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João Nuno Pinto | Um ‘Mosquito’: No Coração de África

Depois de ter sido o filme de abertura do Festival de Roterdão 2020, há pouco mais de um mês, chega agora às salas ‘Mosquito’, do realizador português João Nuno Pinto (‘América’), uma aventura passada na África colonial portuguesa durante a I Guerra Mundial. A MHD falou com o realizador no Cinema Nimas, onde o filme vai estar em exibição entre outras salas do país, a propósito de mais uma grande estreia nacional. 

Nascido em Moçambique em 1969, o realizador João Nuno Pinto (50 anos) chegou a Portugal com 5 anos, logo a seguir à independência da antiga colónia portuguesa. Viveu entre Lisboa e São Paulo nos últimos anos e consolidou uma carreira na realização de publicidade. Mas a ficção continua a mexer com o seu coração africano e a sua alma de cineasta, para além dos anúncios. Depois da curta-metragem ‘Skype Me’ (2008), estreou a sua primeira longa, ‘América’, em 2010, uma notável e irónica reflexão sobre Portugal, enquanto destino de imigração e uma crónica marginal do bairro clandestino da Cova do Vapor, em Almada. ‘América’ foi um dos filmes portugueses mais interessantes, estreados no início da segunda década do século XXI e pena que os resultados de público não tivessem sido os mais desejáveis. Logo a seguir, num momento do inicio da crise também na publicidade em Portugal, o realizador foi viver para o Brasil, onde criou família e vontade de voltar à ficção cinematográfica. Depois de sete acidentados anos de pesquisas, rodagens e finalização, e da importante estreia no último Festival de Roterdão, chega agora às salas nacionais, ‘Mosquito’, a sua segunda longa-metragem, produzida pela Leopardo Filmes de Paulo Branco, com um argumento escrito em conjunto pela mulher do realizador Fernanda Polacow e o actor-realizador Gonçalo Waddington. ‘Mosquito’ é uma longa-metragem de ficção inspirada na história do avô do realizador em África, passada em 1917, por coincidência quando recentemente estreou o grandioso filme de Sam Mendes, que teve as mesmas premissas, mas outras ambições. A MHD foi ao Cinema Nimas falar com o realizador João Nuno Pinto sobre ‘Mosquito’, antes da estreia desta aventura do jovem soldado Zacarias (João Nunes Monteiro) que queria ir para a guerra e vai para Moçambique, onde inicia uma alucinada viagem através da mata, que se torna num ritual de passagem da adolescência para a idade adulta. E sobretudo um olhar original e muito pouco conhecido, sobre a história da presença das tropas portuguesas, e da defesa dos nossos territórios ultramarinos, quer da ocupação inglesa, quer da invasão alemã durante a I Guerra Mundial. Um bom filme!

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Magazine HD: O cinema está a agarrar de novo os temas e histórias da I Guerra Mundial?
João Nuno Pinto: Sinceramente não sei. Há uma grande coincidência com a estreia recente de ‘1917’, do Sam Mendes. Comecei a preparar ‘Mosquito’ há 7 anos atrás. E por coincidência os dois filmes estreiam quase na mesma altura, são baseados nas histórias dos nossos avós, e passam-se em 1917. O tema se calhar está mais em voga porque há um ambiente político internacional que faz lembrar esse período da história que antecipa a I Guerra Mundial. E também porque se comemorou há pouco tempo centenário da I Guerra Mundial em 2014 e do Armistício em 2018. A I Guerra Mundial esteve presente ao longo destes anos. Quando comecei a pesquisar sobre a I Guerra Mundial em África, e nomeadamente sobre Moçambique, havia muito poucos estudos sobre o assunto. E entretanto começaram a surgir muitas publicações. Toda essa conjuntura fez com que se começasse a falar mais da I Guerra Mundial.

