Rotterdam 2019 Introduzione all'oscuro critica

Rotterdam 2019 | Introduzione all’oscuro, em análise

Introduzione all’oscuro” é um peculiar documentário de Gaston Solnicki que funciona como canção apaixonada à beleza de Viena e derradeira homenagem a um cinéfilo e amigo falecido. O filme esteve disponível online no Festival Scope depois de já ter sido exibido no International Film Festival Rotterdam de 2019.

A 23 de julho de 2017, Hans Hurch, o crítico de cinema e então diretor do Festival de Cinema de Viena morreu de um ataque cardíaco. Tinha 64 anos e deixou para trás um importante, mas facilmente negligenciável legado artístico e cultural, assim como amigos chegados que tanto adoravam este homem como o admiravam profissionalmente. Um desses amigos é o realizador Gaston Solnicki, um cineasta argentino que, face à sua perda, decidiu construir um filme em homenagem ao seu amigo caído.

A obra que resultou de tal impulso enlutado foi “Introduzione all’oscuro”, uma espécie de documentário que funciona quase como uma carta de amor a Viena e um estudo sobre o vazio deixado por Hurch com a sua morte. Como tal, todo o projeto transborda uma melancolia que contamina até as mais belas composições que Solnicki captura de Viena. Afinal, logo no início da experiência, o cineasta é cândido na sua admissão de que todo o filme foi construído num acesso de tristeza meio maníaca.

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Um filme nascido do luto, da dor da perda, da tristeza maníaca.

Curiosamente, esta é uma elegia despida de sentimentalismos extremados, preferindo desdobrar-se em subtis tons e experiências formais bem apropriadas a um trabalho sobre alguém que ama cinema. Uma sequência logo no início do filme mostra-nos como Solnicki consegue dizer muito sem ter de proferir uma única palavra. Sua língua é a montagem e os estímulos audiovisuais de Viena e através desse idioma ele estabelece contrastes e comparações entre Hurch e outros figurões da Arte austríaca.

Num cemitério, a câmara mira as construções monumentais que celebram o legado de mitos artísticos do passado. Tratam-se de ícones culturais cuja lenda é maior que qualquer homem. A estatuária marmórea é uma ilustração da lenda e não dos homens. Em contraste, Hurch passa a eternidade num túmulo sem aparato. Seu lugar de “descanso” é feito à escala do corpo que nele jaz, pois não há lenda que ultrapasse a dimensão do físico humano. Somente os amigos e admiradores, os cinéfilos vienenses, se lembram e, infelizmente, tal não é suficiente para justificar a edificação de todo um monumento de luto.

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“Introduzione all’oscuro” está cheio de passagens assim, onde o cinema enquanto linguagem se esforça para prestar homenagem a uma pessoa que toda a sua vida dedicou à maravilha da sétima arte. Não que Solnicki se deixe ficar pela melancólica homenagem feita com imagens silenciosas de Viena com ocasionais composições de Mozart na banda-sonora. Seu método é muito mais variado, incluindo o uso de escrita, cartas e postais, fotografias como slides sugestivos e até a catalogação de objetos roubados a restaurantes e bares da cidade frequentados por Hurch que tinha o hábito cleptómano de levar chávenas e pratos para casa.

O resultado de tais esforços é um retrato dessa figura que nunca aparece no filme além do espectro estático da fotografia ou do documento fantasmagórico que são seus postais alegres. Um retrato que é feito de impressões, de objetos acumulados, memórias de artistas e o vácuo que se sente no mundo depois de Hurch o ter deixado. Solnicki rouba as chávenas pois o seu amigo já não está lá para o fazer. O gesto é uma homenagem brincalhona, mas é também o sublinhar do facto que o ladrão já não está presente para cometer o crime.

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O realizador não teme a experimentação, nem mesmo quando se empenha num projeto tão inerentemente pessoal e sentimental como este.

Convém dizer que, para um filme sobre o vazio deixado pela morte, “Introduzione all’oscuro” é um filme recheado de magníficas imagens e sons ainda mais extraordinários. Planos recorrentes de um ringue de patinagem constituem pinturas meio abstratas, especialmente quando a superfície derrete e tudo se torna num espelho para o sol crepuscular, por exemplo. Idas ao cinema são a visita a um templo de escuridão, algo quase místico onde Lubitsch é o Deus a quem os crentes prestam devoção.

Contudo, apesar de tudo isso, nenhuma imagem sumariza melhor o filme e a experiência de o ver que um plano de reflexos numa montra. Trata-se de uma rua refletida, seus transeuntes feitos fantasmas transparentes na parede de vidro. Toda a Viena é uma cidade de fantasmas, os artistas que dão à cidade seu caché cultural são fantasmas, todo seu legado é um fantasma e também assim é Hans Hurch. Tal misticismo pode parecer rebuscado, mas é essa a verdade emocional com que este poema cinematográfico de perda e adoração nos deixa, como o espectro de calor humano que fica no nosso corpo depois de um abraço apertado de um amigo querido.

Introduzione all'oscuro, em análise
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Movie title: Introduzione all'oscuro

Date published: 24 de February de 2019

Director(s): Gaston Solnicki

Genre: Documentário, 2018, 71 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

“Introduzione all’oscuro” é uma sofisticada homenagem a um cinéfilo amigo que também foi uma importante figura cultural de Viena. Através de metodologias diversas, o filme torna o luto em exercício audiovisual que tanto deleita como pesa sobre os corações de quem o vê.

O MELHOR: A montagem é inspirada, especialmente na sua negociação entre fazer deste um filme postal de Viena e um requiem para Hans Hurch.

O PIOR: Alguns dos postais são grotescamente irónicos na sua vivacidade e há algo de mau gosto na sua inclusão em tão delicada elegia.

CA

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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