75º Festival de Cannes | ‘Armageddon Time’: Os Putos do Bairro

James Gray, o realizador de ‘Nas Teias da Corrupção’ e ‘Amantes’ oferece-nos um relato autobiográfico do fim da infância na Nova York dos anos 80. Mais um filme íntimo e poderoso, apresentado na competição, com Anne Hathaway e Anthony Hopkins.

Nove anos depois de A Imigrante, o realizador norte-americano James Gray está de volta à Competição do 75º Festival de Cannes, com Armageddon Time, não com o apocalipse nuclear, mas antes com um filme mais pessoal, sobre as cicatrizes da infância, que faz lembrar um pouco 400 Golpes’, de François Truffaut. Construído com base num grande trio actores: Anne Hathaway, Anthony Hopkins e Jeremy Strong (da série Succession), ‘Armageddon Time’ tem uma matriz autobiográfica confessada, que conta a passagem para a vida adulta de um jovem sonhador do bairro de Queens, nos anos 1980 e que mais uma vez questiona o sonho americano. Paul Graff (Banks Repeta) um rapaz um pouco desajustado, com habilidade para desenhar, leva apesar de tudo uma infância tranquila, com a família nos subúrbios de Nova York. Com Johnny (Jaylin Webb), um colega excluído da classe por causa de sua cor de pele, mas que um dia gostaria de trabalhar na NASA. Juntos fazem algumas patifarias na sala de aula da Escola Pública. Porém, Paul acha-se protegido pela mãe (Anne Hathaway), que tem um cargo de presidente do conselho de pais, e sobretudo pelo avô Aron (Anthony Hopkins), uma figura muito particular de quem o miúdo é muito próximo. Mas após mais um incidente de indisciplina, Paul é enviado para uma escola privada cujo o pai de Donald Trump, faz parte do conselho de administração. O elitismo e o racismo declarados que convivem nesta nova escola privada, vão perturbar drasticamente o mundo de Paul.

75º Festival de Cannes

Depois de explorar a Amazónia em A Cidade Perdida de Z (2016) e o cosmos com Ad Astra (2019), James Gray mergulha agora na introspecção e nas suas memórias de infância com este  ‘Armageddon Time’, um filme tingido de nostalgia e ternura. Voltando à infância-adolescência, o realizador de Nas Teias da Corrupção (2000) e de Nós Controlamos a Noite (2007), procura testemunhar através de uma rapazinho de 12 anos, um período preciso da sociedade americana: o início dos anos Reagan, o fim dos Trinta Anos Gloriosos (de 1945 a 1975) que se seguiram ao final da Segunda Guerra Mundial e que constituíram um período de forte crescimento económico nos EUA e nos países da OCDE, o crepúsculo de uma nova era para o povo americano. Mas também um período difícil para o jovem Paul, que vê sua vida e as suas perspectivas abaladas. Diante dessas grandes convulsões, resta ainda o jovem Paul, os sonhos e valores que lhe são transmitidos pelo seu avô, para poder sobreviver num mundo bastante diferente do seu e do que imaginava.

Há efectivamente uma grande marca na tradição da ficção americana, tanto no cinema como na literatura, que passa pelas muitas histórias da infância e juventude, a começar obviamente pelo famoso Tom Sawyer. Nos últimos anos, James Gray assinou dois filmes completamente diferentes do seu registo habitual: a aventura épica na selva em ‘A Cidade Perdida de Z’, e ‘Ad Astra’, uma jornada cósmica pelas galáxias perdidas. Porém, ‘Armageddon Time’ trá-lo de volta à Terra, à sua terra a América e à sua cidade Nova Iorque, e ao seu bairro Queens, à sua própria infância também ela, um pouco ‘sawyeriana’, pese embora mais urbana. Numa América pintada em tons bege-cinza desgastados, como as velhas cassetes VHS, dos anos 80,  que ajudaram a tornar-nos ainda mais cinéfilos (em casa), ’Armageddon Time’ reconstrói o início de uma curiosa década de grande desenvolvimento, para todos os países ocidentais, incluindo Portugal. A Guerra do Vietname já terminou há muito tempo e os hippies estão em declínio, vêem aí os yuppies. É o tempo dos The Sugar Hill Gang a imporem as novas batidas e o ritmo inebriante da sua ‘long version’ do tema Rapper’s Delight, que ouvimos várias vezes neste filme. Em Washington, o antigo actor Ronald Reagan, depois senador e líder dos Republicanos, prepara-se para conquistar a Casa Branca e tornar-se presidente dos EUA. E assim desenha-se, o alvorecer de uma nova era, mais conservadora e liberal, e também de defesa da ameaça nuclear. O programa militar norte-americano Strategic Defense Initiative (SDI), popularmente conhecido como Projeto Guerra nas Estrelas, foi criado em 1983 pelo então presidente Ronald Reagan e tinha como objetivo criar um grande sistema de satélites munidos de canhões a laser para proteger os EUA, de mísseis enviados contra o país. O início de um ‘armageddon time’. É este momento da história americana que apanha desprevenida, a ainda curta existência de Paul, nosso jovem protagonista, colocado de repente, numa encruzilhada de vida. O filme, delicadamente, coloca a grande questão do fim da infância, desse momento em que se abre para todos os mistérios da adolescência e por fim, já bem no final, a sombra do adulto que acabamos todos por nos tornarmos.

