Tarde para morir joven

16º IndieLisboa | Tarde para morir joven, em análise

Tarde para morir joven” é um dos mais belos filmes da secção Silvestre do IndieLisboa, contando a história de uma comunidade chilena a viver o primeiro verão sem a ditadura de Pinochet a pesar sobre as suas costas.

Ao longo da História do Cinema, e até da Arte de modo geral, tem existido uma associação próxima entre a efemeridade da juventude e a qualidade passageiro do Verão. A bonança da estação mais quente do ano deixa sempre a impressão de ter passado num abrir e fechar de olhos, seus prazeres sempre sombreados pela finalidade que lhe está próxima, o advento dos meses de Outono. Também a inocência e maravilhas da juventude são sempre saboreadas com a noção de que, no horizonte, a idade adulta se aproxima a passos largos. Talvez enquanto vivemos o rubro da meninice não entendamos isso, mas, na memória, os tempos em que fomos jovens estão sempre pintados com tanto júbilo como melancolia.

No seu mais recente filme, a cineasta chilena Dominga Sotomayor Castillo retorna a esta dinâmica entre o ciclo das estações e o ciclo da vida humana. Desta vez, contudo, junta-se um terceiro participante a esta dança de conceitos, a ideia de uma nação de tenra idade que vê, no horizonte, o advento da maturidade. “Tarde para morir joven” passa-se em 1990, quando o Chile ainda dava os primeiros passos depois da queda do regime ditatorial de Pinochet, em direção a um futuro democrático. O cenário, é uma zona remota do país, no meio dos arvoredos, onde uma comunidade isolada se formou, quiçá em resposta à opressão governamental. Os parâmetros do seu isolamento nunca são claros, mas este não é um filme que se perca muito em detalhes de exposição.

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Um país a entrar na idade adulta.

Dividindo-se em três atos surpreendentemente bem definidos, o projeto preocupa-se com os últimos dias de 1990 e a alvorada do novo ano. Nesse período, a câmara de Castillo deambula pelas vidas daqueles que escolhem habitar casas construídas no meio da natureza, sempre em comunhão com as árvores cujos ramos lhes invadem os quartos e com os animais cujas sombras decoram as paredes de plástico esticadas, como uma tela, entre esqueletos arquitetónicos de pau e tábua grosseira. A realizadora, talvez num gesto meio autobiográfico, foca-se naqueles cuja idade tanto rima com a estação mais quente do ano. São eles as crianças e adolescentes, quais satélites que orbitam o universo adulto sem o entenderem, sempre às margens de preocupações maiores que o espectador só vai apanhando em conversas mal ouvidas dos pais e outros adultos.

Sofia é a figura que mais puxa pelo olho atento da realizadora. Ela é uma adolescente a passar por uma fase de rebeldia contra a autoridade do pai, um homem solteiro cuja esposa abandonou a comunidade independente para regressar ao mundo exterior. A filha dessa mulher que rejeitou o modo de vida a que o marido dedicou a vida parece começar a partilhar as mesmas ansiedades da mãe, ansiando por viver longe dali. Como uma típica adolescente rebelde, é claro, Sofia não sabe como traduzir seus sentimentos de um modo particularmente saudável. Por exemplo, ela fuma sem prazer, como se o ato fosse somente uma forma de irritar o pai e se convencer a si mesma que é adulta e não uma menina.

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Sua atitude é traduzida de modo particularmente destrutivo no modo como Sofia vai experimentando sexualmente pela primeira vez. Um dos seus grandes amigos está claramente enamorado por ela e Sofia, por seu lado, não parece desgostar da sua atenção. Contudo, o desejo pela maturidade adulta, pela independência que lhe dará asas para seguir nos passos da mãe, leva-a a deixar-se levar pelos encantamentos de um homem mais velho. Não há grande felicidade a brilhar nos olhos de Sofia ou interesse romântico, somente a vontade obstinada de provar algo a si mesma, a teimosia de alguém que quer crescer à força. Nesse olhar, também reside uma névoa de constante melancolia, uma tristeza que devém da perda de algo que nunca realmente existiu.

Tais sentimentos marcam cada segundo do filme, ecoando pelo coração do espectador como “Fade Into You” de Mazzy Star ecoa na banda-sonora. Até a fotografia reflete essa mesma tonalidade, sugerindo o calor do Verão, mas usando, ao mesmo tempo, uma paleta de cores desbotadas e frias. As composições recordam as primeiras curtas e longas-metragens de Jane Campion na sua desfragmentação de espaço e corpos, com o principal sujeito da imagem a ser recorrentemente empurrado para as margens, em benefício do espaço vazio. Muitos dos mais belos planos são aqueles que traduzem a perda e o vácuo doloroso no coração de Sofia, pois assemelham-se a composições deformadas, onde está algo em falta, algo indefinido, mas cuja ausência é sentida.

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Crescer dói.

Em crítica de cinema, dizer que um filme é poético é um dos maiores clichés imagináveis. Contudo, “Tarde para morir joven” é um projeto para o qual qualquer outra denominação parece errónea. A própria estrutura da obra funciona mais como versos rimados do que como prosa narrativa. Imagens repetem-se em variações espelhadas, diálogos e poses, gestos e expressões, dançam entre si com a beleza do seu trabalho a existir na relação que estabelecem uns com os outros e não tanto na sua condição individual. O mais belo destes versos rimados nem é o modo como a nação a entrar na idade adulta da democracia reflete as inseguranças de Sofia. O mais belo é o fim e o início do poema cinematográfico, imagens de fogo e a cavalgada de um cão por entre a paisagem adornada por um cobertor de fumo branco.

Não é o conteúdo material destas imagens ou seu contexto narrativo que impactam o espectador. Trata-se de algo esteticamente belo, sem dúvida, com o uso económico de câmara lenta e uma sonoplastia abafada. No entanto, a realidade emocional existe na rima, no espaço entre as repetições, no intervalo, na sugestão de algo intangível e desolador na corrida do canídeo e na paisagem. Dominga Sotomayor Castillo pode não ter aqui assinado o suprassumo documento cinematográfico sobre o Chile no berço de uma nova era política, mas concebeu um retrato lacerante da confusão da juventude, especialmente a juventude que está prestes a acabar e dar lugar a algo novo e incerto. Crescer dói e esta realizadora sintetizou aqui essa dor que todos sentimos em algum ponto da nossa vida.

Tarde para morir joven, em análise

Movie title: Tarde para morir joven

Date published: 2019-05-03

Director(s): Dominga Sotomayor Castillo

Actor(s): Demian Hernández, Antar Machado, Magdalena Tótoro, Matías Oviedo, Andrés Aliaga, Antonia Zegres, Alejandro Goic, Eyal Meyer

Genre: Drama, 2018, 110 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

“Tarde para morir joven” é o conto de um Verão moribundo e uma adolescência prestes a chegar ao fim. É também um poema sobre uma nação a renascer e um pai a ser confrontado com uma filha decidida a rejeitar o seu modo de vida. É a história de uma jovem perdida em melancolia e nostalgia, em inseguranças e a teimosia de uma criança que quer ser já crescida.

O MELHOR: A fotografia que é quente e é gélida em igual medida.

O PIOR: Isto é uma crítica transversal a muitos filmes, especialmente no contexto de um festival de cinema independente, mas “Tarde para morir joven” beneficiaria muito de uma montagem mais judiciosa, capaz de se desfazer dos momentos mortos que afetam muito o primeiro ato da história.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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