Kontinental ’25, a Crítica | Uma análise social vencedora de melhor argumento em Berlim
Estreou esta quinta-feira 8 de janeiro nos cinemas portugueses o novo filme do realizador romeno Radu Jude, “Kontinental ’25” (2025). A estreia comercial chega após o filme ter vencido o Urso de Prata de Melhor Argumento no Festival Internacional de Cinema de Berlim no ano passado e após a passagem no LEFFEST em novembro passado.
“Kontinental ’25” é um filme que teve uma particularidade interessante – o facto de ter sido integralmente filmado com um iPhone. Segue o olhar social que Radu Jude já nos habitou em filmes anteriores, embora não traga os elementos de humor ridículo de forma tão acentuada como em obras anteriores.
Qual a narrativa de Kontinental ’25?

Desde “Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo” (2023) que o realizador Radu Jude tem estado bastante ativo no cinema, lançando mais do que um filme por ano – embora, alguns em formato curta-metragem. Quererá ele ‘substituir’ Hong Sang-Soo nessa prolificidade? Certo é que os dois sofrem do mesmo mal. Ou seja, as suas obras não chegam todas a Portugal… Por outro lado, as que chegam não vêm com um atraso assim tão significativo como vieram algumas do realizador sul-coreano.
Em 2025, Radu Jude teve a proeza de realizar duas longas-metragens. A saber: este “Kontinental ’25” e “Drácula” (com estreia prevista em Portugal para maio de 2026). O primeiro foi selecionado para o Berlinale (fevereiro) e o segundo para o Festival de Locarno (agosto); foram, inclusive, filmados em simultâneo. Já em 2026 tem outras duas longas-metragens em produção e uma curta-metragem por estrear.
Neste “Kontinental ’25” Radu Jude volta a apresentar-nos um retrato social a partir do mundo do trabalho mas também para nos mostrar as consequências da falta dele, bem como um crise moral por causa de um acontecimento traumático. Assim, o filme começa um sem-abrigo que vive numa cave e é com ele que seguimos os primeiros 15 minutos de filme. No entanto, com Orsolya (interpretada por Eszter Tompa) a despejar o homem, a narrativa passa a focar-se nela e no impacto que o suicídio do sem-abrigo tem na vida dela.
Uma difícil crise moral
Depois de “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental” (2021) e “Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo” que tiveram ambos elementos delirantes de comédia, “Kontinental ’25” é um filme bastante mais negro para Radu Jude.
“Kontinental ’25” é também uma homenagem do realizador romeno ao filme “Europa 51” (1952, Roberto Rossellini). Não só pelo formato semelhante do título mas também com algumas semelhanças narrativas. No filme de Rossellini, Irene (Ingrid Bergman) fica obcecada em ajudar os outros depois do suicídio do seu filho. Neste filme de Radu Jude, a agente Orsolya sente-se culpada pelo suicídio do sem-abrigo pois acha que o seu despejo o levou a tal desfecho. Entra numa crise moral profunda da qual só consegue sair depois de desabafar com algumas pessoas. Por fim, há ainda uma outra referência (pequena) ao filme de Rossellini que é o cartaz do mesmo numa cena no café de um cinema.
Contemporaneidade com elementos do passado

