Luca © Disney

Luca, em análise

A Disney•Pixar apresenta em “Luca” uma carta de amor à Itália. Cheio de cor e magia, esta é uma estreia exclusiva Disney+ a não perder.  

Ciao, ciaociao! Estreia finalmente na plataforma de streaming Disney+ (um lançamento exclusivo a 18 de junho sem qualquer custo adicional) a aventura mais colorida de animação da temporada e possivelmente um dos fortes candidatos aos Óscares 2022. “Luca” é 24ª longa-metragem que nasce da parceria entre os estúdios Walt Disney e a sua divisão mais conceituada, a Pixar Studios. Depois da aclamação de “Soul – Uma Aventura Com Alma“, vencedor dos Óscares de Melhor Filme de Animação e Melhor Banda Sonora Original na última edição das estatuetas douradas, a fasquia para um novo filme criado pela empresa nunca esteve tão alta. Contudo, em vez de sermos levados para a América, “Luca” transporta-nos a Europa, algo que a Pixar já não fazia desde “Brave – Indomável”, quando seguimos pelas Terras Altas da Escócia.

Desde logo, e como percebemos nas suas primeiras imagens e trailer, “Luca” faz-nos mergulhar nas cristalinas águas do mar Lígure, na zona costeira da Riviera italiana. Segundo muitos, a Ligúria foi sempre colocada em segundo plano quer nos mapas turísticos quer nos mapas cinematográficos internacionais, uma vez que a maioria das produções de Hollywood transportavam-nos para as grandes cidades de Milão, Veneza ou Roma ou para os ambientes paradisíacos da Costa Amalfitana. Desta vez, a Pixar faz justiça à beleza da pequena região do norte da Itália, famosa pela sua ligação com o mar e respetiva indústria pecuária, por ser o berço do original pesto – o famoso molho à base de manjericão e pinhões – e pelas demarcantes Cinque Terre, o trecho composto pelas cidades de Monterosso, Vernazza, Corniglia, Manarola e Riomaggiore e onde as casas são dispostas como uma espécie de escadaria.

Luca” permite-nos então fazer as malas e partir em viagem como realmente estamos a precisar nestes árduos tempos, dominados por limitações impostas pela pandemia COVID-19 (ela mesma que obrigou a alterações na estreia deste filme). Vens connosco nesta viagem para descobrir o que pensamos da nova aventura da Disney•Pixar?

Trailer de Luca | A aventura italiana da Pixar

Luca” é uma história de amadurecimento e sobre um relacionamento fraternal entre dois monstros marinhos, um miúdo com 13 anos cujo nome dá título ao filme (com a voz de Jacob Tremblay do aclamado “Quarto” [2015]) e o seu novo amigo Alberto (voz de Jack Dylan Grazer, dos filmes “Shazam” [2019] e “It” [2017]), que se tornam humanos assim que emergem das profundezas do mar. Ambos compartilham momentos únicos e especiais, seja a sonhar com a mais icónica scooter Vespa, a saborear deliciosos pratos de maccheroni ou simplesmente a mangiare un gelato enquanto gozam do tempo livre na bela e envolvente cidade de Portorosso – numa referência direta a “Porco Rosso – O Porquinho Voador” (1992), filme de Hayao Miyazaki sobre um amaldiçoado aviador na Itália dos anos 30.

A facilidade de Luca e Alberto esconderem as suas verdadeiras identidades parece ser uma maneira de descobrirem o mundo dos monstros terrestres, terríveis assassinos de criaturas marinhas. Esta busca estimulante pela libertà fá-los travar conhecimento com locais e habitantes desconhecidos. Enquanto Luca está cansado da sua rotina relativamente feudal no mar, onde é responsável por levar os peixes a pastar, Alberto não tem nada a perder e conhece já alguns secretos do que é ser humano, embora necessite de alguém com quem partilhar a sua experiência. A premissa de “Luca” não é nada de novo e parece ser um misto das histórias de “À Procura de Nemo“, “Brave – Indomável”, “Ratatui” ou até mesmo do recente “Bora Lá“, onde a amizade entre duas pessoas é testada até aos limites.

