Kaho Seto como Miyabi | ©MOTELX

MOTELX’ 22 | New Religion, em análise

Em 2022, o MOTELX apresentou, na sua Secção de Quarto, uma interessante seleção de novos autores japoneses que considera apresentarem grande potencial para carreiras meritórias (e nós concordamos). Os filmes exibidos neste âmbito foram “Extraneous Matter – Complete Edition”, “Missing” e ainda este “New Religion”, de Keishi Kondo. 

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“New Religion”, de Keishi Kondo, teve direito a exibição dupla na 16ª edição do MOTELX, a 7 e a 12 de setembro. Lamentavelmente, a primeira sessão, programada logo pelas 14h35, contou com pouca afluência, como a escolha horária deixaria avinhar. Assim, o novo talento de Keishi Kondo, presente no MOTELX ao longo de toda a semana graças ao apoio da Japan Foundation, não contou desde logo com uma receção numerosa. Não obstante, ambas as apresentações desta notável obra decorreram na sala Manoel de Oliveira, do Cinema São Jorge, e estamos confiantes de que a segunda exibição, mais tardia, fez jus à beleza desta obra de enorme sensibilidade.

O estreante realizador Kondo lança-se aqui no formato da longa-metragem, tendo apenas assinado no passado a curta “See You Again” (2020). É uma voz emergente no início da sua carreira, que em “New Religion” assume o papel do argumento e da realização. Previamente, o filme passou apenas pelo Frightfest, em Londres, onde teve estreia mundial no final de agosto. Ou seja, “New Religion” não é apenas o primeiro filme de Keishi Kondo, mas encontra-se também na fase inicial do seu circuito de festivais.

Por isso, não temos como não agradecer ao MOTELX por selecionar, para a seção “Serviço de Quarto”, esta narrativa que tanto nos surpreendeu pela positiva. “New Religion” é um tratado sobre luto que transmite um pesar imenso e uma mágoa existencial.

Motelx Serviço de Quarto 2022
©MOTELX

Com 100 minutos de duração, um estilo de realização audaz, extremamente dinâmico, que oscila entre o olhar da câmara sobre locais mundanos, como um beco ou uma discoteca, divagações oníricas que tomam lugar no próprio mundo dos sonhos ou ainda a estilização plena de um apartamento onde o tempo parece suspenso e onde o grotesco ganha proporções gigantes, o filme afirma-se, em primeiro plano, como um arthouse astuto e munido de muitas facetas.

Tal como salientado pelo seu realizador, “New Religion” situa-se também entre os reinos do drama, thriller psicológico, terror e ficção científica. Por vezes, existe uma oscilação gigante entre estes géneros, quase abrupta. O jogo de contrastes é surpreendentemente rico, subtil e enriquecedor para quem descobre esta narrativa repleta de tensão.

No filme, acompanhamos a história de Miyabi, desempenhada com mestria por Kaho Seto. Depois da morte trágica da sua filha, Miyabi divorcia-se e começa a trabalhar como call girl. A jovem mulher enlutada faz de tudo para conseguir ultrapassar esta perda gigante, mas a felicidade continua a parecer uma miragem, apesar de ter um novo namorado e procurar desesperadamente seguir em frente. Miyabi continua a procurar, nos recantos do seu apartamento, e mais especificamente na sua varanda, de forma incessante, a filha. Contudo, laivos de feliz mundanidade são localizáveis na sua vida, os quais fazem apenas antever um desfecho trágico e a inviabilidade do mesmo. Talvez por isso sejam ainda mais ricos, elevados, breves.

“New Religion” é um daqueles filmes que se encontra repleto, desde o início, de um clima que abunda a presságio de morte. A tensão é construída com a máxima perícia, mesmo antes de chegarmos ao acontecimento pivotal do argumento. Este acontece quando Miyabi conhece um novo cliente chamado Oka (interpretado por Satoshi Oka), um homem invulgar, que de imediato nos provoca um calafrio na espinha e que começa a pedir a Miyabi para tirar fotografias da sua espinha dorsal.

New Religion 16ª Motelx
Kaho Seto como Miyabi | ©MOTELX

Uma vez que Oka é instrumental para compreender o que aconteceu a uma colega prostituta de Miyabi, que recentemente começou a perpetuar crimes de terrorismo inexplicáveis, Miyabi acede a ser fotografada. Nos seus encontros seguintes, Oka vai fotografando várias partes do corpo da jovem – os seus pés, pernas, todo o seu corpo. O rosto permanece fora de limites ( o último estágio desta “nova religião” é a captação do olhar) mas, à medida que Oka tira as suas fotos, Miyabi apercebe-se de que o espírito da sua filha fica mais próximo de si. De cada vez que a sua imagem é captada pela máquina analógica deste inusitado sujeito, o véu entre o reino dos vivos e dos mortos parece estreitar.

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Keishi Kondo brinca com um conceito antiquíssimo, o de que a fotografia tem o poder de captar um pedaço da alma humana. Foi Honoré de Balzac, o afamado escritor francês, que defendeu, no século XIX, de que o “eu” era formado por uma série quase infinita de camadas espectrais sobrepostas. Ora, cada vez que um daguerreótipo [primeiro equipamento fotográfico fabricado em escala] era tirado, uma dessas camadas da alma era retirada. Esta deixaria de fazer parte da própria vida, integrando antes uma membrana de memória numa espécie de “anti-mundo”.

