Weyes Blood

Mês em Música | Playlist de Abril 2019

Playlist de Abril | Os álbuns

No que toca a afeição, vale o aforisma do Orwell em O Triunfo dos Porcos: “todos os homens são iguais, mas uns são mais iguais do que outros”. Dos álbuns lançados este mês e que julgamos valer igualmente a pena conhecer aqui na Playlist de Abril, uns são mais iguais do que outros ou, pelo menos, a nós e ao que desejamos ouvir sem o saber. Há muito que o Laughing Matter, dos Wand, vinha a chamar a nossa atenção e, agora que o temos entre nós, mais ainda nos entusiasma na sua diversidade sonora, cada canção a partir num sentido inesperado, levando-nos num rumo que é um prazer percorrer. O Morbid Stuff dos PUP foi uma agradável surpresa, todo o temor de que a banda pudesse ter amolecido desfeito à primeira audição do álbum na sua inteireza. Mas nada superou a confirmação de que com os Fontaines D.C. temos a nossa nova banda favorita – uma daquelas de culto, capazes de nos fazer usar a sua t-shirt até cheirar mal e cometer a loucura de comprar um bilhete de avião só para os ir ver ao vivo no Reino Unido – e que Weyes Blood lançou um dos discos da década.

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Weyes Blood, Titanic Rising | em análise

Sobre o álbum de estreia dos Fontaines D.C. dissemos o seguinte na nossa crítica: «Dogrel abre com a afirmação insolente de que “Dublin in the rain is mine (…) My childhood was small/ but I’m gonna be big”. A nossa boa-fé inicial leva-nos a tomar o conto de “Big” como a típica edificante história de sucesso, mais ainda vinda da boca de uma banda que começa agora a levantar voo e entrar no horizonte do mundo. Não tarda, porém, a boa-fé converte-se na suspeita de que, por detrás da inchada declaração de intenções, haja uma mente sardónica, a esboçar a caricatura do corrente modo de ser irlandês. Sob ataque, está a mentalidade pragmática e economicista, cheia de desprezo pela cultura e indiferente à indigência, que tomou conta da Irlanda do novo milénio: “money is a sandpit of the soul”. Chatten lamenta-se de que não haja quem, liderando os restantes, eleve o olhar às coisas sem preço e perca o espírito na procura do rasteiro (“None can revolution lead with selfish needs aside/ As I climb, I’m about to make a lot of money”). Em várias entrevistas, a banda tem criticado as profundas alterações urbanas de que Dublin tem sido objecto, manifestando o desejo de explorar “a cultura moribunda que está a ser assassinada pela gentrificação”.

É esta vida pulsante de Dublin, em extinção, que a poesia de Dogrel retrata na sua autenticidade popular. As histórias sucedem-se, fragmentos de um drama que os olhos do artista descobrem nos cantos e intervalos escondidos da cidade, “under the lamplight’s faded career”: “Heads hit the streets, turn cheeks at stars/ There’s always tears”. Numa urbe em mudança, desaparecido o ideal, não há qualquer perspectiva de futuro para a juventude, aqueles cujos olhos não estão ainda mortos, um desalento que transparece nas dores e dificuldades do casal de “Roy’s Tune”: “It was the message I heard when the company said/ There is no warning, there’s no future”. A canção termina com um comovedor, tosco “Hey love/ Are you hanging on?”, cantado na voz cheia de viril compaixão de Chatten, com toda a rudeza de um sentimento verdadeiro.»

FONTAINES D.C. | DOGREL

PLAYLIST DE ABRIL | O álbum do mês

E sobre o álbum de Weyes Blood, que reina indiscutível na nossa Playlist de Abril, mas não só (veja-se a sua receção internacional), dissemos o seguinte: «O anterior registo, Front Row Seat to Earth, de 2016, já sugeria muitas das direcções sonoras adotadas em Titanic Rising. Mas só aqui se cumprem num todo grandioso, cada canção uma coluna de contorno e ornamentação irrepetíveis, a seguir o seu caminho único verso a abóbada da catedral. O movimento ascensional é, aliás, uma boa imagem para a estrutura da maioria destes temas, que vão crescendo da estrofe para o refrão ou da introdução até à coda. Como se Mering não se cansasse de ilustrar musicalmente o seu desejo de “something bigger and louder than the voices in me/ something to believe”. Esta forma composicional é a regra adoptada ao longo de quase todo o álbum e confere à voz de Mering, pela primeira vez, o contexto de que precisava para revelar todo o seu potencial expressivo. Assumindo muitas vezes o tom épico ou nostálgico da música para filmes, tanto graças à orquestração própria da música pop da década de 70 como às melodias jazz dos musicais da época de ouro da MGM, o instrumental sublinha (mas sempre sem exagero ou redundância) o drama narrado liricamente: “You threw me out of the garden of Eden/ lift me up just to let me fall hard/ can’t stand being your second best”.»

WEYES BLOOD | TITANIC RISING

PLAYLIST DE ABRIL | DESTAQUES DO MÊS

  • Idlewild, Interview Music (Empty Words, 5 de Abril)
  • PUP, Morbid Stuff (Rise Records, 5 de Abril)
  • Weyes Blood, Titanic Rising (Sub Pop, 5 de Abril)
  • Laura Jean Anderson, Lonesome No More (B3SCI Records, 5 de Abril)
  • Fontaines D.C., Dogrel (Partisan, 12 de Abril)
  • Wand, Laughing Matter (Drag City, 19 de Abril)
  • Sunn O))), Life Metal (Southern Lord Records, 19 de Abril)
  • Kevin Morby, Oh My God (Dead Oceans, 26 de Abril)
  • Aldous Harding, Designer (4AD, 26 de Abril)
  • The Mountain Goats, In League With Dragons (Merge, 26 de Abril)

PLAYLIST DE ABRIL | SPOTIFY

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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