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LEFFEST ’21 | The Lost Daughter, em análise

“The Lost Daughter”, adaptação do romance homónimo de Elena Ferrante, marca a estreia da atriz Maggie Gyllenhaal nas lides da realização e teve estreia exclusiva nacional no Lisbon & Sintra Film Festival. Serão as interpretações centrais de Olivia Colman e Dakota Johnson suficientes para mitigar a natureza crua e desprovida de empatia da narrativa? 

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Maggie Gyllenhaal escreve, produz e realiza em “The Lost Daughter” um tratado acerca dos desafios inabaláveis da maternidade. Enquanto primeira obra, este é um arranque de carreira relativamente auspicioso mas que não deixa de denotar alguma incapacidade de dominar a temporalidade da longa-metragem. Na marca das duas horas, “The Lost Daughter” é vagaroso do início ao fim e pauta-se por um final relativamente anti-climático.

A longa-metragem narra a história de Leda (Olivia Colman), uma professora de línguas solitária que se encontra a passar férias numa villa grega. Por lá, o seu sossego é interrompido pela chegada de uma família numerosa oriunda dos subúrbios nova-iorquinos. Com má reputação, esta família não deixa de despertar a curiosidade de Leda, que se revê nas relações entre os vários membros e recorda a sua própria juventude enquanto mãe, à medida que observa as interações entre a jovem Nina (Dakota Johnson) e a sua filha.

Eis que a presença, na ilha, de uma boneca semelhante a uma que Leda teve durante a infância, serviu como alavanca para despoletar a recordação de um conjunto de memórias traumáticas. As suas escolhas enquanto jovem mãe continuam a atormentar Leda. A protagonista acaba por se enlear numa teia de memórias que domina o seu presente. E “The Lost Daughter” é essencialmente um filme sobre memórias, permeado por uma quantidade quase avassaladora de flashbacks.

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Aprofundando a questão dos flashbacks, a analepse devora o argumento do filme (o qual foi premiado, sabe-se lá como, com o Osella de Ouro para Melhor Argumento no Festival de Veneza) e torna o presente obtuso e quase desconexo. Quase nos esquecemos das acções da história, de tão fragmentadas que se tornam, permanentemente interpeladas por instantes do passado. O equilíbrio de linhas temporais tende a desequilibrar-se, uma e outra vez, ao longo de duas horas de fita.

Outra questão pertinente, tão positiva quanto negativa em “The Lost Daughter”, é a própria personalidade da sua figura central. Leda é egocêntrica, estranha, desagradável, apaixonada por confronto. É fascinante tentar construir uma história em torno de uma protagonista tão desagradável quanto esta.  Maggie falha na tentativa de nos fazer querer saber do que acontece a esta figura central tão antagónica e até detestável.

Por outro lado, os símbolos recorrentes do filme são para lá de repetitivos. Surgem, uma e outra vez, como muletas visuais e narrativas, e se da primeira vez se assumem como estimulantes e curiosos, depressa ficam gastos e se tornam redundantes. Nada é particularmente memorável em “The Lost Daughter”, um filme que, para o bem e para o mal, nos abandona com um sentimento de mal-estar e desilusão.

 

A longa-metragem “The Lost Daughter” estreou no LEFFEST ’21, no Teatro Tivoli BBVA e é bem possível que esta tenha sido a sua única exibição em sala. Deverá chegar à Netflix ainda em dezembro deste ano. O filme foi adquirido no passado mês de outubro, depois de uma bem-sucedida jornada de festivais. 

The Lost Daughter, em análise
the lost daughter poster 2021

Movie title: The Lost Daughter

Movie description: As feiras de praia de uma professora vêem-se transformadas quando esta confronta memórias do passado.

Date published: 18 de November de 2021

Country: EUA, Grécia

Duration: 121'

Author: Elena Ferrante

Director(s): Maggie Gyllenhaal

Actor(s): Olivia Colman, Dakota Johnson , Ed Harris

Genre: Drama, Romance

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  • Maggie Silva - 60
  • José Vieira Mendes - 80
  • Cláudio Alves - 85
75

Conclusão

“The Lost Daughter”  é um drama melancólico que retira à Grécia a sua beleza inegável, transformando a paisagem num cemitério de memórias conflituosas.

Pros

  • Os instantes iniciais e apresentação de personagens;
  • Dakota Johnson com uma certa mística distinta do habitual;

Cons

  • O final anti-climático e que poucas respostas oferece;
  • Uma personagem de Olivia Colman detestável e repelente  – não sabíamos que tal fosse possível;
  • Uma Grécia feia e sem encantos estéticos;
  • Flashbacks longíssimos que devoram qualquer hipótese de uma progressão narrativa constante;
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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