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Memória, em análise

Tilda Swinton regressa ao grande ecrã com “Memória”, a premiada obra de Apichatpong Weerasethakul. Será que a longa-metragem vale a pena?

BIG BANG OU BIG CRUNCH…?

Memória
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Existe uma demanda, levada a cabo por muitos cientistas, para encontrar e registar aquilo que se convencionou chamar o BIG BANG, o som contemporâneo da grande explosão primordial responsável pela origem do universo que, desde então, se encontraria em permanente expansão. Mas há quem defenda que a expansão do universo não será infinita e atingirá um limite, sofrendo um colapso que resultaria na antítese do BIG BANG, ou seja, o BIG CRUNCH. Por outras palavras, a uma EXPANSÃO de dimensões cósmicas seguir-se-ia uma CONTRACÇÃO de duração similar, até se atingir a gravidade zero. Embora esta ideia de colapso universal seja hoje descartável, não deixa de ser sedutora a discussão sobre a origem e o eventual destino do universo. E nesta altura estarão alguns a perguntar o que foi que deu ao autor desta crítica de cinema para fazer semelhante introdução? Naturalmente, não vou aqui desenvolver estes e outros assuntos da Física e da Astronomia, apesar do visionamento do filme MEMÓRIA permitir estas e outras especulações, porque quero passar já para a matéria de que são feitos os sonhos do realizador, o tailandês Apichatpong Weerasethakul, e para a reflexão e análise estrutural daquilo que vemos e sobretudo ouvimos na primeira obra do cineasta produzida fora do seu país, um filme a meio caminho da linguagem cinematográfica e da instalação artística. Em MEMÓRIA, a acção situa-se na Colômbia, numa fase inicial em Bogotá, onde iremos encontrar logo nos primeiros minutos Jessica, personagem interpretada por Tilda Swinton, relativamente alarmada com aquilo que ela e o espectador identificam como sendo uma explosão, na verdade um som estranho cuja origem não parece estar nem perto nem longe do quarto onde Jessica se encontra deitada, quarto de que apenas vemos a luz velada do exterior que atravessa as cortinas. Depois, vemos a silhueta daquela mulher levantar-se. Deambula pelo espaço circundante, procurando resposta para uma óbvia série de questões. Que som vem a ser este? De onde veio? O que significa aquele misterioso estrondo? Esta sequência inicial estabelece desde cedo o clima que irá prevalecer ao longo do filme, uma atmosfera de confronto permanente entre aquilo que ouvimos e aquilo que sentimos ou pensamos sentir, aquilo que a certa altura começamos mesmo a questionar poder ser uma simples alucinação de Jessica, e só dela, já que as restantes personagens que com ela se cruzam parecem ignorar por completo os sons que diz ouvir e que nós ouvimos distintamente. Há um momento muito particular a este respeito quando Jessica, durante um jantar num restaurante, será sobressaltada por vários sons similares e repetidos. Os sons interrompem a aparente normalidade do que se mostra no plano, vemos o esgar de espanto e até algum medo no seu rosto, mas a agressividade dos sons não parece incomodar um milímetro o comportamento dos seus familiares, o que nos provoca uma espécie de angústia. Porque ao ouvirmos o que ela ouve, perante a indiferença dos outros, apetece gritar para que parem de falar sobre banalidades e prestem atenção ao que julgamos estar a interferir na mais básica rotina da refeição. Claro que estamos no cinema. No domínio da ficção. Naturalmente, devíamos fazer sempre um exercício de distanciação. Mas, neste caso, o facto de ouvirmos o mesmo que Jessica faz de nós parceiros voluntários ou involuntários daquela mulher, sobretudo após a sequência em que procura recriar o som que nos ficou na memória com o apoio de Hernán, papel defendido por Juan Pablo Urrego. Numa mesa de mistura, o músico e sonoplasta combina e manipula efeitos sonoros previamente gravados, sendo a audição de Jessica paralela ao da nossa audição, o que gera a possibilidade de dizermos de forma introspectiva, como se estivéssemos no estúdio a assistir mas sem intervir: não, não fui isto que ouvi, foi mais aquilo, aqui um pouco mais de volume, ali menos eco… Em resumo, construímos mentalmente uma plataforma comum, que faz de nós cúmplices da obsessiva busca pelo som “puro”, a concretização de uma memória difusa, de uma abstracção que se quer agora exacta, uma verdade sonora, o som preciso, o elo que nos permitisse encontrar a solução para o enigma. De igual modo, algo que nos fizesse acreditar que há mais qualquer coisa para além das aparências, para além da realidade material. Qualquer coisa que se não for conseguida nos pode escapar e que receamos nos irá escapar se, num momento de descrença, abandonarmos Jessica ao seu destino. De facto, esta irá assumir um percurso errante até encontrar um homem, mais uma vez chamado Hernán, interpretação a cargo de Elkin Díaz, personagem mais velha do que o jovem Hernán, aquele que desaparecera sem mais dizer.

