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MOTELX ’22 | Missing, em análise

De Shinzo Katayama, um realizador emergente no Japão, chega-nos uma auspiciosa segunda longa-metragem, apresentada no Serviço de Quarto da 16ª edição do MOTELX. “Missing” é um thriller criminal empolgante, que nos mantém na perpétua dúvida. Repleto de mudanças tonais abruptas e reviravoltas, roça por vezes o absurdo sem nunca perder o toque humano que nos permite a ligação às personagens. 

Extremo e por vezes quase incongruente, enternecedor e hilariante, capaz de fazer rir e chorar no intervalo de poucos minutos, assim é “Missing”, ouさがす (“Sagasu”), a primeira longa-metragem com distribuição comercial do japonês Shinzo Katayama depois do sucesso em festival da sua primeira incursão no formato, “Siblings of the Cape”.

O filme, que chegou inicialmente ao Busan International Film Festival para a sua primeira exibição mundial, é uma co-produção sul coreana, tendo o realizador viajado, há quase 15 anos, para a Coreia, onde foi assistente de realização de Bong Joon Ho, numa curta, e ainda no influente “Mother”, experiência que alegadamente foi fundamental para a sua “educação” e inspiração enquanto realizador.

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Aliás, na introdução deste filme em sala, no MOTELX, foi adiantada esta influência e inspiração de onde Katayama foi beber e a qual está de facto evidente em aspectos como as oscilações de tom significativas ou a sua crítica social aguçada. Todavia, fica a ressalva, Katayama não está (ainda) perto do nível do mestre de “Mother – Uma Força Única” ou “Parasitas” no que diz respeito à criação da tensão e pujança dramática.

“Missing” é um filme acerca de relações familiares, mas que explora uma temática cada vez mais recorrente no cinema japonês e que é sintomática do sinal dos tempos – um certo entorpecimento e sentimento de ruína eminente que atormenta a sociedade. “New Religion”, outra obra japonesa exibida nesta edição do MOTELX, na mesma secção, partilhava também deste sentimento, embora expresso através de mecanismos narrativos inteiramente díspares.

Aqui, depois da morte da sua mulher, Santoshi (Jirô Satô) mergulhou numa depressão, encontrando-se desmotivado e endividado. A sua filha, Kaede (Aoi Itô), que segura grande parte do primeiro e do terceiro ato com uma performance cativante como a cuidadora involuntária do pai, procura ao máximo, e com nítida dificuldade, mantê-lo afastado de perigo e sarilhos.

No Japão sombrio que nos é pintado, Santoshi comunica à sua filha que irá procurar  “Sem-Nome”, um assassino em série que tem vindo a atormentar várias províncias japonesas e que garantiu ter visto no comboio. Em causa encontra-se uma recompensa monetária de cerca de três milhões de ienes (à volta de 20 000 euros).

Inicialmente, Kaede descarta a afirmação do pai como brincadeira. Quando este desaparece na manhã seguinte, deixando a jovem estudante entregue a si mesma, Kaede não baixa os braços, mesmo perante a inação gritante das forças policiais, que se recusam a investigar devidamente o  desaparecimento do pai. Vasculha a cidade, espalha folhetos e acaba por finalmente descobrir que Satoshi Harada se encontra a trabalhar em obras locais.

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Ao invés de Satoshi, ao visitar a empreitada, Kaede encontra um jovem com olhar gélido e desconcertante a utilizar o nome do seu pai, que acaba por reconhecer como o sujeito “Sem-Nome” espalhado pelos cartazes em toda a cidade. Como destemida sobrevivente, Kaede decide iniciar ela própria um jogo de gato e rato de forma a conseguir descobrir o que possa ter acontecido ao seu pai.

O que se segue é uma narrativa de mistério sempre surpreendente, repleta de reviravoltas suportadas por cortes abruptos entre cenas, que permitem criar um artefacto cinematográfico capaz de nos enganar deliciosamente, apenas nos mostrando pequenas frações parcelares daquela que é a verdade.

Entre o humor negro, a crítica social e o thriller criminal, “Missing” explora, através da sua estrutura em três atos não lineares perfeitamente encadeados, alguns dos temas fraturantes da sociedade japonesa.

A história oscila no que diz respeito a narradores e pontos de vista, sem que tal pareça alguma vez forçado. Do ponto de vista emocional, o filme apresenta-nos uma “boa manipulação”, conseguindo desenvolver as suas personagens eficazmente, transmitindo razões fortes e válidas para a justificação dos seus comportamentos.

E por muito caricaturais que algumas revelações sejam, nunca se tornam absurdas. O real e o surreal andam de mão dada e a compaixão é uma arma clara neste argumento audaz, escrito a três mãos pelo realizador Shinzo Katayama  e ainda por Kazuhisa Kotera e Ryo Takada.

TRAILER| MISSING EXIBIU NA 16ª EDIÇÃO DO MOTELX

Missing, em análise
Missing Motelx Poster

Movie title: Missing

Movie description: Satoshi Harada e a sua filha, Kaede, levam uma vida pacífica num bairro da classe operária em Osaka. Satoshi diz a Kaede: "Eu vi o serial killer que é procurado pela polícia. Se eu o apanhasse, receberia uma recompensa de três milhões de ienes." Kaede encolhe os ombros. O pai está a brincar como sempre... Na manhã seguinte, ele desaparece. Deixada sozinha, a temerosa Kaede procura o pai.

Date published: 18 de September de 2022

Country: Coreia do Sul, Japão

Duration: 123'

Author: atayama Shinzo, Kotera Kazuhisa, Takada Ryo

Director(s): Shinzo Katayama

Actor(s): Aio Ito, Jiro Sato, Hiroya Shimizu

Genre: Thriller, Drama, Crime , Mistério, Terror

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  • Maggie Silva - 83
83

CONCLUSÃO

Imbuído de conhecimento adquirido depois de ter trabalhado na Coreia do Sul e com Bong Joon Ho, o realizador de “Missing” criou uma obra que alerta para malapatas societárias sem precisar de recorrer a realismos bafientos. Antes, cria um puzzle complexo, com muitas reviravoltas, onde o drama e o humor negro coexistem com surpreendente ligeireza.

Pros

  • A valorosa criação da figura do serial killer, cujos traços de personalidade e modus operandi se vêm perfeitamente justificados sem que o argumento precise de se tornar excessivamente justificativo;
  • O jovem Hiroya Shimizu na pele do sociopata e, em geral, todo o esforço do elenco;
  • Uma relação entre pai e filha fora da norma;
  • A denúncia de males societários por meio da metáfora;
  • A aliciante estrutura tripartida não linear que torna a realização mais ousada;
  • A belíssima e melancólica cena final na mesa de ping pong;

Cons

  • Uma certa natureza inverosímil que persiste num filme que parece nitidamente querer transmitir (pelo menos) algum vislumbre de realismo.
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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