Mês em Música | Playlist de Março 2019

Playlist de Março | Os álbuns

Não há dúvida que placeholder de Hand Habits é um daqueles álbuns especiais, que perduram na memória uma vez ouvidos e há muito que antevíamos a sua triunfante inclusão na Playlist de Março. Não há nada de temporário (apesar do título) neste conjunto de canções, bem pelo contrário. A doçura e agradabilidade das melodias e do seu andamento são enganadoras. Nada há nelas de fácil ou imediato, sendo preciso tempo e rotações até se poder chegar a cantarolar, distraídos, alguns dos seus trechos. Mas uma vez ouvido o álbum vezes sem conta, cada nota, cada tema soa terrivelmente, dolorosamente familiar. O arranque de cada canção emerge distinto do resto do cosmos, igual a nada senão a si próprio. Não só a identidade, mas também o espectro sentimental das melodias e das inflexões da voz são aqui impercetivelmente inesquecíveis. Uma plangência nunca chorosa, nada melodramática, antes ruminada e reconfigurada até ao limite da reinvenção interior, caracteriza os melancólicos devaneios de Meg Duffy, que nos conquistam na sua apenas aparente tranquilidade.

E, contudo, é precisamente esta reconfiguração interior que nos lança dúvidas sobre a autenticidade do sentimento amoroso expresso em placeholder. Apesar de alguns relâmpagos da mudança de si trazida pelo outro (“Because of you I’m capable of more”), inegável sinal da realidade de alguém a existir e a palpitar, distinto, fora da própria mente, a descrição de tudo como distanciados rumores (“words I couldn’t comprehend/ as a thousand years of feedback”), até já só se ver, em vez de ouvir, o outro falar (“she speaks clearly, tongue against her teeth”), deixa-nos na incerteza de que haja, no final, mais alguém nesta história. Não se trata, neste caso, da prerrogativa do poeta de conseguir que só a sua versão dos factos seja conhecida. Mas da estranheza de, quando somos todos pecadores e as culpas tendem a ser de parte a parte, ouvir alguém conceder o seu perdão ao outro em vez de lho implorar. Perdão por ter destruído a imagem que sobre ele se projectara: “Jessica, I forget you shattered my reality/ I forget, I do, I do forgive”. No final, temos só “the fire of my desire”, onde tudo, em vez de se forjar e crescer em límpida e irredutível nitidez, antes se funde e dissolve, numa derrocada rumo à indiferenciação: “I lost my identity inside of you, I guess we were the same”.

HAND HABITS | PLACEHOLDER

Pode ser que Miss Universe de Nilüfer Yanya não seja um título tão despropositado quanto parece à primeira vista (se bem que a insolência não passa, claro, de ironia). Alguém aqui arrisca-se seriamente a ter o mundo inteiro rendido a seus pés, jogando-se tudo na fortuna destas canções quando saltarem do que aparenta ser um grande álbum de estúdio para os palcos inclementes dos festivais. Construções delicadas, onde o máximo é retirado de cada mínimo que se oferece, cada uma destas canções se desenha como um percurso inesperado e contorcido, tão envolvente quanto a narrativa tensa que articulam no seu todo e só os interlúdios aliviam, mesmo se um pouco distrativos e imotivados.

Nilufer Yanya - Mês em Música - Playlist de Março 2019
Nilufer Yanya

O diálogo assertivo entre a guitarra minimalista e a voz soul de Nilüfer Yanya; a sua poderosa dinâmica de ruído e silêncio, cheia de tensos crescendos; a cadência e as inflexões da voz que se vai encaixando surpreendentemente na textura do instrumental – com cada sílaba ora a fugir, ora a contornar, ora a antecipar, ora a sublinhar, mas sempre a superar vitoriosa e intensa os obstáculos oferecidos pelas notas das guitarras, dos teclados e da bateria, que vêm inesperadas de todos os lados; a fascinante oscilação entre a batida poderosa do punk e a música soul fortemente sincopada; tudo isto constroi uma versão de pop/r&b que se infiltra insensivelmente quanto mais se ouve, aumentando em estranheza a cada audição, a cada novo reparo.

“What a mess I’ll be” sintetiza tanto a musicalidade, no seu caos controlado, quanto ao teor do lirismo de Miss Universe. É a confusão de uma relação que, volvendo e revolvendo sobre si, esboroando-se na tensão de pólos a atrair e repelir-se continuamente, conhece a tragédia do fim: “We’re moving on now/ And ain’t it sad?/ Giving up now, giving up all our love/ I guess it’s just too bad”. Em versos que (lá está) confusamente oscilam um mesmo conteúdo semântico entre variáveis e instáveis pronomes de primeira e segunda pessoa, Nilüfer Yanya clama por uma salvação que não chegou: “Game over, I’m/ Heartbroken/ I gave you up”.

