"Master Gardener" | © NOS Audiovisuais

LEFFEST ’22 | Master Gardener, em análise

“Master Gardener” complete uma trilogia de Paul Schrader, também formada por “First Reformed” e “The Card Counter.” O filme teve a sua estreia mundial no Festival de Veneza, onde passou fora de competição. Foi exibido no 16º Lisbon & Sintra Film Festival em semelhantes condições e agora guarda distribuição por esse mundo fora. Cá em Portugal, será a NOS a lançar o filme que, considerando temas de desigualdade racial e violência neofascista, pode afigurar-se como algo difícil de promover. Trata-se de um trabalho estranho, mas comovente, quiçá um testamento cinematográfico para seu autor.

Aproximando-se daquele que será o provável fim da sua carreira, Paul Schrader está num humor meditativo, refletindo sobre o passado e os temas que o têm marcado ao longo dos anos. Seus últimos três filmes foram uma espécie de trilogia no precipício de ser um testamento tripartido, negociando temas comuns em variações distintas. Há muitos elos entre esses filmes, entre eles a figura de um homem soterrado de culpa que escreve num diário em jeito de confessionário privado. Ethan Hawke foi um padre debatendo-se com a crise climática em “First Reformed.” Oscar Isaac deu vida a um vigarista do jogo em “The Card Counter,” sujeito atormentado pelos crimes de guerra cometidos enquanto soldado Americano em Guantánamo.

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Em “Master Gardener,” Joel Edgerton dá vida, carne e alma, ao irmão simbólico desses homens. Ele é Narvel Roth, um jardineiro e horticultor de impressionante retidão, sempre cheio de preceitos precisos e uma disposição desafetada, quase solene. Seu reino é o jardim de Gracewood, propriedade vasta na posse da mesma família há gerações. Sua patroa é a viúva Sra. Haverhill que, quando se prepara um festival das artes florais e ação de caridade, tem um pedido pessoal para fazer ao seu jardineiro. Ela quer que ele trabalhe com a sua sobrinha-neta, fazendo dela sua aprendiza e potencial sucessora para a custódia dos jardins.

A chegada de Maya vem destabilizar a paz que Schrader havia estabelecido nas cenas introdutórias, suscitando desejos proibidos no coração do jardineiro, uma vontade de proteger e de amar. Também serve de recordação dos crimes passados, tanto para a grande senhora que em tempos rejeitou a família como para esse homem misterioso cujo verdadeiro nome talvez até nem seja Narvel Roth. A questão racial é especialmente marcante, puxando o filme numa direção inesperada onde a expiação do ódio se torna no seu propósito máximo. Para alguém sempre tão preocupado com a violência, até a vingança, Schrader desenha um novo caminho para a obra. Ele evita o aniquilar do inimigo como vitória final e afigura um conto onde a punição não tem lugar de honra.

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Descrever mais especificidades do enredo cairia no erro do spoiler, especialmente quando consideramos quanto “Master Gardener” vive da surpresa, do modo como força o espetador a repensar a sua atitude perante as personagens a cada nova revelação. Parte desse efeito deriva de uma peculiar qualidade – ninguém aqui se parece comportar como uma pessoa. Desde diálogos laboriosos, cheios de detalhe floreado e estranhas cadências, até ao trabalho de ator, é difícil encarar as personagens como seres humanos motivados por comportamento natural. Eles são mais arquétipos e figuras simbólicas que outra coisa, são criaturas que vivem num patamar acima da realidade.

À medida que o filme passa no circuito festivaleiro, seu autor tem feito variadas apresentações onde certas ideias se afirmam como pedras basilares do projeto. Um desses conceitos incide na falta de credulidade enquanto mecanismo ao invés do defeito. Não se quer um espetador que tudo crê, mas sim alguém que possa sonhar e imaginar usando as peças quis brinquedos em forma humana da narrativa fílmica. De forma semelhante, não se querem personagens que ditem o arco da história, mas sim aquelas que sirvam de veículo para as ambições de Schrader. São ambições além do cinema classicista, focadas na emoção pura e na redenção do espírito. São focadas num futuro aconchegado no coração de cada um, utopias pessoais e secretas.

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Laivos de sinceridade atravessam o trabalho, tanto de um ponto de vista textual como imagético. A fotografia digital, polida e sem texturas serve como um olhar claro, quase opressivo, sobre a cena, enquanto dá espaço à composição para fazer vingar significados bem-delineados e emoções fortes. Há toques de Ozu na mise-en-scène doméstica e uma vontade de expressar o interior de cada indivíduo com mínima subtileza. Figurinos apresentam-se com palavras estampadas, descrições essenciais das personagens, enquanto os cenários do jardim e seus casarões estão cheios de simbolismo descarado. Afinal, nada melhor para ilustrar a beleza perigosa, a fragilidade cruel da Sra. Haverhill que um papel de parede vistoso, com alforrecas flutuando no vazio.

Por fim, como queremos evitar discutir as passagens mais tardias da obra, seus erotismos e milagres, ficamo-nos por um elogio aos atores que Paul Schrader aqui reuniu. Edgerton nunca esteve melhor, mergulhando de cabeça na estilização severa que o realizador lhe exige. Existe, no entanto, oportunidade para ser vulnerável, inclusive quando a sede de violência parece superar a razão num momento-chave. Sigourney Weaver faz de Haverhill uma criação transladada de outro cinema, como uma Joan Crawford dirigida por Bresson. Por fim, Quintessa Swindell resolve algumas das propostas mais inusitadas do guião. Ela negoceia e dá resposta aos paradoxos de humanismo desumanizado a que Schrader chegou nesta expressão tardia, este bizarro esplendor que triunfa apesar das suas muitas e muito perfeitas imperfeições.

Master Gardener, em análise
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Movie title: Master Gardener

Date published: 23 de November de 2022

Director(s): Paul Schrader

Actor(s): Joel Edgerton, Quintessa Swindell, Sigourney Weaver, Eduardo Losan, Esai Morales, Rick Cosnett, Victoria Hill, Amy Le, Samuel Ali, Erika Ashley, Jared Bankens, Cade Burk, Jef Figallo, Christian Freeman, Scott Green, Monica R. Harris, DJames Jones

Genre: Drama, Thriller, Romance, 2022, 107 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

“Master Gardener” é uma expressão da esperança no futuro, a fé expressa pelo amor às plantas depositadas na terra com o sonho de um dia florescerem. Trata-se de um belíssimo poema no qual Paul Schrader explora ideias antigas em novas variações, como um músico que dá nova interpretação à mesma melodia ancestral.

O MELHOR: As alforrecas metafóricas, a prestação peculiar de Sigourney Weaver, o sentimentalismo machucado com que Schrader tudo aborda neste possível testamento final, neste resumo de uma vida, esta cnação ecoando pela sua História.

O PIOR: Há uma qualidade insular, meio hermética, na narrativa social de “Master Gardener,” como se tudo se passasse num sonho espicaçado pelo rude acordar no preciso momento em que os créditos acabam e o ecrã vira escuro.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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