LEFFEST’15 | Muito Amadas, em análise

 

Muito Amadas é um necessário retrato de uma parte da sociedade normalmente ignorada, assim como uma forte crítica social que vibra com um refrescante humanismo.

 

Muito Amadas leffest Título Original: Much Loved
Realizador: Nabil Ayouch
Elenco: Loubna Abidar, Halima Karaouane, Asmaa Lazrak
Género: Drama
Leopardo Filmes | 2015 | 108 min[starreviewmulti id=18 tpl=20 style=’oxygen_gif’ average_stars=’oxygen_gif’]

 

 

Pouco mais será necessário para justificar a importância de Muito Amadas, o mais recente filme do realizador franco-marroquino Nabil Ayouch, que o que aconteceu à sua protagonista no início deste mês. Depois das primeiras imagens e informações sobre o filme terem imediatamente despoletado controvérsia em Marrocos, a atriz Loubna Abidar foi atacada por um grupo de homens que a espancaram. Quando tentou fazer queixa à polícia, riram-se dos seus pedidos, e quando tentou obter tratamento num hospital, este foi-lhe recusado. Após estes acontecimentos a atriz acabou por ter de fugir para França.

A controvérsia que causou tão violenta reação devém do conteúdo aparentemente incendiário do filme de Ayouch, que retrata a vida de um grupo de prostitutas em Marraquexe. Num país de ideias conservadoras e em que cerca de 99% da população é muçulmana, Muito Amadas foi considerado como um grave insulto aos valores morais do país e às mulheres marroquinas em geral. O que tais controvérsias não refletem é o carácter fortemente humanista do filme ou o modo como Ayouch e o seu elenco, maioritariamente composto por atrizes não-profissionais, criaram um retrato intimista que funciona como um acídico ataque às hipocrisias da sociedade patriarcal marroquina.

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Durante o dia, quando a vemos visitar a sua família, Noha (Loubna Abidar) veste-se em trajes modestos e cobre a cabeça, como seria de esperar de uma mulher islâmica no seu país. Estas roupas não escondem, no entanto, a sua beleza, mas o seu olhar é sempre cabisbaixo, como que atemorizado e respeitoso face a uma família que sente vergonha do seu ofício apesar de aproveitar do dinheiro que daí provém.  À noite Noha é como que metamorfoseada numa criatura diferente. A sua face é fortemente maquilhada, o corpo é coberto de diminutas vestes cheias de lantejoulas e a sua expressão não carrega qualquer modéstia, sendo ela a grande diva por entre as prostitutas que vamos observando ao longo de Muito Amadas. A sua beleza é por ela mesma explorada, sendo o seu derradeiro recurso económico o seu corpo.

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Tais contrastes poderiam parecer forçados ou didáticos, mas Ayouch, que escreveu o guião com base em cerca de 200 entrevistas que realizou a prostitutas marroquinas, nunca cai em tais condescendências. Noha, Soukaina (Halima Karaouane), Randa (Asmaa Lazrak) e Hlima (Sara Elhamdi Elalaoui), o grupo de prostitutas em que o Muito Amadas se foca, nunca são vistas como conceitos, arquétipos distantes, ou mártires simplisticamente vitimizadas pela narrativa. Elas são magníficas construções cinematográficas de complexa humanidade com uma pulsante vitalidade que faz Muito Amadas vibrar de energia.

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O elenco é de celebrar pelo seu trabalho, mas o gentil olhar de Ayouch é também sublime. Apesar do realizador filmar estas mulheres em situações ora de humilhação repugnante, ora de jubilante hedonismo, não há nenhuma noção de superioridade moral ou julgamento implícito. A audiência simpatiza com as protagonistas do filme, não porque a narrativa a força com descaradas manipulações, mas porque, no modo como elas são apresentadas, há algo de palpavelmente humano, algo que é quase desconfortavelmente íntimo.

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Parte do génio destas caracterizações é consequência do humor que Ayouch vai entrelaçando pela narrativa, complicando o retrato do filme e tornando esta forte crítica social em algo que é surpreendentemente fácil de ver. Esta relativa leveza mescla-se com um sentido de tocante melancolia que caracteriza momentos tão superficialmente simples como a observação das ruas de Marraquexe a partir de um táxi.

Muito Amadas

Numa cena de enorme impacto em Muito Amadas, Soukaina é atacada por um dos seus clientes. Ambos são prisioneiros de uma sociedade de ideais patriarcais, em que qualquer entidade que se desvie do conceito de poder masculino idealizado é tido como fraco, dispensável ou simplesmente nojento. Soukaina sobrevive com a venda de seu corpo, perdendo, aos olhos desse mundo, a sua dignidade e integridade, sendo tornada objeto nas mãos de seus clientes. O seu agressor, ao contrário de sofrer o julgamento dos valores sociais e morais que ajuda a manter, reage com violência odiosa, como que justificando o seu poder sobre outros seres humanos como Soukaina. O mundo retratado por Muito Amadas não é de simples dicotomias entre bem e mal ou vítimas e agressores. O que vemos é uma sociedade intrinsecamente injusta, onde a hipocrisia reina e se abate sobre as vidas humanas, destruindo-as.

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Consulta Ainda: LEFFEST’15 | Programa completo

Muito Amadas é um dos melhores filmes a marcar presença no Lisbon & Estoril Film Festival, sendo que tem a sua estreia portuguesa marcada para 7 de janeiro de 2016. Não percas este corajoso e inteligente filme que foi banido no seu país de origem.

 

CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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