Em “New Religion” constrói-se uma mitologia rica em torno do colapso societário, na qual a metáfora para a angústia societária da época contemporânea é traduzida através de uma ligação fantástica ao corpo e à imagem fotográfica analógica.

A obra vê-se também ocupada por vários espaços essenciais que se regem por códigos de regras distintos: o apartamento de Miyabi, espaço de esperança, sonho e também de desalento e de assombração; a cave no negócio de prostituição, local de acentuada crítica social e denúncia das malapatas emocionais que assolam as personagens, onde a intermitente falha das luzes e a escuridão convidam à psicose ; o mar, onde se estabelece uma separação difusa entre dicotomias como vida e morte, materialidade e imaterialidade; e ainda o apartamento fantasmagórico de Oka, onde a mistura de som excelente e perturbadora e o filtro vermelho que tudo consome nos transportam, de forma mais clara, para o reino da ficção científica, do terror, do grotesco, do body horror até.

Oka Satoshi Oka
Satoshi Oka como Oka |©MOTELX

O espaço de Oka é onde o verdadeiro horror vive, onde o desespero ganha uma nova forma, uma nova metamorfose e embora nunca esta fábula de terror levante completamente o véu e nunca clarifique as suas motivações de um modo inequívoco, o mistério que permanece alimenta uma pluralidade de significados.

Acima de tudo, a inquietação reina em “New Religion”, uma das propostas mais corajosas e inovadoras desta 16ª edição do MOTELX. Por agora, este filme vive ainda no circuito de festival, numa fase embrionária. Esperemos, sem dúvida, que encontre um percurso de distribuição em sala. Bem o merece.

TRAILER | NEW RELIGION NO SERVIÇO DE QUARTO DO MOTELX EM 2022

New Religion, em análise
New Religion MOTELX

Movie title: New Religion

Movie description: Após a morte da sua única filha num acidente, Miyabi divorcia-se, começa a trabalhar como prostituta e vai viver com um namorado novo. Num encontro com um cliente, este pede-lhe para lhe tirar fotografias de partes do seu corpo – primeiro da coluna, depois dos seus pés e, a partir de então, fotografa-a cada encontro. Um dia, enquanto Miyabi está em casa, sente uma pequena mão a acarinhar a sua perna. Intui, então, que é a sua filha morta que a acaricia e apercebe-se que, em cada parte do corpo fotografada, consegue sentir a presença do espírito da sua filha. A única parte do corpo que ele não captura são os olhos, que desencadeia o desfecho desta singular fantasia art-house, realizada por uma inquietante voz japonesa, Keishi Kondo, que se estreou no último Fright Fest.

Date published: 15 de September de 2022

Country: Japão

Duration: 100'

Author: Keishi Kondo

Director(s): Keishi Kondo

Actor(s): Kaho Seto, Satoshi Oka, Ryuseigun Saionji, Daiki Nunami

Genre: Terror, Drama, Sci-fi, Fantasia

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  • Maggie Silva - 88
  • Cláudio Alves - 80
84

CONCLUSÃO

Em “New Religion”, Keishi Kondo prova ser uma nova voz empolgante do terror japonês, num filme que ele próprio realiza, escreve, produz, edita e ajuda a distribuir. Esta sua estreia no formato da longa deixa-nos com a nítida impressão de que será, daqui a uns anos, um nome reconhecível. A sua história pede emprestados alguns lugares-comuns dos géneros que explora, mas o produto final é surpreendente, rico e fascinante, dispensando o uso de jump scares ou outras artimanhas. O terror, esse faz-se através da intensidade com que nos ligamos à humanidade das personagens e à criação de um véu fino e imperceptível entre o mundo dos sonhos e o mundo real.

Pros

“New Religion” é o tipo de obra ambiciosa capaz de inundar quem vê de expectativa, temor, compaixão e de uma melancolia palpável. Kondo escreve e realiza um tratado sobre luto (com um climax tenebroso) que utiliza o terror como a melhor e mais eficaz das metáforas, antídoto para o esquecimento.

Para além do trabalho sobre a temática central, e do casamento corajoso entre vários géneros, o filme prima também por uma fotografia audaz, que associa na perfeição o analógico ao digital.

Da luz no apartamento de Oka, passando pela sua sonoplastia, e tudo o que de mais se passa lá dentro, “New Religion” deixa-nos perpetuamente na expectativa.

Cons

Keishi Kondo criou um discurso cinematográfico arrojado, distinto e único. Todavia, as motivações da sua figura monstruosa, Oka, não deixam de se apresentar como algo difusas. A ambiguidade é intencional, tal como fica claro na nota do realizador [inserida num invulgarmente belíssimo press kit, que deixa o cuidado da equipa e o amor colocado no projeto bem evidentes], na qual defende o filme como uma metáfora para a crise de valores na sociedade japonesa, defendendo também que, ao invés de tornar explícito o intuito da obra através dos diálogos, esta intencionalidade ficaria sujeita à sensibilidade de cada pessoa que interage com “New Religion”.

Não é uma má solução, mas é sem dúvida uma que não agradará a todo e qualquer espectador.

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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