Emilia Clarke em "Last Christmas" 2019) |©Universal Pictures

Last Christmas, em Análise

“Last Christmas”, a comédia romântica deste Natal,  conta com realização de Paul Feig (“A Melhor Despedida de Solteira”, “Spy”) e com história original e argumento de Emma Thompson, vencedora do Óscar pelo Argumento Adaptado de “Sensibilidade e Bom Senso” (1995).

O filme britânico é protagonizado por Emilia Clarke, eterna Daenerys Targaryen em “Game of Thrones” (2011-2019). “Last Christmas” estreou nas salas nacionais a 5 de dezembro de 2019.

Em “Last Christmas“, Emilia Clarke dá vida a um encantador elfo mal comportado num filme cujo argumento se baseia numa música de George Michael.  Digamos que uma narrativa fílmica inspirada numa canção não é a mais fiável do mundo, e ao longo desta pequena análise certamente confirmaremos esse receio. Kate, ou Katarina, a protagonista interpretada por Clarke, percorre Londres numa constante azáfama.

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Ela é uma londrina de gema, do género das que costumamos ver em comédias românticas oriundas de Inglaterra. É ligeiramente promíscua, diz muitos palavrões e é muito desastrada e desorganizada. Faz lembrar uma Bridget Jones mais exacerbada, e portanto, apesar de todos os defeitos que a caracterizam, não deixa de ser adorável, e o espectador vê-se a torcer por ela de forma quase imediata.

Last Christmas
©Universal Pictures

Kate está numa encruzilhada. A sua vida em tempos parecia estar encaminhada para grandeza. Muitos projectos, sonhos e esperança. Queria ser cantora, tinha um futuro possivelmente brilhante pela frente. Até ao momento em que, aos 25 anos, teve um problema cardíaco que a mudou para sempre. Agora, tem dificuldade em reajustar-se ao dia-a-dia, e às expectativas que ela própria, e os outros, projectaram em si. Começou a trabalhar em part-time numa loja de Natal aberta todo o ano, e esse part-time transformou-se num full-time sem grandes perspectivas de evolução. Kate é uma péssima funcionária, mas a “Mãe Natal” que gere a loja, uma simpática senhora asiática de meia-idade apaixonada pelo Natal, Michelle Yeoh (“O Tigre e o Dragão”) tem um grande coração e por nada a despede, dando-lhe oportunidade atrás de oportunidade.

Desta patroa até à melhor amiga de ascendência indiana, passando pelo interesse romântico de ascendência asiática, “Last Christmas” é um filme dominado pela diversidade étnica e de nacionalidades, um esforço consciente, que de facto retrata a Londres do século XXI na qual se localiza o filme. Um esforço notável, casual, que não nos é impingido de forma excessivamente moralista, mas antes como uma parte da vida. Esta temática da imigração é muito importante para a nossa protagonista, e no seu caminho rumo a criar um claro sentido de identidade do qual se possa orgulhar.

Emilia Clarke e Emma Thompson
Emilia Clarke e Emma Thompson em “Last Christmas ” (2019) |©Universal Pictures

Kate, ou Katarina, como recusa que lhe chamem, é imigrante no Reino Unido, uma informação que nos é dada deste início. A sua família fugiu da ex-Jugoslávia devido à guerra nos anos 90, e por isso o Reino Unido é uma segunda casa algo agridoce, que no seio do Brexit lhes parece querer voltar costas. Por isso, Katarina recusa assumir a sua diferença, e como cresceu como britânica, não tem qualquer sotaque, ao contrário dos seus pais. Enquanto o seu pai é representado por Boris Isakovic, como o nome indicia, um genuíno nacional da Sérvia, parte da antiga Jugoslávia, que representa esta experiência com naturalidade e contenção, a sua mãe é interpretada pela também argumentista Emma Thompson, que nos apresenta uma versão caricatural de uma imigrante de Leste, que apenas o bom coração da narrativa salva de se tornar ofensiva. Ao fim de contas, não são muitas as comédias românticas de Natal que se preocupam em fazer uma afirmação pró-imigração. Mas e daí, talvez seja apenas um sinal dos tempos…

A nossa encantadora protagonista tem muita presença de espírito, mas de resto passeia-se por Londres sem prestar atenção ao que a rodeia, nem a quem a rodeia. Tem objectivos, mas há muito deixou de fazer algo para os cumprir e dorme em sofás de amigos, isto até lhes destruir projectos de arte ou matar peixes de estimação. Sempre destinada a partir para uma próxima, o ciclo vicioso de Kate não volta a ser o mesmo a partir do momento em que conhece Tom, interpretado por Henry Golding, de “Asiáticos Doidos e Ricos” (2018).