MHD: ’Mosquito’ assenta mais na ficção ou numa verdade histórica? Aquela é mesmo a história do teu avó?
JNP: Não. Há um início factual que aconteceu mesmo, e que era uma história que eu sempre ouvi em casa. Nunca conheci o meu avô. Quando nasci ele já tinha falecido há muito tempo. Mas era uma figura presente dentro da família e conheci esta história de quando ele tinha ido para a guerra em Moçambique, que tinha sido deixado para trás, foi à procura do seu pelotão. E da vontade que ele tinha de combater e ir para a guerra. A base da história é verdadeira, tudo o resto é ficcionado, perante aquilo que eu queria falar no filme. Não me interessava tanto falar do meu avô, mas falar de outros temas. O meu objectivo não era fazer um filme-homenagem ao meu avô. Queria fazer um filme que reflectisse sobre um período, que foi completamente obliterado da nossa História.

‘Não me interessava tanto falar do meu avô, mas falar de outros temas relacionados com a guerra e a colonização portuguesa.’

MHD: Aquelas cartas para os pais existiam ou não?
JNP: Não é tudo ficção.

MHD: A dada altura num entrevista disseste que ‘Mosquito’ era um filme amaldiçoado. Porquê?
JNP: Houve uma altura em que achava que o filme estava amaldiçoado porque não conseguia-mos filmar. Estava tudo pronto e acontecia sempre alguma coisa, vários acontecimentos, que faziam com não conseguisse começar a filmar: estoiraram conflitos armados em Moçambique, a uma semana de filmagens tive que cancelar tudo. Desde a primeira vez que cancelei as filmagens, a rodagem foi sistematicamente sendo adiada. Cada vez que marcávamos as filmagens havia sempre um motivo para não filmarmos. Portanto durante algum tempo parecia que não ia conseguir, que o filme não ia acontecer, até que finalmente fomos em frente.

TRAILER DE ‘MOSQUITO’

MHD: ’Mosquito’ é efectivamente, como disseste também, uma forma de te redimires como filho de colonizador?
JNP: Disse isso mas não é para ser entendido de uma forma literal ou pessoal. Isso não quer dizer que o meu o meu pai fosse um colonizador, mas tem que ser visto numa leitura mais ampla do que significa, ou seja de eu ser fruto dessa colonização. Nasci em Moçambique, porque Portugal era uma potência colonizadora e havia muitos portugueses que nasciam nas colónias. Não quero fazer um juízo de valor em relação à minha família. Sendo eu um produto da colonização, esta é uma forma de me colocar na vida e na história. Nasci, sou fruto disso mas não pertenço a esse mundo e ao mesmo tempo quero distanciar-me dessa ideia de que a colonização foi uma coisa boa, que Portugal era grande, que éramos uns bons-colonizadores. Não me identifico com nada disso.

MHD: Voltaste a Moçambique, antes de pensares filmar ‘Mosquito’? Ainda tens memórias desse Moçambique, quando vieste muito pequeno de lá…
JNP: A primeira vez que voltei a Moçambique tinha 25 anos. A guerra civil tinha terminado e as feridas ainda estavam muito abertas. Foi como se regressasse ao útero materno. Voltando à aquela questão de me redimir. Moçambique é o meu país, foi onde nasci, onde me sinto em casa e com que me sinto completamente identificado. Há essa relação umbilical e a questão foi como lidar com isso? Dessa primeira vez que estive em Moçambique foi uma viagem super-emocional. Lembro-me de ter uma conversa com uma rapariga moçambicana e, dizer-lhe que tinha nascido ali, e que era moçambicano. E de ela me dizer que eu não era moçambicano. Era branco, não podia ser moçambicano. Era português. Esse foi o primeiro choque, e talvez haja uma razão para ela dizer isso. Foi a primeira vez e sai de Portugal onde cresci, com a nostalgia dessa África e, desse sonho de que eu era 100% africano…

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MHD: Sendo branco…
JNP: Exactamente. Saí de Moçambique com 5 anos de idade e tudo isto foi uma procura de encontrar o meu lugar. Não sou 100% moçambicano, mas também não me sinto 100% português, porque não nasci aqui. Há vários portugueses que sentem isto da mesma forma.

‘Saí de Moçambique com 5 anos de idade e tudo isto foi uma procura de encontrar o meu lugar.’