NILÜFER YANYA | MISS UNIVERSE

Playlist de Março | O álbum do mês

Como tem sido justamente apontado, a arte de capa do mais recente American Football, o terceiro da série e o primeiro da nossa Playlist de Março, comunica uma mudança de direcção, dentro de uma identidade que se mantém, apesar de tudo, sempre a mesma e sempre inconfundível. Foi-se a casa (“the further I get from home”) e eis-nos nos nebulosos e difusamente coloridos exteriores, a meio caminho de uma vida cada vez mais “uncomfortably numb”, onde tudo é cada vez menos óbvio e a grande pergunta é sobre a vantagem de viver sem que os nossos actos deixem feridas e cicatrizes por esse mundo fora: “How will I exist/ Without consequence?” A indefinição e a névoa que contemplamos na capa tanto evoca o florescido travo a dream pop do novo álbum, confirmado pela voz de Rachel Goswell, como alude à sábia erosão das categóricas linhas em que a juventude espartilha a existência.

O jogo de guitarras dos American Football reaparece, continuando a tecer intrincadas malhas polifónicas, mas longe estão agora os laivos slowcore, à Codeine ou Red House Painters, que ainda se faziam sentir tão recentemente quanto em 2016, no segundo registo. Vivendo menos do diálogo entre os instrumentos e mais das malhas em si, bem como da forma das canções, as melodias em American Football (LP3) são mais emotivas, os arcos mais redondos e a atmosfera mais envolvente, o lamento da voz almofadado e intensificado pelos sintetizadores. No centro de uma sonoridade homogénea (cujas subtis variações em torno dos mesmos temas pedem audição repetida), o drama é outro, na esteira dos assuntos aflorados no anterior LP. Pela voz de Kinsella, casado há quase vinte anos com uma professora de liceu e dois filhos para levar à escola, são os desafios da maturidade que entram agora em cena. As dores e alegrias, as culpas desculpáveis e indesculpáveis, cada limite que emerge no “forever” de uma relação com um outro, radicalmente, quase imperdoavelmente, distinto de si próprio, evocado pelas vozes femininas que Kinsella convidou a entrelaçar na sua.

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Correndo o risco de heresia diante da devoção que rodeia o clássico disco de estreia, diria que este álbum revela uns American Football mais únicos e carismáticos, não tanto devedores do seu passado quanto do seu intrínseco talento e em total sintonia com a sensibilidade do presente. Como reverberam verdadeiras certas reflexões sobre o humano em si, pungente a perplexidade diante do “allure of inconsequential love”, dolorosamente cómica a queda naquilo mesmo contra o qual ingenuamente se revoltara na juventude, num conhecimento progressivo da própria inépcia e falibilidade: “I blamed my father in my youth/ Now as a father, I blame the booze”. Mas nesta estrada de humilhação de si mesmo, é o outro que esplende na sua quotidiana rotina: “I miss you like a past life/ I can’t remember if/ You were ever mine to miss (…) I’ll miss you in the next life”. Com o passar do tempo “there is more of you in me” e nada há de tão interessante quanto ser visto, trazido à existência pelo olhar do outro: “Just the thought of being seen is more than I can take/ I never met a mirror that I couldn’t break”. Quem disse que o rock não podia ser a música dos que crescem e sobrevivem?

AMERICAN FOOTBALL | AMERICAN FOOTBALL 3

PLAYLIST DE MARÇO | DESTAQUES DO MÊS

  • Hand Habits, placeholder (Saddle Creek, 1 de Março)
  • Solange, When I Get Home (Saint Records/ Columbia, 1 de Março)
  • Dave, PSYCHODRAMA (Neighbourhood, 8 de Março)
  • Helado Negro, This Is How You Smile (RVNG Intl., 8 de Março)
  • Stella Donnelly, Beware of the Dogs (Secretly Canadian, 8 de Março)
  • Karen O & Dangermouse, Lux Prima (BMG, 15 de Março)
  • American Football, American Football (LP3) (Polyvinyl, 22 de Março)
  • Nilüfer Yanya, Miss Universe (ATO, 22 de Março)
  • These New Puritains, Inside The Rose (Infectious, 22 de Março)
  • La Dispute, Panorama (Epitaph, 29 de Março)
  • Laura Stevenson, The Big Freeze (Don Giovanni, 29 de Março)
  • Fennesz, Agora (Touch, 29 de Março)

PLAYLIST DE MARÇO | SPOTIFY

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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