e de volta nesta 23.ª edição, assim é a Maratona da Boca do Inferno. A secção não competitiva dedica-se ao melhor do terror, fantástico, sobrenatural, não se limitando a estes géneros mas englobando todo o tipo de narrativas que possam provocar estranheza, envolver uma sexualidade mais ousada ou, em geral, evocar desconforto, afastando-se dos parâmetros comuns das narrativas fílmicas.
A magia desta secção é que, mesmo sem se limitar a um género, a sua elasticidade temática notável nunca deixa de ser reconhecível. Sabemos que um filme pertence legitimamente à Boca do Inferno quando o vemos, e tal não foi excepção neste ano de 2026.
De novo, a maratona de meia-noite do IndieLisboa pautou-se por um aligeirar curioso e bem-vindo das regras numa sala de cinema. Sem nunca desrespeitar o próximo ou a experiência de visualização em sala, o público nesta longa noite deixou-se sentir confortável. Sapatos tirados, pernas cruzadas, snacks para aguentar toda a noite, bebidas energéticas e até meias de compressão surgiram no Cinema Ideal, par a par com uma programação sedutora e que nos levou numa descida progressiva até à loucura, como um dos programadores prometeu no início da sessão.
Uma razão para esta Maratona da Boca do Inferno resultar tão bem, ano após ano, prende-se com o casamento perfeito entre as temáticas dos filmes e a experiência de passar uma noite inteira a ver cinema. De mistério a terror, da paranoia corporativa ao comentário acídico sobre o mundo do aqui e agora, as longas e curtas aqui exibidas organizam-se mediante uma lógica inteligente, num gesto muito interessante de programação: à medida que a noite progride, as temáticas tornam-se mais obscuras e absurdas, à medida que clamamos pelas nossas camas e o véu entre o real e outros mundos se torna mais fino.
Mas saltando para a programação propriamente dita, a maratona arrancou com a curta “Index”, vinda da Roménia e assinada por Radu Muntean. Nesta curta a rondar a marca da meia-hora, um ornitólogo recolhe material para a sua pesquisa numa floresta remota. Tudo decorre dentro da normalidade até se deparar, nas suas gravações noturnas, com uma criança selvagem. Este pequeno thriller tem uma capacidade meritória no que diz respeito à criação de mistério, contando com uma sonoplastia particularmente interessante. Contudo, quando chega a hora da verdade, do grande confronto, este acontece fora do enquadramento, o que acaba por se apresentar como uma resposta insuficiente para a tensão que é criada ao longo de toda a curta.
Camp: uma jornada improvável de crescimento pessoal no IndieLisboa

Logo de seguida, e antes de chegarmos ao primeiro intervalo da maratona, tempo para a primeira de três longas-metragens em exibição. “Camp”, escrito e realizado pela canadiana Avalon Fast é um filme perfeito para a maratona, numa obra que se torna rapidamente num inebriante sonho febril. Esta é a história de Emily, uma jovem com um passado traumático que envolve um acidente de carro e ainda a overdose prematura da sua melhor amiga.
Depois de trauma após trauma, Emily (Zola Grimmer), encontra refúgio num lugar improvável: um campo de férias liderado por um fervoroso líder religioso, onde nada é o que parece. O campo é o local perfeito para narrar a sua histórica, um espaço fílmico onde por excelência se situam histórias de “coming of age”: onde o desenvolvimento pessoal e o crescimento decorrem e, paralelo ao crescimento das crianças do campo, vamos também acompanhando o crescimento e a cura espiritual de Emily.
Claro que este coming of age não é de todo semelhante às narrativas mais clássicas do cinema, munindo-se de um misticismo crescente, onde a beleza e o horror se encontram, e onde o onírico tem muito, muito espaço para se manifestar livremente. Emily é rodeada de um elenco secundário de personagens femininas marcantes, sedutoras, perigosas, numa realidade que se vai tornando progressivamente mais distante do real e mais cimentada no sonho. É delicioso acompanhar a sua jornada invulgar e indefinida.