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Em termos estéticos, o cineasta Enrico Casarosa – ele mesmo italiano nascido em Génova em 1970 e emigrado nos EUA há vários anos -, expande os desenhos da sua curta-metragem “La Luna” (2011), também uma história italiana sobre a afirmação da identidade e a aceitação da diferença. A silhueta das personagens de “Luca” assume uma aparência muito realista, nomeadamente quando os miúdos se tornam humanos e para tal, foram adicionadas texturas pintadas à mão sobre os olhos, a boca e o corpo destas personagens. O processo de mudança de Luca e Alberto de monstros para humanos (e vice-versa) foi trabalhado pela equipa técnica ao mais pequeno pormenor, sendo conservados os traços específicos de cada um. Esta mudança em “Luca” não é só importante do ponto de vista visual como em termos do amadurecimento dos nossos protagonistas.

Quanto à intensidade das cores da natureza envolvente, é retirada das deslocações feitas até à Ligúria pelos membros da Pixar e também dos filmes de animação do estúdio japonês Ghibli, como por exemplo “Lupin III: O Castelo de Cagliostro” (1979), de Hayao Miyazaki, que também decorre em solo italiano. É incrível pensar que os ambientes que vemos em “Luca” foram feitos a partir da mais moderna tecnologia computadorizada. Somos transportados para um mundo cada vez mais real, onde a equipa criativa da Pixar voltou a dar novamente o seu melhor.

Luca
© Disney

Com “Luca” é-nos apresentada uma animação muito humana, de monstros que querem ganhar espaço neste nosso mundo, que querem ser autênticos desde bem cedo. Passamos tantos minutos na companhia de Luca e Alberto que provavelmente serão feitas comparações iminentes “Luca” a “Chama-me Pelo Teu Nome“, o drama de Luca Guadagnino sobre o sentido de perceber a outro indivíduo, sobre o significado de alma gémea. Luca e Alberto podem ter algo do inocente Elio e o adulto Oliver que se apaixonam, mas esta é uma história que funciona perfeitamente sozinha e que não precisa de sobreviver em universos criados nas cabeças dos fãs. Entre as tantas leituras da nova animação Disney, vimos “Luca”  como uma celebração de amizade, o relacionamento mais puro, pelo qual todos passamos em miúdos ou na idade adulta. “Luca” é uma carta de amor à Itália, mas também uma carta de amor à partilha das experiências, aos laços mágicos que nos unem enquanto humanos.

Segundo o próprio Casarosa, esta é história pessoal sobre a relação com o seu melhor amigo Alberto que o inspirou a tornar-se animador e também sobre os locais onde cresceu. “Luca” evidencia-nos como as amizades têm o poder de determinar o curso das nossas vidas. É um filme sobre duas crianças pertencentes ao mesmo mundo que partilham o gosto pela aventura, e fazem tudo lado a lado. Ironicamente, a metamorfose para o corpo humano desperta em Luca um sentimento de otimismo e curiosidade, uma vontade de superar medos e navegar pelo mundo inexplorado, algo aparentemente estranho à sua família de monstros marinhos acomodados às realidades profundas de vários séculos. E por ser uma história tão próxima à realidade de Casarosa, parece que o despertar de Luca indica-nos que ser humano é saber ser italiano.

Comparativamente a “Soul – Uma Aventura Com Alma“, onde se defendia os termos de carpe diem, de saber encontrar o prazer nas coisas banais e nos preciosos minutos do quotidiano, “Luca” é uma demanda pelos momentos grandiosos, pela busca de uma ideia do bigger-than-life, de braços dados com a descoberta do conhecimento e della dolce vita italiana. Luca vai ser o dono dell’universo e também dono da vastíssima cultura italiana, que se estende desde da culinária, ao setor automotivo, ao universo cinematográfico (vejam-se os vários posters e referências na cidade de Portorosso), à genialidade de Leonardo Da Vinci ou às narrativas infantis, como em “Le Avventure di Pinocchio”, o romance de Carlo Collodi, sobre o bonequinho de madeira que anseia ser humano e aprende a ser humanista.

A própria banda-sonora é recheada de meravigliose canzoni del bel paese, como por exemplo “Un Bacio a Mezzanotte”, do Quarteto Cetra, “Il Gatto E La Volpe”, de Edoardo Bennato ou “Tintarella di Luna”, de Mina. Com um saco de cultura, sentimos a mala cheia e esta experiência torna-se bastante agradável, mesmo contemplada desde um computador.

