IndieLisboa ’21 | She Dies Tomorrow, em análise

Uma epidemia niilista assombra as personagens de “She Dies Tomorrow”, um dos melhores filmes na secção Boca do Inferno do IndieLisboa 2021. A segunda longa-metragem de Amy Seimetz conta com um elenco de luxo, incluindo Kate Lyn Sheil, Jane Adams, Chris Messina e Michelle Rodriguez.

Já passaste uma noite sem sono, atormentado pela insónia até ao ponto em que a própria mente parece ser uma prisão, o cérebro feito inimigo do mesmo? São aqueles serões solitários em que só a escuridão faz companhia e os demónios escondidos nos recantos do pensamento vêm ao de cima. Memórias difíceis de um passado traumatizante abatem-se sobre a consciência, mas com elas vêm também temores de um futuro imparável. Pensa-se na morte, esse elemento comum a todo o ser vivo. Afinal, viver é morrer, pois sem esse ponto final, simplesmente existiríamos. É a efemeridade da vida que lhe dá valor, é a condição humana.

Pelo menos, tais são as argumentações de muitos filósofos e pensadores. Talvez raciocínios semelhantes brotem do medo e não da aceitação. Se a morte não tem razão de ser, por que temos de falecer? Por que é que temos de ter fim? Por que razão estamos condenados a ver aqueles que amamos desaparecerem, um por um? Em tempos de pandemia, estas questões são cada vez mais presentes e assim essas noites de insónia se multiplicam. Em certa medida, trata-se de uma pandemia paralela, uma crise existencial, um vírus da mente que nos afeta quando estamos no fundo do poço do desespero, na cela agrilhoada da depressão.

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© IndieLisboa

Amy Seimetz escreveu e rodou “She Dies Tomorrow” antes do apogeu do COVID-19, mas seu exercício em cinema de terror internalizado parece ter sido feito à medida deste momento histórico. Na trama, a cineasta literaliza este medo comum a todo o humano e faz dele uma doença de certeza irracional, maladia contagiosa que passa de pessoa em pessoa com uma facilidade estonteante. Tudo começa com Amy, jovem Americana que recentemente comprou casa, um marco de difícil alcanço para pessoas da sua geração a viver no século XXI. De facto, do telefone soam felicitações de amigos, júbilo em reação à fortuna e boa sorte da rapariga.

Contudo, algo está errado. Ao invés do contentamento, Amy está inquieta e enervada, como que desassociada da sua presente situação. Examinando a inexpressão da sua protagonista, a câmara de Seimetz foca-se em olhos vazios, uma índole letargia que se vê eletrizada por uma corrente subcutânea de ansiedade. Princesa regente do cinema indie, a atriz Kate Lyn Sheil atira-se de cabeça num circo de pânico silencioso, fazendo um espetáculo da sua displicência. Vemo-la, à Amy, pesquisando urnas na internet, a preparar-se para uma morte, mas só quando uma luz colorida se manifesta é que descobrimos a especificidade do tormento. Explodindo em súbita emoção, Sheil dá vida a uma mulher convencida que vai morrer no dia seguinte.

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Outros filmes explorariam as extremidades desta psicose pessoal, mas Seimetz deixa que a narrativa se difunda por outras personagens. Assim se tece a teia de “She Dies Tomorrow”, uma rede de contágios e angústias, uma certeza diabólica que todos vamos morrer amanhã. Ao expandir o retrato, do indivíduo ao colético, a cineasta abre portas à variação e expande os horizontes deste ataque de nervos virulento. Basicamente, através de diferentes figuras, examinamos como pessoas distintas confrontam o conhecimento do seu fim, quer este se vá concretizar ou não. Tão focado está o filme no comportamento humano, que as especificidades da premissa fantasiosa jamais são explicadas. O mistério só torna tudo mais interessante.

As mesmas batidas repetem-se uma e outra vez, como o refrão de uma canção que só os doentes conseguem ouvir. O grande plano iluminado por matizes sobrenaturais serve de indicador da infeção, mas depois, cada personalidade se desfaz à sua própria maneira. Para alguns, a morte traz liberdade, lágrimas seguidas de um desapego ao medo de morrer. Face ao fim, há quem consiga começar a viver, como um livro que só começa a narrativa no último capítulo. Outros veem-se paralisados, incapazes até de chorar. Relações tóxicas terminam num gesto de honestidade derradeira, insinceridades mutam-se em verdades ou revelam sua natureza genuína. Quando o controlo que temos sobre a nossa própria sobrevivência desaparece, alguns sentem-se mais serenos, em paz.

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Será isto loucura ou uma epifania? Quem sabe? Seimetz não dá respostas algumas e as personagens dentro do filme encontram-se tão ou mais desorientadas quanto o espetador. Em termos metafóricos e concretos, muitos dos comportamentos exibidos pelo elenco são facilmente comparados com sintomas da depressão clínica. Só que reduzir “She Dies Tomorrow” a uma metáfora sobre estar deprimido é demasiado simplista. Amy certamente protagoniza um estudo da psique desesperada, mas os outros contagiados não se enquadram tão perfeitamente nesse modelo. Jane, interpretada por Jane Adams, vive um ciclo do luto, começando por negar o sentimento que lhe consome a alma antes de o rejeitar em raiva. Lá ela passa pelos paradigmas convencionais da perda, lentamente reconhecendo a impotência que a define enquanto ser humano num cosmos vasto. Em comparação, um médico afetado só consegue chorar nos braços de Jane.

Há algo de primordial neste filme, uma extrapolação de medos essenciais, expandidos até ao ponto do absurdismo. Os paradigmas estéticos do cinema independente Americano definem limites banais ao exercício, mas “She Dies Tomorrow” sabe quando trocar o passo às expetativas. A luz mágica é bom truque, mas é a música que mais afeta, remexendo composições conhecidas, alienando-nos do que é familiar. É tudo muito cru e muito concetual, mais próximo do cinema experimental que a maioria das narrativas festivaleiras. No entanto, a visceralidade da premissa busca a universalidade e, para alguns, tê-la-á alcançado. Certamente todos se poderão identificar com os medos basilares deste pesadelo. Afinal, vamos todos morrer um dia, talvez amanhã.

She Dies Tomorrow, em análise
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Movie title: She Dies Tomorrow

Date published: 31 de August de 2021

Director(s): Amy Seimetz

Actor(s): Kate Lyn Sheil, Jane Adams, Chris Messina, Kentucker Audley, Katie Aselton, Tunde Adebimpe, Jennifer Kim, Josh Lucas, Michelle Rodriguez

Genre: Drama, Fantasia, Mistério, Terror, 2020, 86 min

  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO:

“She Dies Tomorrow” é uma proposta fantasticamente estranha de terror psicológica. Ao invés de um inimigo material, Amy Seimetz concebeu um vírus de medo contagioso, uma certeza mórbida que, no fim, pode ser condutora de insanidade ou de paz. Mesmo sem ter sido feito com isso em mente, o filme tem especial poder enquanto resumo do mundo em tempos de pandemia.

O MELHOR: A prestação de Jane Adams, a variação cromática na fotografia anti naturalista de Jay Keitel, a música assombrosa dos Mondo Boys.

O PIOR: Há claras limitações no milieu social a que Seimetz se restringe. Vemos quase exclusivamente a vida de californianos abastados e há uma vontade pertinente de se expandir os horizontes da pesquisa. Dito isso, essa miopia está na fonte do final tragicómico e não quereríamos sacrificar essas derradeiras notas por nada neste mundo.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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