La Grazia, a Crítica
A 19.ª Festa do Cinema Italiano abriu em grande pompa e circunstância com a antestreia nacional de “La Grazia” (2025, Paolo Sorrentino). A sessão de antestreia esgotou mas a MHD já viu o filme e tu também o poderás ver muito em breve já que a longa-metragem estreia nas salas de cinema já na próxima quinta-feira 16 de abril com distribuição da Risi Film.
“La Grazia” acompanha o final do mandato de um Presidente da República de Itália numa belíssima interpretação de Toni Servillo, um ‘habitué’ dos filmes de Paolo Sorrentino.
Qual a narrativa de La Grazia?
“La Grazia” é um drama que acompanha os últimos dias da presidência de Mariano De Santis (interpretado por Toni Servillo) à frente de Itália. No entanto, não é um simples retrato ficcional sobre política ou sobre o papel do Presidente da República. É também um drama humano sobre as diferentes incertezas que sentimos na vida. Neste aspeto, Santis tem como difíceis decisões de final de mandato assinar a lei da eutanásia e atribuir dois pedidos de perdão de dois reclusos.
Mariano De Santis é também um homem em luto pela perda da sua mulher. A sua filha Dorotea (Anna Ferzetti) ajuda-o diariamente e, em certa medida, é para Mariano o equilíbrio da sua lucidez.
Um filme espiritual e humano

“La Grazia” tem sido classificado como o filme mais ‘lúcido’ de Paolo Sorrentino. Efetivamente, é uma longa-metragem bastante mais ‘realista’ e humana. Apesar de tudo isso, a linguagem de Sorrentino está presente ao longo do filme. O seu lado mais ‘fantasioso’ continua – e bem – presente. Desde logo, com um leit-motiv musical que atravessa todo o filme e que só a meio da história é que percebemos a origem do mesmo. Mas esta música eletrónica que constantemente ouvimos é também o sentimento de Mariano que está sempre a ferver por dentro; prestes a rebentar.
Para lá do lado musical, temos ainda direito a uma cena com um ficcional Presidente da República português (que, diga-se de passagem, mais parece chileno) onde a chuva e a lentidão da cena metem tudo em estado de transe. E, claro, Sorrentino mantém também o seu olhar religioso e traz-nos um Papa inédito – além de negro, até anda de scooter!
Contudo, o que guia este belo filme de Paolo Sorrentino é mesmo a dúvida, a indecisão. Precisamente por isso é um filme espiritual onde o interior das personagens tem muito que se lhe diga…
Como católico, ao longo da narrativa, Mariano tem dúvidas. Deve dar indulto a dois assassinos? Deve aprovar a lei da eutanásia? Será, provavelmente, a morte natural de um cavalo que será a grande rendição de Mariano. Isso e claro, igualmente, o astronauta italiano no espaço que não o ouve mas que Mariano sente nele uma liberdade tal que ele próprio termina o filme a pairar nesta estação espacial.
A dúvida em La Grazia

Sim, “La Grazia” é um filme que não é 100% realista. Não tem de o ser. Nem o cinema é a realidade, nem a política é feita apenas da verdade. Paolo Sorrentino mantém, portanto, o seu lado da fantasia mas também nos faz refletir sobre nós e sobre a dúvida do ser humano.
“La Grazia” pode, em última análise, ser visto como um prolongamento de “A Grande Beleza” (2013) que tem o mesmo ator como protagonista. “A Grande Beleza” já refletia sobre a velhice e o cansaço – ainda que de forma esplendorosa -, “La Grazia” também reflete sobre isso mas vai além. Podíamos, eventualmente, denominar este filme como “A Grande Incerteza” em vez de “La Grazia”.
Ou seja, não é credível que aquele Presidente da República português alguma vez o fosse, nem é credível que aquele Papa alguma vez o fosse. No entanto, além de estarmos no cinema, estas personagens questionam-nos sobre o que somos e o que andamos aqui a fazer.
Mariano quer saber a verdade

