LEFFEST ’21 | Benedetta, em análise

Paul Verhoeven, mestre da provocação, concebeu um dos filmes mais polémicos do ano com “Benedetta”. O drama histórico estreou em Cannes e depois fez o circuito dos festivais. Quando chegou a Nova Iorque, foi recebido por protestos, denunciando a sua qualidade blasfema e escandalosa lascívia. Em antestreia no Lisbon & Sintra Film Festival, é agora a vez de Portugal se deixar chocar pelos devaneios de “Benedetta”.

No século XVII, Benedetta Carlini foi uma freira italiana que viveu em tempos de Contrarreforma. Durante sua vivência em Pescia, ela fez parte da Ordem dos Clérigos Regulares ou Teatinos, dedicando-se à fé e serviço religioso tal como os pais haviam prometido no seguimento de um parto difícil. No convento, ela fez História e fez escândalo. Benedetta afirmou ter visões místicas e, a certa altura, mostrou-se vítima do fenómeno miraculoso da stigmata e até ressuscitou depois da aparente mortandade. Muitos foram os relatos da sua possessão por Cristo, alarmando as forças papais que realizaram várias investigações, procurando espiritualidades hereges ou oportunismos femininos.

Devido às múltiplas investigações, a vida de Benedetta Carlini está documentada num patamar além do costume. Quiçá mais nenhuma freira dos tempos da Contrarreforma tenha tido a sua vida tão detalhadamente preservada nas páginas da História. Isso torna-se especialmente interessante quando consideramos as revelações sobre a aspirante a santa. De uma perspetiva contemporânea, seu envolvimento lésbico com uma outra freira do convento, a Irmã Bartolomea, revela-se como um ponto central na mitologia verídica de Benedetta. Não admira que esta história tenha vindo a cativar estudiosos e artistas, entre eles o cineasta holandês Paul Verhoeven.

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De forma geral, este realizador é conhecido pelo seu amor do chocante, do lúrido e controverso. Filmes como “Instinto Fatal” e “RoboCop” desconstruíram aspetos do puritanismo de Hollywood de dentro para fora, enquanto “Ela” foi um exercício em absoluto desconforto e trauma vingativo no rescaldo da violência sexual. Esses são somente três exemplos numa filmografia repleta deles. Contudo, desengane-se quem pensa que Verhoeven é mero adepto da provocação vácua e sem propósito, visceral ao invés de cerebral. Uma investigação dos seus escritos académicos depressa nos contraria essa noção simplista.

São também esses estudos que ajudam a explicar a importância de “Benedetta” na oeuvre de Verhoeven. Antes de se tornar num cineasta de renome e infâmia internacional, este provocador holandês andou no seminário e, apesar de nunca ter completado a licenciatura em Estudos Bíblicos, tem vindo a estudar a vida de Jesus há décadas. De facto, na ambição de fazer um filme sobre a figura histórica e espiritual, Paul Verhoeven publicou um denso livro sobre Jesus, explorando a deturpação histórica que interesses políticos e comerciais têm tido no seu legado. Num paradigma mais escatológico que glorificante, o autor caracteriza o profeta cristão enquanto um ativista radical, encontrando triunfo espiritual na ação terrena o invés do evento sobrenatural.

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Essa peculiar leitura bíblica faz-se sentir por toda a loucura de “Benedetta”, onde várias verdades coexistem em precária comunhão, onde há quem fale a verdade a mentir e quem minta quando diz verdade. Não que a obra se assuma enquanto assunto de debate intelectual. Apesar de rico em conceitos, o cinema de Verhoeven guia-se sempre pelo objetivo de entreter e este mais recente trabalho não diverge da norma. Adaptando o texto académico de Judith C. Brown, “Immodest Acts: The Life of a Lesbian Nun in Renaissance Italy”, o realizador concebeu uma montanha-russa de aparências blasfemas. Trata-se de um espetáculo burlesco acima de tudo, mas um que se sustenta em pensamento crítico.

