©MOTELX/ Blue Finch Films

MOTELX’ 22 | Please, Baby, Please!, em análise

“Please, Baby, Please!” é, pela sua estética camp ousada e colorida, bem como pela sua provocatória construção narrativa e questões colocadas, uma opção audaz neste “Serviço de Quarto” do 16º MOTELX. Mas, situado menos no campo do terror ou do fantástico e mais no do absurdo, o filme nunca consegue ser mais do que uma mera homenagem aos grandes clássicos LGBTQIA+. 

Co-escrito e também realizado pela compositora, música, produtora e realizadora Amanda Kramer, “Please, Baby, Please!” é um tratado sobre questões de género e sexualidade que é menos uma longa-metragem coesa e mais uma sequência de momentos fragmentados que juntos se apresentam como um super-camp altamente estilizado e suportado por uma Andrea Riseborough cintilante (atriz que já passou pelo MOTELX, numa edição anterior, para apresentar o filme “Mandy”) .

“Please, Baby, Please!” é também ligeiramente um musical. Antes, tem certos momentos musicais espalhados pelo filme, nomeadamente no seu arranque e no seu fim, os quais não suportam de forma alguma o avanço da narrativa e que acabam por não ter uma relevância preponderante. E, por isso, talvez não lhe possamos bem chamar um musical, mas antes um filme musicado com classe e com algumas sequências dançáveis e dançadas de qualidade.

A longa-metragem acompanha a vida do casal Suze (Andrea Riseborough) e Arthur (Harry Melling, o Dudley da saga “Harry Potter”), casados e com uma existência boémia, a viver no Lower East Side. Ele toca o clarinete profissionalmente (embora diga, vez após vez, que o seu clarinete está partido, numa piada sexual não muito refinada e que é repetida ad nauseam) e ela é uma dona de casa repleta de classe. A sua vida passa-se entre tertúlias literárias e declamações de poesia, jantares com amigos e discussões profundas sobre o que é a feminidade ou masculinidade. Parece-nos que, pela decoração exuberante dos sets, nos encontramos nos anos 50. Verdade seja dita, o filme é tão excessivo que não parece pertencer a tempo algum, para o bem e para o mal.

Abertura de Please, Baby, Please!
A sequência inicial, absurdamente cómica de “Please, Baby, Please!” |© MOTELX/ Blue Finch Films

Mas enfim, Suze e Arthur lá vão na sua vida rotineira até ao momento em que, durante um passeio ao luar, testemunham um homicídio perpetuado por um gangue de Teddy Boys que dá pelo nome de Young Gents. A partir deste (des)encontro, o casal começa a colocar questões incómodas, acerca de si mesmos, acerca da sua identidade, acerca do mundo que os rodeia e dos papéis de género que se forçam a ocupar. Algumas das reflexões colocadas pelo filme são interessantes, outras são mero lugar-comum mastigado e demasiado repetido e, algures, entre cenas mais ou menos bem-conseguidas, lá se vai extraindo algum significado da enorme salada russa que é “Please, Baby, Please!”.

Tanto o casal como os Young Gents desenvolvem uma fascinação mútua por este “outro”. O casal quer ser mais arrojado e os Young Gents fascinam-se com a farsa que Suze e Arthur parecem viver, não fosse a sua existência como gangue suportada pela constante aceitação e promoção dos seus instintos mais básicos e animalescos. Os Gents são toscos e pouco credíveis, mas esta representação coaduna-se com a própria estrutura intencionalmente inverosímil do filme de Amanda Kramer. Acima de tudo, são provocatórios, do ponto de vista racional e sexual – e é essa a sua função mais relevante.

Karl Glusman no filme de Amanda Kramer
Karl Glusman dá vida ao deslumbrante e erótico Teddy, um Young Gent |© MOTELX/ Blue Finch Films

Suze e Arthur estão presos a padrões convencionais e é fascinante ver como se libertam dos mesmos ao longo da duração desta narrativa, culminando num delicioso split screen final que nos leva a uma resolução satisfatória. Outro ponto favorável do filme é a presença de Demi Moore na pele de uma mulher algo “convencional”, que usa os homens a seu proveito. Apesar de curiosa e engraçada, a sua personagem não encaixa a 100% no espírito transmitido pelo filme (e a retribuição não hesitará a fazer-se sentir).

Nos interstícios, há cenas absurdas e surpreendentes que nos fazem rir e, muito ocasionalmente, tremer. O que falta é, num filme tão dado à reflexão, instantes nos quais sejamos capazes de questionar o mundo que nos rodeia. “Please, Baby, Please!” é inquisitivo q.b. e não nos enche as medidas nesse campo. Algumas cenas ficarão gravadas nas nossas mentes, é certo. Todavia, a amálgama de situações da longa-metragem não totaliza uma obra com pés e cabeça. Sente-se uma palpável vontade de prestar homenagem, sem de facto criar sentido.

TRAILER | PLEASE, BABY, PLEASE! NO MOTELX’22

Please, Baby, Please!, em análise
please baby poster motelx

Movie title: Please, Baby, Please!

Movie description: Os recém-casados Suze e Arthur são os boémios ideais do Lower East Side, em Manhattan: ele é clarinetista profissional, ela é uma dona de casa estilosa. Durante um passeio nocturno, testemunham um homicídio pelas mãos de um gangue de teddy boys, os Young Gents. Este encontro desperta no casal emoções inesperadas e acende neles uma chama escondida.

Date published: 15 de September de 2022

Country: EUA

Duration: 95'

Director(s): Amanda Kramer

Actor(s): Andrea Riseborough, Harry Melling, Demi Moore

Genre: Drama, Musical, Terror

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  • Maggie Silva - 69
69

CONCLUSÃO

“Please, Baby, Please!” esforça-se sobejamente para ser inovador, distinto, ultrajante. Na vasta maioria dos seus 95 minutos, é absurdo, desconexo e até um pouco longo (por repetir várias vezes e sem muita subtileza as mesmas ideias, não obstante a validade de algumas delas). Redime-se por ser genuinamente livre, divertido e provocador.

Pros

  • Andrea Riseborough como um mulherão capaz de assumir vários papéis de género;
  • A estética geral da longa e, em particular, a sensualidade que consegue transmitir;
  • A sequência final e o próprio desfecho;
  • Alguns momentos com timing cómico verdadeiramente bem conseguidos;
  • Uma representação caricatural das consequências da repressão;
  • O caráter livre e experimental desta cápsula de absurdo.

Cons

  • Um discurso interessante e provocador, mas que se extingue em si mesmo através da repetição constante que leva à frustração de quem assiste – a pseudo filosofia é evidente;
  • A plasticidade de uma homenagem camp que se torna algo anacrónica;
  • Uma dicotomia entre o que é “masculino” e o que é “feminino” e que, mesmo no seio da paródia, acaba por não ser benéfica para a própria discussão. O filme parece acentuar, inadvertidamente, certos binómios.
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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