Após o primeiro intervalo, mais três curtas-metragens e uma longa. “Interface”, de Aya Kawazoe, oriunda do Japão, é um pequeno pedaço de cinema onde a ficção narrativa e o experimental se encontram. A obra resiste à categorização simples, apresentando um homem inanimado que passa brutalmente despercebido numa rua movimentada, enquanto um insecto lhe invade o corpo, sendo este o mote para um terror que se precipitada em espiral. Há que assinalar que este é um regresso da cineasta japonesa ao IndieLisboa, depois da sua curta “Howling” ter sido premiada no ano de 2023.
Já “Life of the Organoid” é a primeira, mas não a única curta animada em exibição nesta Maratona da Boca do Inferno. Chega-nos a partir dos Países Baixos, assinada por Daan Lucas, e tal como a sinopse indica: “Numa planície de luz parca, onde a vida não abunda, o Organoid ocupa os seus dias numa existência simples. A dado momento, começa a notar uma presença ameaçadora em seu redor. Decide fugir e o confronto acontece.”
Assim, “Life of the Organoid” é um daqueles pequenos grandes filmes que, através de uma metáfora visual, consegue falar de tudo e de nada, e encantar grandemente em apenas quatro minutos de duração. Para este encanto contribui, e muito, a encantadora animação tradicional, o existencialismo em doses industriais e o humor bastante característico e irresistível.
Numa colaboração cinematográfica entre a Polónia e a França surge-nos a curta “Weird to Be Human”, um conto futurista que se situa no ano de 2194 e que consegue apresentar uma abordagem interessante e inovadora para a temática da inteligência artificial. Dentro deste universo, são cultivados corpos com uma aparência semelhante à humana e os quais servem como recipientes para depositar inteligência artificial. Aqui, as transferências entre o mundo digital e físico tornaram-se recorrentes, mas o processo não deixa de envolver uma componente emotiva dominante.
No Departamento de Encarnações, encontramo-nos perante o desespero de um destes seres e perante os dilemas que separam a vida corpórea da digital. Tudo resulta em “Weird to Be Human”. Apesar dos sets limitados, a componente visual e a identidade desta obra estão definidas na perfeição, tal como o clima de estranheza e transgressão reinantes. Ademais, “Weird to Be Human” mune-se de uma característica rara mas muito valorosa: resulta muito bem como curta, mas com muita facilidade conseguiríamos imaginar esta história expandida para o formato de longa. Aliás, adoraríamos que tal acontecesse.
Fucktoys: agência e sensualidade no feminino

Annapurna Sriram é a argumentista, realizadora e protagonista do inebriante e irresistível “Fucktoys”, segunda longa-metragem exibida na Maratona da Boca do Inferno. Tudo começa neste alucinado road movie sedutor num ponto de partida absurdo que combina na perfeição com a natureza do argumento: uma jovem trabalhadora do sexo chamada AP, a nossa protagonista, descobre que tem uma maldição lançada sobre si e precisa de coleccionar 1000 dólares para a conseguir levantar.
Para tal, terá de explorar os limites da sua invulgar povoação, que dá pelo nome de Trashtown, para conseguir angariar os seus fundos e para, idealmente, não ter de sacrificar uma cabrinha pelo caminho. Com sensibilidades queer e uma afinidade às paródias drag, “Fucktoys” é um filme que se orgulha da sua natureza “trashy”, utilizando-a não só como estética, mas também como nome da própria povoação onde decorre a acção.
Com a ajuda da sua amiga Danni, num filme que celebra a amizade feminina de forma acentuada, AP move-se num mundo plástico, invulgar, mas que não deixa de expressar algo acerca da sociedade contemporânea. “Fucktoys” é extremamente “sex positive”, celebrando a agência da sua protagonista feminina, uma encantadora e inegável trabalhadora do sexo interpretada pela cineasta Annapurna Sriram na perfeição. A protagonista respira sensualidade e não é senão irresistível em cada momento do filme, cativando-nos desde o primeiro frame.
As acções da nossa protagonista podem nem sempre ser moralmente válidas, mas a obra nunca a julga, colocando antes a ênfase no engenho e na necessidade. Ao fim de contas , tal como AP, somos apenas o reflexo do nosso ambiente e, por vezes, há imperativos intransponíveis. Sensual, inebriante, vertiginoso e divorciado de morais simples ou juízos precipitados, “Fucktoys” segue a sua própria imagética e vibe, sempre sedutor com os seus tons pastéis, guarda-roupas e cenários vibrantes e ambientes decadentes mas inesquecíveis. E quem diria que esta é a estreia na realização para Annapurna Sriram?