Como a mais corriqueira das fitas biográficas, “Benedetta” tem início nos tempos da meninice, mas depressa Verhoeven impõe um ditame de caos libertino na narrativa. A profecia da pequena noviça é assunto de comédia, um truque de circo que serve para fazer rir um assaltante com caca de pássaro no olho. Já na vida adulta, a existência da freira continua a seguir padrões de comédia inusitada. Uma encenação rudimentar resulta no orgasmo provocado pela alucinação divina, enquanto o desabrochar do romance se passa no cenário defecado das latrinas. O espírito e o corpo vivem juntos, para sempre entrelaçados numa dinâmica estapafúrdica, tanto na vida como na tela.

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Quando o milagre se afigura, há uma peculiar reticência na observação cinematográfica. Tal como as companheiras do convento, também nós somos excluídos do instante sobrenatural, mesmo que ouçamos a voz demoníaca de Jesus sair da boca da freira e vivamos a luxúria dos seus sonhos molhados. Assim se levanta a dúvida e se proporciona uma realidade multifacetada. Confrontada pela amante que vê quanto Benedetta trabalha pelo milagre, a noiva de Jesus defende a sua ação pela desculpa da inspiração divina. É certo que a stigmata pode ser obra sua, um caco de vidro partido cravado nas mãos, mas isso não exclui a ação de Deus.

Não é o fado humano definido pelas forças do além? Se Benedetta é veículo para a vontade celestial, por que nos preocupamos com os meios com que essa vontade se anuncia? Serão as desgraças que se abatem sobre seus inimigos o resultado da manipulação humana ou o golpe punitivo vindo dos céus? Mas, defender a freira maluca não será uma aceitação daqueles que exploram a fé como mecanismo para o proveito próprio? O triunfo do filme depende da coexistência destas possibilidades. Em “Benedetta” tudo isto e seus contrários são verdade, culminando numa perceção multifacetada da personagem titular. Pela sua parte, a atriz Virginie Efira incorpora todas as contradições no seu retrato, exultando um estudo de personagem que prima pelo mistério, pela loucura e pela comédia.

Essa última parte é importante pois, não obstante o suicídio e a peste, a morte e miséria, “Benedetta” é tanto drama Católico quanto é comédia do milagre ímpio. A cena da ressurreição, por exemplo, conquista mais risada que qualquer comédia que Hollywood propôs este ano. Há um amor pelo absurdo no filme de Verhoeven, uma celebração da ambiguidade e da materialidade grotesca. Contudo, também há dor, especialmente nas prestações de Charlotte Rampling e Louise Chevillotte, almas céticas num festim de credulidade ignorante. A mistura tonal, combinada com uma certa displicência estética, irá afugentar muito espetador. Mas, para quem estiver disposto a aceitar a demência Verhoeviana, “Benedetta” tem muito prazer a oferecer.

Benedetta, em análise
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Movie title: Benedetta

Date published: 20 de November de 2021

Director(s): Paul Verhoeven

Actor(s): Virginie Efira, Daphne Pataka, Charlotte Rampling, Louise Chevillotte, Lambert Wilson, Olivier Rabourdain, Hervé Pierre, Clotilde Courau, David Clavel

Genre: Biografia, Drama, História, 2021, 131 min

  • Cláudio Alves - 80
  • Maggie Silva - 76
78

CONCLUSÃO:

Entre estátuas da Virgem esculpidas na forma de um dildo e o flagelo da peste negra, “Benedetta” afigura-se como um estudo sobre aquele abismo que se pode abrir entre a fé e a realidade. Religião é manipulação e é expressão sincera de uma humanidade em busca de salvação. Graças a um elenco abençoado com talentos divinos, o realizador Paul Verhoeven concebeu aqui um desavergonhado sucesso, sem medo do ridículo ou da censura.

O MELHOR: O argumento multifacetado que Verhoeven escreveu com David Birke. Também queremos bater palmas para o elenco. Efira, Rampling e Chevillotte são talentos do outro mundo.

O PIOR: A fotografia e os figurinos são tristemente displicentes, revelando até uns certos limites orçamentais. É pena que, num filme tão obcecado com a verdade fisiológica do corpo crente, a materialidade da roupa e da própria luz seja tão ausente. Em certas cenas, parece um faz-de-conta renascentista feito por amadores.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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