MHD: Quais foram as tuas fontes de investigação histórica, para além das referências ao teu avó?
JNP: Foram livros e historiadores que abordaram este assunto, tanto portugueses como estrangeiros, tanto ingleses como alemães, depoimentos na primeira pessoa de soldados, como pesquisa no terreno. E fomos para Moçambique fazer uma viagem…

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MHD: Não deve ter sido nada fácil essa pesquisa no terreno…quase dava um outro filme, suponho?
JNP: Foi há 7 anos atrás. Fui com a minha mulher a Fernanda (Palacow), que é também argumentista de ‘Mosquito’ e, o Cesário, o assistente de realização. Percorremos mais de 5.000 km por picadas de carro, a desbravar terreno e a tentar fazer os caminhos que supostamente o meu avô teria feito, desde a costa do Indico até chegarmos ao Lago Niassa. Fomos tentar entrevistar anciãos cujos os pais ou os avós pudessem ter estado em contacto com os soldados portugueses ou alemães na I Guerra Mundial. Interessava-nos muito entender sobretudo a perspectiva africana desta história. E o filme é o resultado disso: o lado africano, europeu, livros e pesquisa na internet. Tem uma base histórica muito grande e começa precisamente com um olhar europeu ou eurocêntrico sobre a África e depois aos poucos transforma-se num olhar africano sobre a Guerra. Zacarias (João Nunes Monteiro), o protagonista é o veículo de mudança desse olhar.

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MHD: Há diria que é um lugar comum certamente, muitas referências ao livro ‘Coração das Trevas’ e ao seu correspondente cinematográfico ‘Apocalipse Now’. Há até uma espécie de Coronel Kurtz no teu ‘Mosquito’…
JNP: O ‘Apocalipse Now’ é um dos grandes filmes da minha vida e dos que mais me marcaram. Está no meu top 3. Tudo na vida nos influencia. O tal personagem que falas não vem do ‘Apocalipse Now’ ou do Coronel Kurtz. O filme é uma viagem onde o protagonista vai tendo várias tarefas para cumprir. É a clássica ‘jornada do herói’, onde o protagonista vai encontrando obstáculos, ‘portais’ que tem de ultrapassar. E em todos esses portais é-lhe dada a oportunidade de desistir ou de continuar. Como na estrutura clássica de um drama. O Tenente Coelho (Filipe Duarte) surge no posto militar como o primeiro portal, não cronologicamente, porque o filme não é literalmente uma história cronológica, mas é o primeiro obstáculo que o Zacarias tem de ultrapassar. E aí é confrontado com a primeira realidade da guerra. Vai à procura de um exército heróico, de um exército imperial que defende o território português ultramarino e deparasse com uma realidade, personificada pelo Tenente Coelho que não é bem assim. Ele está na guerra e em Moçambique há muito tempo e já abraçou a loucura e toda essa demência da guerra e comportamento de um exército colonizador, nesses lugares recônditos. No Tenente Coelho há ainda uns resquícios dos valores da metrópole e dos valores europeus e vive com se fosse um pequeno rei. Ainda se passa isso, hoje em dia: há uma anedota moçambicana que diz que o trolha português, entra no avião da TAP, e sai como engenheiro em Maputo. Existe essa atitude em muitas pessoas quando chegam lá, de portarem-se como pequenos reizinhos. É incrível como a história não mudou, ‘Coração das Trevas’ foi escrito em finais do século XIX, continuou actual quando foi transformado no ‘Apocalipse Now’, do Francis Ford Coppola em 1979 e continua com uma espantosa actualidade. Se fores a Moçambique agora poderás conhecer uma série de ‘personagens portuguesas’, que continuam-se a comportar como no filme. Conheci uns velhos portugueses perdidos no meio do nada, naquelas aldeias no meio de Moçambique, que não sabemos como chegaram e ainda se mantêm por lá. E que são pequenos ‘Coroneis Kurtz’ ou Tenentes Coelho. É impressionante…

‘Conheci uns velhos portugueses perdidos no meio do nada, (…) E que são pequenos ‘Coroneis Kurtz’ ou Tenentes Coelho.’

