LEFFEST ’17 | Western, em análise

Em “Western”, que está em competição no Lisbon & Sintra Film Festival, um grupo de alemães na Bulgária tornam-se no sujeito através do qual a realizadora Valeska Grisebach constrói uma acutilante reflexão sobre o western americano, a economia Alemã e masculinidade destrutiva.

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Apesar do seu título, “Western”, o novo filme da cineasta alemã Valeska Grisebach, não se passa no Oeste Americano ou num deserto espanhol povoado por atores italianos com chapéus de cowboy. Na verdade, “Western” desenrola-se algures na Bulgária, numa zona rural e dominada pela natureza, onde um grupo de homens alemães se encontra a trabalhar, isolados pela sua nacionalidade e inabilidade de comunicarem com a população local. Tal como no género mais intrinsecamente americano do cinema, existem aqui fações em oposição, a natureza domina as imagens, impondo-se aos humanos que nela existem e definindo uma fronteira entre a civilização e o que é selvagem, a agressividade masculina domina as interações sociais e delineia hierarquias, existem nobres cavalos brancos e um indivíduo solitário e taciturno a enveredar-se no desconhecido.

Esse indivíduo, o protagonista de “Western”, é Meinhard que, como todas as figuras em cena, é interpretado por um não-ator. A realizadora conheceu o seu principal intérprete num mercado equestre em Berlim, a trabalhar com cavalos, e foi devido à sua face e postura que Grisebach o decidiu incluir no seu filme, trabalhando com ele durante meses antes de o colocar em frente às câmaras. Olhando para a sua figura contra o arvoredo búlgaro é fácil perceber a fascinação da realizadora. A face de Meinhard parece saída de uma pintura de outros tempos, trespassando uma nobreza grosseiramente esculpida em osso, carne e pele. Seu corpo é magro e ágil, portador da elegância de quem trabalhou uma vida inteira com o corpo. Seu olhar é inteligente, mas nunca calculista, embebendo os muitos silêncios do filme com a impressão de longos monólogos nunca verbalizados.

De entre os seus compatriotas, Meinhard é o único que efetivamente tenta estabelecer comunicação com a população local, por muito que a barreira linguística o faça resvalar numa série de desentendimentos. Certamente, a sua relação com essa mesma comunidade é menos hostil que a de Vincent, seu chefe e um homem que, quando vê uma mulher bonita a banhar-se nas águas do mesmo rio onde os trabalhadores estão a relaxar, depressa se revela agressivo para com ela. Na mesma medida em que a presença de Meinhard se caracteriza pelo seu silêncio confortável e olhar perspicaz, a de Vincent vive de uma hostilidade pulsante que quase se consegue sentir no ar que o rodeia.

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O conflito entre estas duas personalidades guia muito da dinâmica dramática do filme, mas este está longe de ser um simples conto de rivais em violento combate. Na verdade, Grisebach parece fascinada com a dinâmica de corpos em tentativa comunhão, deixando várias cenas do filme se desenrolarem segundo uma mera vontade de observar vários seres humanos a existirem no mesmo espaço físico. Isso abrange os compatriotas alemães a passarem o tempo ou a trabalharem, as interações de Meinhard com a comunidade local, o “herói” e o “vilão” em tensa convivência e, é claro, a dinâmica que se estabelece entre a Bulgária e os alemães. Subrepticiamente, a cineasta construi em “Western” um thriller que nasce da observação casual.

Nesse aspeto, “Western” lembra muito “Toni Erdmann”. A realizadora desse filme, Maren Ade, serve de produtora em “Western” e Grisebach chegou mesmo a trabalhar nesse projeto do ano passado, pelo que não será muito estranho que existam ideias comuns a ambas as obras. Em “Toni Erdmann”, Ade encontrou absurdo cómico e tragédia humanista na sua observação prolongada de comportamentos aparentemente naturalistas. Em “Western” Grisebach evita comédia e tragédia emocional, para se preocupar mais intensamente na construção de jogos de tensão e suspense, chegando mesmo a conseguir o milagre contraintuitivo de usar a crescente harmonia entre Meinhard e os búlgaros como mecanismo propulsionador de ominosa ameaça.

