Depois de se estrear na Berlinale, “La Casa dell’Amore”, também conhecido como “The House of Love”, chega aos cinemas portugueses por via do Queer Lisboa. Este filme italiano está a competir pelo prémio de Melhor Documentário do festival.
Luca Ferri é um cineasta italiano que tem passado os últimos anos a apontar a sua câmara para o templo de intimidade que é o apartamento. No seguimento de “Pierino” e “Dulcinea”, “La Casa dell’Amore” forma uma trilogia de retratos cinematográficos, pequenas miniaturas sobre pessoas marginalizadas pela sociedade que se resguardam nas sombras confortantes do lar. Desta vez, o sujeito de estudo é Bianca, uma trabalhadora do sexo transgénera que está quase a chegar à casa dos quarenta.
Jamais saindo do espaço doméstico da sua protagonista, “La Casa dell’Amore” perscruta os cantos e recantos de uma casa milanesa que, estando num bairro pobre, tem vista privilegiada para o rio cinzento e muito barulhento da autoestrada. É no apartamento que Bianca faz a sua vida, que dorme e se prepara para os afazeres do dia, que come e se maquilha, que recebe clientes e vive serões animados com amigos de longa data. Entrar pela porta da casa, é entrar no mundo de Bianca.

Esse mundo é um universo de paz e sossego, uma dimensão onde as pessoas podem ser elas próprias e despir as máscaras com que encaram o dia-a-dia. Até a religião é mutada pela presença de Bianca. O rito católico torna-se devoção dionisíaca, o padre vira bacante e o acólito é amante. Nunca isso é mais evidente que na passagem mais bela do filme. Acontece quando Ferri aponta a câmara para o chão, filmando um encontro entre Bianca e sua cliente com inteligente abstração. Só vemos os seus pés, as pernas de Bianca sentada na borda da cama e um fato masculino à sua frente.
Lentamente, a carapaça de género cai por terra. A camisa branca abre-se para revelar cetim e renda. As calças desabrocham e revelam uma saia singela. Afinal, não obstante a potencial expetativa do espetador, não vemos uma prostituta a receber um homem de negócios como cliente. A relação é mais complexa e as identidades mais fluidas e fora da norma. Só uma constante acompanha o espetador desde o início ao fim da cena. Trata-se do desejo, da busca por amar ser amado, uma necessidade transversal a todos os que entram na casa de Bianca.

Num paradigma cinematográfico onde até os mais bem-intencionados realizadores tendem a retratar o corpo transgénero como algo chocante, Ferri jamais desrespeita Bianca com seu olhar. De facto, a câmara vive como extensão da protagonista e todo o estilo do filme lhe segue o exemplo. Veja-se, por exemplo, como a fotografia pinta o apartamento como um espaço teatral. O espelho do quarto faz-se camarim, a cozinha é um palco e a sala-de-estar um plateau onde velas ardem com cintilantes chamas.
A tolerância absoluta, o aroma do sexo e a dimensão da magia do cinema mesclam-se num feitiço que faz com que o apartamento viva fora do tempo e do espaço, fora da sociedade também. Entre quatro paredes vive uma mulher, um gato, e a promessa do prazer garantido. Enquanto espetador, sentimo-nos privilegiados por poder olhar este ambiente, bebendo a beleza do lugar e o encanto de seus habitantes. Por isso mesmo, só queremos agradecer a generosidade de Bianca e o olho astuto de Ferri. Obrigado por nos darem entrada nesta que é “La Casa Dell’Amore”.
La Casa dell'Amore, em análise

Movie title: La Casa dell'Amore
Date published: 20 de September de 2020
Director(s): Luca Ferri
Genre: Documentário, 2020, 77 min
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Cláudio Alves - 78
CONCLUSÃO:
No altar do prazer, Bianca Dolce Miele é a nossa sacerdotisa. Com ela oramos uma prece sobre amor e hedonismo. O último capítulo na trilogia dos apartamentos do italiano Luca Ferri é um dos grandes destaques da secção documental do Queer Lisboa de 2020.
O MELHOR: A própria figura de Bianca que é uma excelente sujeita para este tipo de documentário em forma de retrato embevecido.
O PIOR: A paleta cromática escura pode sugerir um ambiente mais deprimente do que realmente se verifica. Há um aspeto meio sufocante no estilo prevalente da obra, mas a duração curta da mesma impede que o espetador se canse.
CA