MHD: Falaste que o filme tem uma narrativa clássica mas não cronológica…explica isso melhor?
JNP: O filme é todo feito em função da percepção do Zacarias. Vê-mos o que ele vê, não vemos o que ele não vê. Entendemos o que ele entende e não entendemos o que ele não entende…

Mosquito
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MHD: Pois há a dada altura uns diálogos que não são traduzidos…
JNP: Pois tem exactamente a ver com isso. Há a tal colagem total ao personagem do Zacarias. Estamos com ele do princípio ao fim, está em todas as cenas, estamos no cangote dele, a câmera está com ele. O que é certo é que o Zacarias vai perdendo um bocado a razão, por causa dos delírios da malária. Quando o filme começa logo seguir ao desembarque, ele já está com malária e no caminho, a cabeça dele já não está a funcionar de uma forma linear. À medida que o filme vai avançando ele vai perdendo cada vez mais a linearidade de raciocínio, daí que a montagem do filme seja também um reflexo dessa perda da razão.

MHD: Em ‘Mosquito’, sente-se um crescimento da personagem, mas também um crescimento do jovem actor-protagonista que é muito novo: o João Nunes Monteiro, ia-me enganado a chamar-lhe João Nuno…
JNP: Bem escolhi pelo nome que é muito parecido com o meu (riso). Estava a brincar, foi através de um casting. Fizemos um casting exaustivo a vários jovens actores. E não foi fácil.

MHD: A ideia era encontrar um ‘Mosquito’, um actor franzino, pequenino, frágil…?
JNP: No principio não era assim porque o meu avô, embora não quisesse como já disse fazer exactamente a história dele, era um homem grande. O personagem não tem nada a ver e até tive de explicar ao meu pai, dizendo-lhe para não se assustar quando visse quem iam fazer o papel (riso). Quando vi o João Nunes, ele tinha de facto uma força interior enorme, diria até gigante. O tamanho dele era inversamente proporcional ao talento, aquela figura franzina e pequenina tinha uma força emocional enorme. E sobretudo uma maturidade muito rara em alguém tão jovem. Como é uma história de crescimento…

Quando vi o João Nunes, ele tinha de facto uma força interior enorme, diria até gigante.

MHD: Parece que ele cresce quase em paralelo…
JNP: E cresce. Era importante que começasse como uma criança ou quase, arrogante e ao mesmo tempo ingénua e terminasse um homem feito. Esta transformação não é fácil e não está ao alcance de um qualquer actor. Estivemos 2 anos a ensaiar e a trabalhar no personagem. Foi muito engraçado porque não queríamos que ele fosse para a África antes de começarmos a rodar. Queríamos que ele chegassem ‘virgem’, e tivesse aquele primeiro impacto e deslumbramento…

MHD: E o cheiro de África…
JNP: Sim, o cheiro de África. No início acabado de chegar e tudo aquilo era genuíno. O esforço e o empenho físico do João Nunes foram incríveis. Foram muito difíceis essas filmagens, ele sofreu mesmo. E isso está tudo marcado, ao mesmo tempo que vai havendo um entendimento e um envolvimento emocional muito grande no personagem. No final, o João mostra aquela transformação ou mesmo ao logo do filme há toda uma mudança física, na forma como anda, na forma como se mexe, e todo filme é sempre a caminhar e sente-se uma grande diferença entre a forma como ele caminha no início e vai alterando a sua fisicalidade.

Mosquito
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MHD: ’Mosquito’ também tem um aspecto antropológico muito interessante. Que cultura indígena é aquela que não há homens e quem manda são as mulheres e até pegam em catanas para se defenderem? São da cultura maconde?
JNP: São macuas, o guia o Duarte (António Nipita) é que maconde. Respondo-te com uma pergunta. Porque achas que ali não há homens?