Luca Disney Pixar
©Disney

De aventura em aventura, Luca e Alberto vão perceber que têm tanto em comum como de distinto, pois como todos nós sabemos, não existem monstros marinhos iguais. Na maior parte da narrativa temos momentos relativamente descontraídos e bem-dispostos que tornam “Luca” numa experiência relaxante, agradável e com realces mais infantis. Contudo, sentimos que a busca pela profundidade emocional não foi esquecida, e tal decorre aquando do inevitável desentendimento entre duas personagens. Aí, temos provavelmente uma das sequências mais dolorosas e revoltantes que o universo Disney•Pixar nos apresentou. Percebemos que somos todos como o protagonista, com medo de termos um arpão a atravessar os nossos corpos por não sermos aceites.

Nesse rumo, a animação cinematográfica acaba por desviar-se da comédia familiar e aproxima-se mais dos filmes dell’epoca neorealista, muitos dos quais permitiram analisar conjunturas particulares da vida infantil num contexto do pós-Segunda Guerra Mundial. Falamos de obras como “Ladri di biciclette” (Vittorio De Sica, 1949), uma das maiores denúncias das débeis condições familiares desse período, ou ainda “Sciuscià” (Vittorio De Sica, 1946), também este sobre dois miúdos, Giuseppe e Pasquale, que procuravam num cavalo branco um expoente máximo da liberdade individual e da libertação social. Este parece ser o filme com o qual “Luca” tem mais aproximações, uma obra corajosa que à sua maneira obrigou a reformas no tratamento das crianças em instituições italianas. Curiosamente, há ainda um aproximar de “Luca” à história de “La Terra Trema” (Luchino Visconti, 1948), pelo facto de uma das personagens desta história infantil ter dificuldade em pescar e, com isso, não consegue desenvolver o seu negócio.

Luca” aproveita-se de um estilo que serve de pilar obrigatório ao entendimento do que significa essere italiano, adaptando-o a novas gerações e mostrando essa procura pela imagem mais realista mesmo em animação, mesmo num filme sobre monstros. A denúncia social é feita em “Luca” pela maneira como muitos pais e a sociedade do século XXI tentam delinear o trajeto de vida dos seus filhos e com isso estabelecem balizas aos seus sonhos, gerando convenções e estigmas que dão origem a atos de intimidação e agressão que todos nós conhecemos como bullying. Precisamos novamente de melhorar a forma como tratamos as crianças e aceitá-las por serem especiais e diferentes.

Luca
Luca | © Disney

Apesar de todas estas particularidades, “Luca” demora muito tempo a atingir a carga emocional e inesperada que se fazia sentir em “Up – Altamente!”, “Wall-E” ou mesmo em “Soul – Uma Aventura Com Alma”. Mas non c’è nessun problema. “Luca” ganhará o seu lugar no património Disney•Pixar como um filme sobre a essência das identidades infantis. “Luca” nunca é pretensioso e contemplamo-lo com uma certa inocência, da mesma forma que o seu protagonista olha para o mundo. Hoje, mais do que nunca, faz todo o sentido mostrá-lo às crianças, para que desenvolvam valores universais de amicizia, integritàrispettoverità.

Em suma, “Luca” consolida-se assim como o entretenimento puro que precisávamos em tempos de COVID-19, um filme para amantes de viagens que nos últimos tempos poucas ou nenhumas vezes deixaram as suas casas. Neste momento somos todos espectadores um pouco como “Luca” cansados do nosso quotidiano e ansiosos por sair à procura de algo novo, de uma liberdade que só parece existir quando a vivemos. Viva “Luca”, viva l’Italia!

A importância da amizade em Luca

Luca é um dos filmes mais positivos da Disney•Pixar e um dos marcos cinematográficos da temporada de verão 2021. Viajamos até Itália com dois seres místicos que aos poucos vão travar conhecimento com a beleza do mundo dos humanos e irão quebrar inesperadamente convenções de vários anos. 

  • Virgílio Jesus - 80
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Conclusão:

“Luca” é uma história sobre a força da amizade que nos faz emergir por completo nas vivências italianas. Agradará mais aos miúdos do que aos graúdos, e consegue ser fascinante na maneira como faz um alerta à necessidade de tratarmos melhor as nossas crianças que devem sonhar sem limites. Faz-nos inclusive viajar até ao melhor verão das nossas vidas.

Pros

  • As cores, a música que homenageia Ennio Morricone e os estudos sobre todas as singularidades da Itália;
  • A estrutura equilibrada e a leveza de uma história de animação;
  • Muitas palavras originárias italianas conseguem ser inseridas de maneira justa na trama.

Cons

  • A trama demora algum tempo a desenvolver a maturidade da sua história, o que pode parecer algo curto para o espectador;
  • As semelhanças demasiado evidentes com outros filmes Pixar.
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Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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