Memória
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Será pois num espaço rural de uma aldeia colombiana, em pleno contraste com os ambientes urbanos e relativamente sofisticados que até ali prevaleciam como dominantes, que Jessica vai estabelecer uma relação cada vez mais intensa e misteriosa com uma espécie de versão madura do jovem Hernán. Relação que os levará num determinado ponto a receber e partilhar frequências de sons passados, sonoridades de vidas povoadas por conflitos violentos, memórias de vozes, sons e ambientes da natureza, memórias de uma MEMÓRIA maior que finalmente se revela, provavelmente só a nós espectadores, como se o cineasta nos quisesse convidar para uma cerimónia secreta, uma visão sobrenatural de um segredo bem guardado na selva onde, pelo efeito de uma bizarra forma de energia digna da mais vulgar imagética da ficção-científica, se produz o som que perseguíamos, o som que agora se materializa num registo simultaneamente áudio e visual de difícil, diria mesmo, desnecessária interpretação. Está lá o que precisamos de saber, entre as quatro linhas do enquadramento. Dali para a frente não precisamos de fazer mais perguntas, simplesmente porque nunca seria possível encontrar qualquer resposta conclusiva. Por isso, a demanda de Jessica está concluída e ela desaparece. Só fica Hernán, o eremita cósmico rodeado pela Natureza, que não questiona o princípio ou o fim, limita-se a ser e estar. E agora aproveito para regressar ao início do artigo: Hernán, o homem que contraria a razão científica, homem para quem o BIG BANG ou o BIG CRUNCH não passariam de apontamentos marginais inseridos nas páginas soltas e provavelmente perdidas da MEMÓRIA do cosmos.

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Escusado será dizer que as propostas fílmicas de Apichatpong Weerasethakul desde sempre exigiram uma disponibilidade por parte de quem as desfruta, que nem sempre podemos definir como fácil. Há obviamente um prazer que advém da leitura e interpretação da linguagem cinematográfica ao longo das sucessivas sequências, sobretudo quando sentimos crescer uma certa cumplicidade com as propostas estéticas e filosóficas do autor. E na verdade elas possuem uma coerência assinalável, estando presentes nesta e noutras obras como O TIO BOONMEE QUE SE LEMBRA DAS SUAS VIDAS ANTERIORES, 2010, ou CEMITÉRIO DO ESPLENDOR, 2015. Pessoalmente, conheci a sua filmografia ainda cedo, numa altura em que o cineasta se dedicava quase exclusivamente a curtas-metragens. Cheguei mesmo, como membro do Júri Internacional no Festival de Oberhausen, um dos grandes certames para o cinema de vanguarda, a dar-lhe um prémio pela curta A LETTER TO UNCLE BOONMEE, 2009. Seja como for, ao longo dos anos da sua já vasta filmografia, não fui propriamente um fanático defensor da sua ideia de cinema e de alguns dos seus projectos experimentais. Reconheço apenas que nos seus planos gerais e planos de conjunto – raras vezes usa outras escalas em MEMÓRIA – consegue influenciar e muitas vezes conquistar o nosso olhar, propondo-nos uma visão particular do cinema, do seu cinema. Será essa uma das suas qualidades, sem dúvida. Mas receio que seja igualmente o princípio e o fim que o limita, o seu BIG BANG ou o seu BIG CRUNCH.

Memória, em análise
Memória

Movie title: Memória

Date published: 25 de January de 2022

Director(s): Apichatpong Weerasethakul

Actor(s): Tilda Swinton, Elkin Díaz, Jeanne Balibar, Juan Pablo Urrego, Daniel Giménez Cacho

Genre: Drama, Ficção Científica, 2021, 136 min

  • João Garção Borges - 50
50

Conclusão:

PRÓS: Um filme para quem goste de saborear cada plano como se fosse o último dos planos. Mas sabendo que isso só acontece no cinema de um autor que os vê como quadros de sombra e luz no cruzamento entre diferentes artes, diversos referentes imagéticos, uma clara multiplicidade de sons e ainda um sentido espiritual de grande intensidade poética.

CONTRA: Mais uma vez, digo aqui o que já disse mil vezes. Os filmes concebidos para o grande ecrã são para ser vistos em sala. Neste caso, parece óbvio que o autor não esteve apenas interessado na linguagem cinematográfica, investindo igualmente numa dialéctica entre arte e cinema, que encontramos em muitos domínios da chamada instalação artística. Deste modo, a dimensão das escalas com base em planos gerais e de conjunto, assim como uma série generosa de planos fixos que dominam a narrativa ou a proto-narrativa, ainda mais justificam um visionamento amplo, que nos permita acompanhar e escrutinar os movimentos e comportamentos muito pessoais dos actores na construção das suas personagens, assim como a inserção da sua composição no fluir das ainda mais particulares propostas do realizador.

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