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Ao longo das poucas mas determinantes cenas, entre o neto e o avô, veremos Aaron (Anthony Hopkins sempre extraordinário na sua interpretação) desaparecer lentamente e com uma era distante, de valores e memórias que parecem já do século anterior. Anthony Hopkins, tem aquela beleza bronzeada do final de setembro, aquela época do ano em que os dias vão ficando cada vez mais curtos e caminhamos para o inverno e para o escuro. Através do seu rosto e do seu olhar muito particular, James Gray leva-nos a recordar a importância que os nossos avós têm (ou tiveram, falo da minha experiência pessoal, também desses tempos) na nossa infância e no nosso crescimento como pessoas e seres humanos. De repente, os avós desaparecem e os nossos próprios pais são os órfãos. A sua dor anuncia também, os tormentos da nossa maturidade e da nossa passagem para um mundo mais feroz, perante até a inevitabilidade do sofrimento e da morte. Cada um de nós passa por esse momento à sua maneira, mas quantos projetos tivemos, quantas aventuras que sonhamos se evaporam sem darmos por isso? Ao nosso redor, a realidade acaba por chegar de repente com a sua complexidade brutal. É assim também que Paul descobre o racismo, traições, arrependimentos, passando a viver com as cicatrizes de uns anos de 1980, abertos para a mudança. No filme apesar das tropelias do miúdo Paul (Banks Repeta), há uma cena lindíssima e terna com o miúdo tentando, em vão, consolar a sua frágil mãe (Anne Hathaway), que lhe afaga o cabelo; ao contrário do pai (Jeremy Strong) seco e determinado em chamá-lo a atenção para as dificuldades e injustiças da vida. A ordem das coisas começam a mudar para o rapaz. É hora do ‘armageddon’, do fim de um mundo, para começar outro. E quem diria então talvez, já tenhamos passado por outro ‘novo normal’. Assente nos dois cabeças de cartaz Hathaway e Hopkins, não podemos esquecer as maravilhosas interpretações dos dois miúdos Banks Repeta, no ‘ruívinho’ e desencantado Paul e no expressivo Jaylin Webb, no pobre Johnny. Há uma pequena aparição de Jessica Chastain num discurso marcadamente elitista na Escola Privada, representando Maryanne Trump. Aliás o filme não hesita em fazer essa ponte entre a era Reagan e a presidência de Trump.

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Este ‘Armageddon Time’ é um filme muito terno e nostálgico, mas ao mesmo tempo notavelmente conciso, sem floreados ou hesitações. Efectivamente pode-se dizer, que não acontece nada de especial, não tem um grande clímax ou mesmo importantes reviravoltas. Porém, uma simples visita escolar ao Museu Guggenheim de Nova Iorque, um ‘charro’ fumado na casa-de-banho da escola entre dois amigos, um kit de um foguetão a sério, uma conversa com o avô ou uma tareia com o cinto do pai, pode dizer-nos muitas coisas. Pelo menos disse-me a mim, que passei por tantas experiências parecidas. E depois, às vezes são as pequenas coisas da vida, que fazem os grandes filmes. É este o caso!

JVM, em Cannes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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