A rampa final com o último bloco de filmes na Maratona Boca do Inferno em 2026 arrancou com a curta “Thanks to Meet You”, comédia curta e vinda do Reino Unido e realizada por Richard Hunter. Como nos foi prometido, o véu entre o real e um outro qualquer reino começou a cair. Já por volta das 5 da matina, o absurdo foi abraçado de forma plena com esta próxima curta, que nos situa numa sala de espectáculos, onde um grupo de engravatados tenta fazer negócios. Mas eis que tal se torna cada vez mais impossível, à medida que o comportamento dos envolvidos se torna progressivamente mais invulgar: da repetição enfática aos gritos, das confissões improváveis aos gestos excessivos, tudo se precipita para o caos no filme de Richard Hunter. E é também daí que advém a sua grande capacidade de entreter e divertir.
Seguiu-se-lhe outra curta animada, “Um”, adaptação de um conto clássico coreano, assinado por Luis Nieto. A obra transporta-nos para um universo fantástico, povoado por uma criatura que é meio humana e meio ave e que tenta resolver um problema complexo, o facto dos seus ovos se encontrarem assombrados. O filme é tão estranho quanto esta sinopse faz antever (talvez até ainda mais) mas não negamos a sua adequação no que diz respeito às temáticas subjacentes a esta maratona.
Como última curta desta maratona Boca do Inferno temos “Homemade Gatorade”, sem dúvida a nossa curta-metragem favorita entre o conjunto apresentado. Assinada por Carter Amelia Davis e vinda dos EUA, a obra apresenta-se como uma brutal crítica cómica da sociedade paranóica do aqui e agora. A nossa protagonista é uma personagem que cria uma bebida energética caseira e que faz um longo trajeto para a vender a meio da noite.
A sua viagem é vertiginosa, sempre surpreendente e extremamente engraçada, bem como munida de um perigo galopante e bem real. São os receios da contemporaneidade, expressos numa forma fílmica estranha e bem-vinda, onde a imagem real se encontra com animação baseada em recortes e onde a protagonista apresenta um olhar alucinado, assente num par de olhos virados do avesso. Tal qual o nosso mundo.
A utopia paranóica de Adrian Țofei com We Put the World to Sleep

Por fim, a longa-metragem derradeira: “We Put the World to Sleep”, exibida já quando o sol estava prestes a nascer. Com direito a presença e apresentação por parte do realizador Adrian Țofei e da sua esposa, co-protagonista e co-argumentista, Duru Yücel, este filme fechou uma longa programação com direito à paranoia como palavra de ordem.
Nesta viagem rumo à insanidade, o romeno Adrian Țofei e Duru Yücel propõe-se a cumprir uma missão secreta: criar um filme capaz de pôr fim ao mundo. Realizado ao longo de uma década, o filme, com um orçamento bastante modesto e recorrendo ao uso de shaky cam e gravações feitas por telemóveis, é um testemunho da vontade inabalável dos seus criadores, e sem dúvida um fenómeno baseado em inventividade.
Entre improviso e guião, entre obsessão e concretização, Adrian e Duru dão corpo a duas personas que não são as suas: duas almas que vêm o mundo através de uma lente distorcida e que, rapidamente, começam a deixar de saber distinguir o que é ou não real. Serão as suas vidas reais, o seu casamento, as suas mães, toda a sua experiência? O que é ou não verdade neste universo distorcido que as personagens ocupam. É difícil dizer, e esta dúvida depressa nos leva à insanidade.
A grande façanha de “We Put the World to Sleep” é arrastar quem vê para a insanidade do seu mundo, conseguindo provocar a audiência, ao mesmo tempo que o absurdo evoca o riso. Todavia, e com alguma pena do nosso lado, o filme torna-se um pouco cíclico e, apesar dos seus vários pontos positivos, a experiência de visualização é por vezes um pouco cansativa. Não obstante, é bom ver cinema tão puro e tão puramente criativo, feito com tão pouco – apenas com a imaginação de dois parceiros artísticos e uma premissa situada no reino do absurdo.
Para o ano há certamente mais Maratona da Boca do Inferno, nesta que é já uma tradição basilar no IndieLisboa. Em 2026, marcaste presença?