Mariano é um homem magoado. De poucas palavras, sente a ausência da mulher Aurora (sobre quem reflete em ‘voz off’) e, por isso, passa muito tempo no exterior do Palácio do Quirinal, a refletir. No entanto, à medida que conhecemos esta personagem, percebemos que, apesar da paixão que ele tinha pela sua mulher, ainda pensa na traição que ela lhe fez e, à medida que também tem mais dúvidas sobre a lei e os indultos que terá de aprovar, os sentimentos de raiva e dor tornam-se mais fortes. Assim, Mariano só ficará aliviado quando souber com quem é que a sua esposa lhe traiu.
A certa altura, Mariano desconfia que Aurora o traiu com o seu melhor amigo Ugo Romani (Massimo Venturiello). É aí também que recuamos ao funeral de Aurora que se cruzará, depois, na montagem com a cena em que Mariano e outros membros da sua comitiva assistem a um vídeo de dança onde, finalmente, conhecemos a origem do ‘leit-motiv’ musical. Em ambos os casos, Mariano fica estático, de pé, a olhar fixamente para Ugo. O cruzar dos olhares tudo nos indicia que Mariano tem razão e, quando finalmente ele acusa Ugo, percebe que é uma patetice.
Quando, por fim, a sua amiga Coco Valori (Milvia Marigliano) conta a Mariano que foi com ela que Aurora o traiu, Mariano tem a sua redenção e acha até a situação divertida. Afinal, Mariano acaba por perdoar a sua mulher e confirmamos isso com a muito intensa cena dele a vasculhar as roupas de Aurora. “‘La Grazia’ é um filme sobre o amor. Aquele motor inesgotável que dá origem à dúvida, ao ciúme, à ternura, à emoção, à compreensão das coisas da vida e à responsabilidade.”, refere Paolo Sorrentino em notas à imprensa.
Algumas conclusões sobre La Grazia

“La Grazia” é um filme que não irá defraudar os espectadores habituais de Paolo Sorrentino. Temáticas como a fé, a velhice ou a arte são o fator comum da filmografia do realizador que também surgem neste filme. Para lá disso, o lado mais ‘fantasioso’ e mágico também volta a ser tratado de forma exímia.
A fotografia do filme é, quase sempre, perfeita. A natureza e a arquitetura é parte integrante da grande maioria dos planos que nos transmitem, assim, emoções para lá do óbvio. Para além disso, as obras de arte fazem parte dos décores deste filme e embelezam-no como forma de equilíbrio com as personagens. Uma última nota para a montagem do filme que, como já referi, aproveita a música para criar um balanço muito bem trabalhado dramaturgicamente.
Por fim, além do drama, “La Grazia” traz também alguns momentos de humor (a puxar para o patético e espiritual da vida). A destacar: a bela e sentimental cena de Mariano com o coro A.N.A. Torino que termina, simbolicamente, com a câmara a percorrer a bandeira italiana por detrás; o ‘carabineri’ robô; a caminhada a pé de Mariano com a sua equipa até casa; e, claro, por fim, o jantar entre Mariano e Coco Valori já durante os créditos: “Não me chateies”, diz Coco Valori.
No fundo, com este equilíbrio entre o drama e a comédia agridoce, Mariano vai acabar por deixar um legado para o futuro ao aprovar a lei da eutanásia e ao dar um dos indultos…
La Grazia
Conclusão
- “La Grazia” é um retrato humano e espiritual dos últimos meses do mandato de um Presidente da Reepública em Itália.
- É um filme que mantém o estilo cinematográfico de Paolo Sorrentino e vai até mais além em certos assuntos (como a incerteza da vida).
- Essencialmente um drama, tem igualmente alguns momentos de humor. Alarga-se, contudo, demais com a presença do ‘rapper’.

