Bardo | Cr. Limbo Films, S. De R.L. de C.V. Courtesy of Netflix

LFF 2022 | Bardo, em análise

Em “Bardo”, Alejandro G. Iñárritu aproveita todas os elementos técnicos verdadeiramente impressionantes para construir uma obra digna do grande ecrã. Estreando-se nos circuitos de festivais de cinema, tem estreia já marcada no streaming para 16 de dezembro, na Netflix.

Como alguém que recentemente decidiu mudar-se para outro país, o novo filme de Alejandro G. Iñárritu mereceu instantaneamente a adição à minha lista de cobertura da edição de 2022 do London Film Festival. Apesar de não ser um cineasta com dezenas de obras no seu portfólio, o realizador-argumentista conseguiu obter um estatuto elevado em Hollywood e, portanto, qualquer película da sua parte iria sempre obter a minha atenção. Bardo, False Chronicle of a Handful of Truths obteve uma resposta bastante divisiva em Veneza, mas apesar de entender as razões por detrás das opiniões mais negativas, sinto-me aliviado por pertencer ao lado positivo.

Bardo é uma daquelas obras onde tudo importa e (praticamente) tudo recebe o seu devido payoff. Seja uma rádio no fundo a noticiar uma compra absurda da Amazon, um detalhe visual aparentemente irrelevante, ou até um determinado som do qual (pensamos que) nos esquecemos dois minutos depois, Iñárritu demonstra uma atenção ao detalhe verdadeiramente impressionante. Todas as cenas são habilmente filmadas através de takes longos e ininterruptos, com um trabalho de câmara, montagem, framing e blocking dignos de pertencerem a uma autêntica masterclass. O elenco liderado pelo extraordinário Daniel Giménez Cacho flui entre os diálogos e o constante reposicionamento como se ser ator fosse tarefa fácil.

Filmes Hollywood 2022
BARDO | Cr. Limbo Films, S. De R.L. de C.V. via Netflix

É aqui que Iñárritu consegue fazer o seu filme brilhar. A narrativa de Bardo atinge o seu pico de interesse e genuíno investimento emocional quando se foca nas interações do pai com a mulher e os filhos, principalmente quando se volta ao debate sobre o quanto a imigração impactou as ambições, vontades e, no geral, a vida de cada membro familiar. A hipocrisia presente nas discussões sobre o contraste – e semelhanças – entre viver nos Estados Unidos da América ou no México é algo no qual me revejo tremendamente, chegando mesmo alguns diálogos a decorrerem quase palavra por palavra como nas minhas conversas com família e amigos.

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(In)felizmente, “excessivo” é o melhor adjetivo para descrever Bardo. Uma obra que tanto consegue pegar nas suas proezas técnicas e transformar qualquer sequência em mais um momento épico, como consegue usar esses mesmos atributos para afastar os espetadores e quebrar qualquer conexão emocional que possa existir ou ser construída. O argumento redigido por Iñárritu e Nicolás Giacobone aventura-se pelos caminhos da docu-ficção e do surrealismo, recreando eventos históricos dos quais espetadores não-Americanos e não-Mexicanos terão dificuldade em se relacionar ou sequer entender. Junte-se a isto uma quantidade, lá está, excessiva de absurdidade e efeitos visuais bizarros e eis que o filme se torna numa montanha-russa.

Tal como a sequência de abertura cinemática – receio que o streaming não conseguirá afundar o público na sua atmosfera imersiva – Bardo não consegue ser narrativamente consistente, andando por altos e baixos ao trocar o seu foco principal entre os arcos pessoais/ familiares e as sequências mais “históricas” e ridículas. Sente-se o peso da duração (demasiado) extensiva, mesmo dependendo da cultura geral dos espetadores em relação aos países abordados, assim como da ligação pessoal aos temas mais aprofundados: emigração, identidade, sucesso e família. Se existem cenas que não mereciam terminarem nunca, também existem aquelas que fazem olhar para o relógio.

Bardo
Cr. SeoJu Park/Netflix © 2022

Algo que pode ajudar imenso – pessoalmente, foi uma salvação – é o facto de Bardo ser das obras mais deslumbrantes do ano. Defendo a frase genérica “merece ser visto no cinema”, mesmo que os esplendores acabem por não desfrutar. Desde a produção sonora – de tal maneira poderosa que quase se sente o vento a bater na cara – à cinematografia maravilhosa de Darius Khondji (“Diamante Bruto“), o único pormenor que retira a cereja de cima do bolo “técnico” é a quantidade absurda de finais absolutamente perfeitos para terminar o filme, mas que Iñárritu frustrantemente prefere ignorar e atrasar um fim por si já previsível e demorado.

LFF 2022 | Bardo, em análise
Bardo Poster

Movie title: Bardo

Movie description: Crónica de incertezas em que o personagem principal, um jornalista e documentarista mexicano de renome, regressa ao país de origem enfrentando a sua identidade, relações familiares, a loucura das suas memórias, bem como o passado e a nova realidade do país.

Date published: 8 de October de 2022

Country: Mexico

Duration: 163'

Director(s): Alejandro G. Iñárritu

Actor(s): Daniel Giménez Cacho, Griselda Siciliani, Ximena Lamadrid, Iker Sanchez Solano

Genre: Drama, Comédia

  • Manuel São Bento - 70
70

CONCLUSÃO

“Bardo” funciona melhor quando se foca nas dinâmicas entre pai, mãe e filhos sobre a imigração e o quanto esta mudança drástica de vida afeta cada membro do núcleo familiar. Alejandro G. Iñárritu aproveita todas os elementos técnicos verdadeiramente impressionantes para construir uma obra digna do grande ecrã, mas peca por falta de consistência tonal e de controlo narrativo. As recreações “históricas” com quantidade q.b. de surrealismo apenas faz sentir mais o peso do tempo de execução e, não fosse a cinematografia soberba de Darius Khondji juntamente com uma cenografia e produção sonora inspiradoras, a obra podia ter sofrido bastante. Felizmente, há muito mais para desfrutar do que para frustrar.

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Manuel São Bento

Um jovem engenheiro de 28 anos com uma paixão tremenda por cinema, televisão e a arte de filmmaking. Opiniões baseadas numa perspetiva imparcial de quem não vê trailers desde 2016. Membro de associações de críticos internacionais como GFCA, IFSC e OFTA. Aprovado no Banana Meter. Redes sociais através de @msbreviews.

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