Last Christmas
Last Christmas | © Nos Audiovisuais/ Universal Pictures

Tom é tudo o que Kate não é, e é-nos apresentada uma típica narrativa onde o novo interesse romântico é dado a grandes manifestações e gestos. Ao contrário de Kate, Tom aprecia todas as pequenas coisas da vida, insiste que Kate deve “olhar para cima” e reparar nos pequenos detalhes, símbolos, becos e jardins das ruas de Londres. A nossa protagonista apaixona-se rapidamente, mas Tom é esquivo e deixa-a sempre na expectativa. Apesar disso, as mudanças na sua forma de agir são evidentes, e Kate começa a entregar-se aos outros, a ter mais consideração, a ajudar verdadeiramente, e começa a reencontrar o seu lugar no mundo. É simples, mas é eficaz, e é agradável ver esta transformação a florescer. Contudo, Tom é uma figura que só conhecemos do ponto de vista de Kate, e por isso nunca sentimos uma ligação genuína a este casal.

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Onde Kate é uma personagem bem construída e que sentimos como quase de carne e osso, Tom é uma mera ideia, um cliché de comédia romântica, um autêntico lugar-comum. O que é pena. Fosse este um filme sobre uma transformação que vem de dentro, e sobre a dinâmica familiar da personagem que seguimos, então este seria um filme bem, bem melhor. Muitos são os ingredientes positivos, abafados pela necessidade de interesses românticos e enredos surpreendentes. Um pouco mais de simplicidade, e “Last Christmas” poderia ter sido um ótimo filme de Natal, com uma impecável Emilia Clarke como protagonista, a qual nasceu para este registo. Em vez de ter sido tudo isto, acabou por ser algo meio apatetado e incoerente,  incapaz de se tornar um clássico da quadra.

Oportunidades perdidas à parte, “Last Christmas” é ainda assim um filme capaz de entreter, e capaz de divertir, especialmente no que diz respeito aos seus pequenos detalhes. A narrativa familiar é satisfatória, bem como a relação invulgar de Kate com a sua patroa. Vale também pela banda-sonora ao som de Wham!.

Por aí, fãs de comédias românticas de Natal e da música de George Michael? 

Last Christmas
Poster Oficial Portugal Last Christmas

Movie title: Last Christmas

Date published: 2019-12-06

Director(s): Paul Feig

Actor(s): Emilia Clarke, Henry Golding, Emma Thompson

Genre: Comédia, Romance, Drama

  • Maggie Silva - 65
65

CONCLUSÃO

"Last Christmas" é povoado por tantos elementos negativos como positivos. É um conto de Natal que procura ser irreverente, e acrescentar algo mais ao género. Devido a algumas escolhas duvidosas na narrativa principal, nunca consegue cumprir o seu objectivo. Se confiasse mais no valor da sua personagem principal, talvez tivesse conseguido atingir um verdadeiro equilíbrio.

O MELHOR: Sem dúvida Emilia Clarke, que nasceu para o género da comédia romântica. Não lhe assenta bem o ar de rainha altiva, mas este look de "miúda do lado" torna-a bem mais irresistível e cintilante, contagiando todos com o seu sorriso e com a forma como a sua personagem, Kate, abraça na perfeição o trágico-cómico.

O PIOR: O caricatural sotaque de leste de Emma Thompson e, claro, o terrível e ilógico plot twist, sobre o qual, com o devido cuidado, não deixamos dicas.

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Maggie Silva

Mestre em Ciências da Comunicação na vertente de Cinema e Televisão pela FCSH-UNL. Dependente de cultura pop e cinema indie. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

One thought on “Last Christmas, em Análise

  • Last Christmas | 3*

    Last Christmas: 3*

    É um bom filme com uma mensagem bonita, mas tem demasiados clichés.

    Cumprimentos, Frederico Daniel.

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