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Para além disso, tal como “Toni Erdmann”, “Western” é uma crítica audaz às relações intraeuropeias promovidas pela economia alemã. Grisebach chegou mesmo a considerar filmar “Western” na Roménia, tal como o filme de Ade, mas as paisagens da Bulgária e sua magnificência vagamente reminiscente das catedrais de natureza imponente do western americano, acabaram por fazê-la mudar de ideias. Independentemente de tais questões paisagísticas, “Western” é um filme em que os alemães são quase retratados como invasores colonialistas a desbravarem o resto da Europa como conquistadores ora impiedosos ou completamente ignorantes face ao conflito que a sua presença faz deflagrar.

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A certa altura, a equipa de trabalhadores germânicos chega mesmo a içar uma bandeira alemã, como que a reclamar o território para si. Certamente, eles agem como se toda a floresta búlgara à sua volta se tratasse de uma terra selvagem que nunca viu mão ou sociedade humana, apanhando frutos de árvores em propriedades privadas e interagindo com cavalos que pastavam em campos como se os animais estivessem ali para o proveito pessoal dos estrangeiros. As tentativas da comunidade local para reclamar a sua propriedade raramente resultam em mais do que um desentendimento meio hostil, sendo que as barreiras linguísticas são quase tão impenetráveis como os limites culturais e as cicatrizes históricas da ocupação nazi e de gerações vividas sob regime soviético.

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Tais barreiras, no entanto, não protegem os intervenientes da mentira e Meinhard aproveita-se disso para sugerir que, em tempos, fez parte da Legião Francesa. Isso ganha o respeito dos locais, que curiosamente lhe pedem que descreva as suas façanhas assassinas no campo de batalha. Tal história poderia ser um detalhe inócuo noutro filme, mas em “Western” torna-se num modo de Grisebach explorar aquele que, no final, se revela como sendo o seu principal sujeito de estudo – a masculinidade tóxica de culturas que veem a agressão e a violência como supremos significantes de valor e respeitabilidade. Tal como a imagem do forasteiro numa terra desconhecida, também essa dinâmica social vem do western clássico, estando a cineasta a explorar e quase a brincar com os limites e desconcertantes conceitos implícitos a tais ideias mitificadas em histórias de cowboys heroicos.

Por muito complexas que toda esta subversão de género e considerações sociopolíticas da Europa contemporânea possam parecer nestas descrições textuais, “Western” é um filme de incrível simplicidade e modesto virtuosismo. O espetador atento ficará quase estupefacto, quando chega o fim do filme e se apercebe da complexidade dos temas e ideias em ação numa obra que nunca chama atenção para a sua monumental ambição concetual. Com a dimensão gigantesca de um Canyon no deserto, a solenidade modesta de um mito do Novo Mundo, a beleza de uma pintura campestre, a tensão de um thriller e um olhar inteligente focado na folia do comportamento humano, “Western” é um dos grandes feitos do cinema europeu dos últimos tempos e prova de que Valeska Grisebach é uma das realizadoras mais promissoras da atualidade.

 

Western, em análise
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Movie title: Western

Date published: 2017-11-20

Director(s): Valeska Grisebach

Actor(s): Meinhard Neumann, Reinhardt Wetrek, Syuleyman Alilov Letifov, Veneta Fragnova, Viara Borisova,

Genre: Drama, 2017, 119 min

  • Claudio Alves - 89
  • José Vieira Mendes - 95
92

CONCLUSÃO

“Western” é uma genial reconfiguração dos códigos do seu género titular, ao mesmo tempo que constitui um dos mais poderosos documentos cinematográficos sobre o panorama socio económico da Europa contemporânea, assim como um acutilante estudo de ideias tóxicas de masculinidade e agressão enquanto força motriz da hierarquia social.

O MELHOR: A ambição concetual de todo o projeto e a maravilhosa casualidade com que a realizadora consegue conjugar todas as suas ideias de modo orgânico.

O PIOR: Por vezes, o tipo de observação estudiosa e amplos silêncios que o filme promove podem resultar num distanciamento nocivo para certos espetadores que aqui poderão somente encontrar uma experiência fria e entediante.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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