As modas icónicas de Jackie | Figura de Estilo

A recriação e reinvenção de algumas das mais icónicas roupas de Jackie Kennedy, poderão valer à figurinista Madeline Fontaine o seu primeiro Óscar.

jackie madeline fontaine

Recriar Jackie Kennedy foi um desafio monumental para Natalie Portman, especialmente se considerarmos as permutações idiossincráticas de Jackie no que diz respeito ao seu retrato central. No entanto, por muito difícil que tenha sido encontrar um equilíbrio entre as exigências da visão do seu realizador e as cadências incrivelmente afetadas da fala e gestualidade da antiga Primeira-Dama dos EUA, o trabalho interpretativo de Portman é secundário a algo ainda mais importante. Referimo-nos à recriação da imagem de Jackie pois, antes de se iniciar uma desconstrução do ícone, há que se apresentar o ícone em questão e é impossível desassociarmos a celebridade de Jacqueline Kennedy do seu estilo pessoal.

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Tal afirmação pode ser superficial, mas a superficialidade faz parte do jogo deste filme que olha para a figura histórica e se propõe a estilhaçar e desconstruir a própria ideia de quem foi Jackie Kennedy em termos políticos, iconoclastas, históricos, sociais, performativos e humanos. A imagem e estatuto de ícone da moda associados a Jackie Kennedy fazem assim parte do seu legado e, no filme, ela mesma se revela uma entendedora do impacto que a sua imagem tem nos que a rodeiam. Afinal, é ela mesma que se recusa a despir o fato cor-de-rosa da Chanel manchado com o sangue do seu marido. Uma escolha sábia, visto que, desde esse fatídico dia em 1963, essa imagem está gravado a fogo na mentalidade coletiva da América e do mundo.

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A imagem pessoal torna-se numa arma de manipulação pública e o figurino assume o papel de figurino mesmo dentro da narrativa. É claro que, independentemente de tais conotações concetuais, em termos pragmáticos, estamos perante uma reprodução histórica de soberba exatidão. A figurinista responsável por tal feito é a francesa Madeline Fontaine que não é nenhuma estreante neste panorama da recriação de peças icónicas. Ainda há 3 anos, Fontaine recriou algumas das obras mais famosas de Yves Saint Laurent para o filme do mesmo nome, mas, em Jackie, o seu virtuosismo e cuidado histórico foram intensificados. A Chanel e a Dior, de onde veio o fato vermelho usado pela Primeira-Dama na visita guiada à Casa Branca, chegaram mesmo a abrir as suas portas à equipa da figurinista, que pesquisou arduamente os têxteis e os mais ínfimos detalhes das peças originais. Os próprios botões e etiqueta do icónico fato cor-de-rosa são reproduções exatas.

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Considerando tudo isso, é fascinante ver a versão final de Jackie e reparar como, ocasionalmente, certos detalhes parecem contornar a perfeição imaculada. Por vezes, vemos peças enrugadas, golas que estão a perder a forma, botões caídos, bainhas e costuras demasiado marcadas ou chapéus mal colocados na cabeça dos atores. Num filme biográfico convencional, tais idiossincrasias poderiam resultar numa estética desleixada, mas, neste caso, apenas contribuem para a peculiar natureza do retrato que o chileno Pablo Larraín imaginou da mais famosa Primeira-Dama que os EUA já tiveram. De forma semelhante, as marcas de esforço na prestação de Natalie Portman também se acabam por converter em elementos integrantes da tese de Jackie, exibindo a fricção entre o real e o artificial, entre a perfeição pública e o caos privado.

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Com tudo isso em conta, convém também lembrar que o trabalho de Madeline Fontaine não foi a mera orientação de uma equipa de costureiras e alfaiates em modo de fotocopiadora, mas sim a criação de um discurso visual complementar e paralelo ao de Larraín e restante equipa criativa. Isso vê-se, em particular, nos momentos mais íntimos da história. Um bom exemplo disso, é a maravilhosa sequência em que Jackie vagueia pela Casa Branca, embriagada, sozinha e em profundo sofrimento, enquanto veste e despe inúmeras peças formais e respetivos acessórios. Ao som das canções do musical Camelot, estes momentos poderiam facilmente cair num registo paródico, mas toda a execução formal, a elegância solene das roupas e a prestação de Portman contribuem para uma lacerante mostra de desespero humano, do sofrimento de uma atriz política traumatizada pela perda.

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Se Fontaine arrecadar o Óscar por Jackie, ficará a dever muita da sua vitória a essa sequência, assim como outro momento nos aposentos privados dos Kennedy, quando observamos Jackie a despir o fato rosa e perscrutamos as camadas de roupa impregnada com o sangue do Presidente assassinado. Na criação de tais conjuntos, que estão para além do registo histórico, a figurinista teve de dar asas à sua imaginação, caminhando a linha entre o drama operático e a sobriedade histórica com admirável segurança e inteligência. O conjunto preto, bege e casualmente confortável que Natalie Portman usa nas cenas de entrevista, que enquadram a ação principal, é particularmente perfeito, copiando as cores e linhas do ambiente que envolve a personagem e tornando-a numa espécie de fantasma dentro da sua própria casa.

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Em comparação, os flashbacks, especialmente aqueles que remetem para o período pré-assassinato, são de um glamour intenso e inebriante, onde Fontaine também se permitiu algumas fugas à verdade histórica. Durante uma cena de recital, o vestido de Portman refere as roupas de Jackie somente na sua cor, sendo que o corte e a simplicidade do seu estilo denotam uma síntese visual muito mais teatral. Aqui, tal como em todo o filme, a crua repetição de factos históricos é sacrificada em prol de algo mais profundo e transcendente, algo mais perto da verdade humana que da distante imagem documental.

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Ao longo deste texto, referimos ideias meio antagónicas de dramatismo estilizado, imperfeição, exatidão e verismo histórico. Essas expressões não são acidentais mostras de incoerência analítica, mas sim a prova de quão multifacetada a construção visual de Jackie acaba por ser. Ao mesmo tempo que apreciamos o movimento imparável da História quando testemunhamos Jackie e Lindon B. Johnson na Air Force One, também somos assombrados pela expressividade histérica e anti-sentimental que engloba a personagem da Primeira-Dama em choque. No mesmo figurino coexistem essas ideias contraditórias de falsidade e autenticidade e, com efeito, o guarda-roupa edificado por Madeline Fontaine manifesta-se como uma parte tão essencial do filme, que é impossível imaginar Jackie sem ele.

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Será que Jackie vai ganhar o Óscar de Melhores Figurinos? Apenas saberemos a resposta dia 26 deste mês, mas, entretanto, vem ler as nossas análises dos guarda-roupas dos outros nomeados: Aliados, Florence – Uma Diva Fora de Tom. La La Land e Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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