Apesar de “Kontinental ’25” ser algo diferente face aos dois filmes anteriores citados, a linguagem característica de Radu Jude mantém-se, bem como o caráter e olhar contemporâneo que, aqui, o realizador mistura com indícios da História. Há um duplo confronto entre universos e épocas, se assim se pode dizer, tal como, por exemplo, Aki Kaurismäki fez em “Folhas Caídas” (2023), embora nesse caso de uma forma mais contida.
O facto de “Kontinental ’25” começar com a presença de dinossauros robotizados é uma clara metáfora da sociedade atual remetendo para elementos do passado. A destruição e a sede do poder da humanidade é uma coisa pré-histórica que vem agora, novamente, ao de cima. Radu Jude é claro com isso, com as suas personagens a mencionarem a Ucrânia, Putin, o fascismo da Hungria ou Gaza.
Paralelamente, Radu Jude também inclui no filme um cão robô como que a alertar-nos para o que a tecnologia se está a tornar. E o facto de ele filmar este filme todo com um iPhone também é sintomático disso. Mas estas dualidades de tempos também já estavam presentes em “Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo”… Além disso, não menos importante, também os telemóveis e televisões – ou seja, os ecrãs – são uma presença importante neste filme mas que já invadem o nosso dia-a-dia de forma completamente ‘natural’.
Mas Radu Jude também nos fala de um futuro semi-distópico onde existe a Europa KUK (Kaiserlich und Königlich = Imperial e Real; um termo que, efetivamente, tem origem no Império Austro-húngaro). Esta Europa KUK é, na verdade, uma forma estrutural de denominar todo o problema do capitalismo e, em concreto, a gentrificação. Este sem-abrigo é despejado para que possa ser construído um hotel de luxo. Onde é que já ouvimos isto? A Riviera de Gaza aplicada à Roménia…?
Ser humanista num mundo cruel em Kontinental ’25

Num mundo onde parece faltar cada vez mais humanidade, Orsolya abate-se profundamente sobre a falta de consideração do Estado para ajudar os mais fracos. Orsolya fica tão abatida que até sente necessidade de esconder o radiador no seu trabalho porque lhe faz lembrar o radiador onde o sem-abrigo se enforcou…
A primeira forma de Orsolya compactuar com a culpa vem através de uma amiga que trabalha para uma ONG para apoio a famílias ciganas. Orsolya dá, então, uma doação, além das outras mensais que já fazia. Já a sua mãe, apoiante do estado de Órban não lhe ajuda de todo. Entretanto, cruza-se com um antigo aluno seu: Fred (Adonis Tanța). Aqui é o lado do absurdo do humor de Radu Jude que (finalmente) aparece. Fred é o espírito livre que Orsolya precisava para começar a ultrapassar verdadeiramente a sua dor. Trocam piadas absurdas mas cheias de significado e envolvem-se ainda sexualmente – ainda que Orsolya seja casada e tenha filhos. Por fim, Orsolya ainda conversa com um padre para a sua ‘libertação’ final.
“Kontinental ’25” termina, depois, o ciclo com o ‘progresso’ a iniciar-se à frente dos nossos olhos. Ou seja, a construção dos novos empreendimentos. Passámos do início no ‘vazio’ do bosque com os dinossauros robotizados para o ‘vazio’ das obras do futuro, sem esquecer ainda o enterro no cemitério.
Algumas conclusões sobre Kontinental ’25

Embora “Kontinental ’25” não atinja o auge das obras anteriores de Radu Jude, trata-se novamente de um filme relevante para refletir sobre a modernidade. É difícil repetir o feito do fenomenal longo plano final e ridículo de “Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo”. A própria ‘pausa de reflexão’, característica que Radu Jude aplicou em “Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo” e “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental” não existe verdadeiramente neste filme e Radu Jude optou por fazer algo do género apenas no final do filme onde já está tudo dito e faltam só uns ‘remates’ finais.
Por fim, referir ainda que o facto do filme ter sido filmado em iPhone não o prejudica verdadeiramente em termos técnicos. É verdade que há um plano ou outro em que o foco automático do telemóvel torna o filme ‘caseiro’ mas, de resto, a fotografia até (quase) podia passar como sendo de uma câmara de cinema, mas com o lado ‘artesanal’ a criar sérias ligações de contraste com a própria narrativa do filme, aproximando a pobreza do sem-abrigo à escassez de meios no cinema.
Kontinental '25
Conclusão
- “Kontinental ’25” é mais um olhar social de Radu Jude sobre o trabalho e o contemporâneo, focando-se na crise moral da protagonista.
- Não atinge o grau de perfeição de obras anteriores de Radu Jude mas é igualmente relevante para refletir sobre o mundo atual.