MHD: Provavelmente os homens foram caçar ou foram para a guerra…
JNP: Há uma questão importante que é o que representa aquela aldeia. É o contraponto entre o lado feminino que simboliza a família, o amor, o cuidar, a estrutura, a sociedade e o lado masculino do filme, a guerra, a loucura, o orgulho, o non sense, a busca do poder. A aldeia não tem homens, e eu não queria explicar isso, pois o filme acaba por explicá-lo. Na I Guerra Mundial, os exércitos colonizadores, estavam a fazer uma guerra europeia em África. Uma guerra entre potências europeias, em territórios que nada tinham a ver com o assunto, numa altura que não havia estradas, as infra-estruturas eram escassas e eram precisos soldados e carregadores. Soldados africanos, porque estavam muito mais adaptados ao mato e aquela guerra e os carregadores porque era a única forma de transportarem as munições, armamentos, mantimentos, material de acampamento e, tudo era levado à cabeça, aos ombros ou às costas pelos indígenas. As filas de um batalhão de soldados podiam ter 2 ou 3 Km de carregadores. Imagina o número de homens que eram necessários para fazer esse trabalho de carga. Esses exércitos entravam nas aldeias e levavam toda a gente. Era escravatura embora oficialmente tivesse sido já abolida. Os mais fortes e mais ágeis iam para soldados e os outros transportavam as coisas. Morriam aos milhares. Nunca houve uma contabilidade exacta sobre o assunto, houve aldeias que foram completamente dizimadas conforme as necessidades dos contigentes militares. Calculam-se que tenham morrido milhões de africanos na I Guerra Mundial. Morreram muito mais africanos do que europeus.

MHD: Embora na Europa conste que morreram muitos mais soldados na I Guerra Mundial do que na II Guerra.
JNP: É verdade. Mas morreram muitos mais soldados em África do que na França ou na Flandres e morreram ainda muitos mais africanos na I Guerra Mundial. Isso nunca foi falado, há muito poucos registos e não há números oficiais sobre o assunto.

‘Calculam-se que tenham morrido milhões de africanos na I Guerra Mundial. Morreram muito mais africanos do que europeus.’

MHD: A banda sonora é muito bonita, mistura a electrónica, fado com os sons das danças e rituais africanos e depois muito bem aplicada  à cação, ao clima e à natureza africana, onde se desenrola o filme. Quem fez a banda-sonora?
JNP: Foi o Justin Melland, um compositor norte-americano de Los Angeles. Eu tinha uma ideia muito clara do tipo de música e de banda-sonora para ‘Mosquito’, algo que fosse bastante orgânico, um reflexo e um mapa do lado psicológico do personagem principal. Além disso queria que fosse muito contemporâneo para transportar o filme para os dias de hoje. Para mim é muito importante que as pessoas consigam rever-se no filme, principalmente os jovens. Todas as pessoas que se interessam por história poderão ter um grande interesse no filme, pois aborda assuntos que nunca chegaram ao cinema. Mas há uma nova geração a quem estes temas, que se passaram há 100 anos atrás, não dizem nada. A música pode ser uma forma de fazer essa ponte com o passado e mostrar que esse jovem de 17 anos, o Zacarias pode ser visto como um jovem de hoje…

Mosquito
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MHD: A curtir uma espécie deu transe music…
JNP: Isso mesmo. O que se está a passar na cabeça do Zacarias naquele momento? Alguém que tomou um ácido, como estará a viver aquele momento.

MHD: A diferença está em que o Zacarias alucina por causa da febre provocada pela malária…
JNP: As mulheres indígenas nessa altura já o tinham curado da malária. Aí está a diferença de quando o Zacarias chega à aldeia das mulheres e quando chega mais tarde no acampamento do seu pelotão. As mulheres parecem implacáveis, mas há uma lógica para as suas atitudes. Há uma sociedade tribal é certo, mas que funciona, que tem tribunais, que funciona com a sua própria justiça, ao contrário da europeia que aparentemente está cheia de regras e que achamos que é civilizada.

MHD: Em jeito de provocação: o teu primeiro filme chama-se ‘America’, este chama-se ‘Mosquito’, mas poderia chamar-se África (a tua África). O próximo vai chamar-se Europa ou Brasil?
JNP: (Riso). Olha poderá perfeitamente chamar-se Brasil. Sou América e não só Portugal. Acho que o ‘Mosquito’ não se podia chamar ‘África Minha’, mas podia perfeitamente chamar-se Europa. O Brasil é a minha terceira pátria. Vivi muitos anos no Brasil, tenho dois filhos e uma mulher brasileiros. Na verdade tenho 3 pátrias do coração: Moçambique, Portugal e Brasil e fazer um filme sobre o Brasil é uma possibilidade. Para já não está nos meus planos, mas será algo que irei fazer com o coração, tal como os meus filmes anteriores.

José Vieira Mendes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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