"Raquel 1:1" | © MOTELX

MOTELX’ 22 | Raquel 1:1, em análise

Na sua segunda longa-metragem, a realizadora Mariana Bastos considera o poder opressivo da igreja no Brasil dos nossos dias. “Raquel 1:1” é um exemplo de terror feminista com traços revolucionários, aspetos do realismo mágico sul-americano e reminiscências de “Carrie.” O filme teve a sua estreia mundial no festival South by Southwest nos EUA e chegou a Portugal pelo MOTELX, onde integrou a programação Serviço de Quarto.

Uma das consequências mais curiosas que vêm com o visionamento de filmes em contexto festivaleiro, é o modo como, a certa altura, ficamos com a impressão que as obras dialogam entre si. Na 16ª edição do MOTELX, as origens do terror são examinadas por numerosos trabalhos, sendo que uma das observações mais cortantes emerge através da sobreposição de títulos como “Zalava,” “Nightsiren” e este “Raquel 1:1.” Transversal aos três filmes encontra-se uma ideia chave – que o pesadelo a que chamamos terror origina da incompreensão e do preconceito.

raquel 1:1 critica motelx
© MOTELX

Por exemplo, no paradigma do folclore, histórias de bruxaria são o modo como uma cultura misógina articula as ansiedades face à liberação feminina. Tais conclusões não são nenhuma novidade, mas é sempre interessante ver quanto a seleção do festival traça ligações concetuais entre a sua constelação de cinema. Na mesma medida em que “Nightsiren” examina este fenómeno no contexto da Europa de Leste e igrejas ortodoxas, “Zalava” olha sobre um passado iraniano entre o Islão e o paganismo, e “Raquel 1:1” considera os mesmos raciocínios num conto passado no Brasil contemporâneo marcado pelos fundamentalismos cristãos das igrejas evangélicas.

A história segue a Raquel do título, uma adolescente que regressa com o pai à pequena cidade onde ele nasceu. O par faz esta mudança na esperança de novos inícios, recuperando de traumas que se tornam evidentes mais tarde, através da memória sonoplástica que rompe para dentro do presente. Como modo de confrontar a perda, a jovem virou-se para a religião e tem vindo a definir muita da sua identidade através da fé. De facto, uma das primeiras coisas que faz depois da chegada é ir em busca da comunidade evangélica local. Num abrir e piscar de olhos, Raquel entra num grupo de adolescentes focadas no estudo bíblico e na moralidade cristã.

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Só que essa harmonia inicial é mera ilusão, uma fragilidade que se estilhaça com a mínima pressão. Acontece que, certo dia, Raquel sofre uma experiência estranha no meio da natureza e, quando se encontra com as novas amigas, começa a questionar a leitura literal da Bíblia. Nomeadamente, a jovem questiona os muitos exemplos de sexismo no texto e a viabilidade dele na sua presente forma. Afinal, se a Bíblia já foi traduzida e readaptada múltiplas vezes, não será altura de nova revisão? Aos olhos da filha da pastora, tais palavras são heresia, mas outras colegas concordam com Raquel, formando uma fratura na comunidade.

O lugar da dúvida na fé é um problema há muito discutido em círculos teológicos, pelo que a proposta narrativa de “Raquel 1:1” não nos parece em nada descabida. Contudo, a reação vil face ao pensamento crítico também não surpreende. Bastos constrói um círculo vicioso de forças sociais fechando-se em torno da heroína cujos revisionismos bíblicos são blasfémia para alguns, profetismo para outros. Dito isso, a câmara pouco se deixa levar pela ambiguidade, enquadrando Raquel como figura misteriosa cuja prática da fé é mais genuína que o conformismo vulgar. Daí devém a tragédia, o modo como quem questiona o status quo é esmagado e castigado pelo crime da reflexão.

raquel 1:1 critica motelx
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No entanto, como é evidenciado pela programação do filme no MOTELX, “Raquel 1:1” trabalha dentro dos mecanismos de género típicos do terror. A subjetividade da protagonista é um pesadelo de contradições sinuosas, sons e imagens colidindo no que pode ser loucura, possessão, ou simplesmente a dor da perda. O formalismo assim delineia forças antagónicas dentro de um discurso interno cuja lógica se prova inconsistente – ora vendo Raquel de dentro para fora ou examinando-a segundo o preconceito generalizado daqueles que a temem. O ódio é o inimigo nesta narrativa, mas a ordem moral não far-se-á de preto-e-branco ou em escalas de cinza?

Além disso, há que dizer quanto o filme funcionaria melhor se não se rendesse tanto ao sobrenatural chegados os seus atos finais. O sentimento de justiça cósmica dá satisfação ao espetador, mas complica os argumentos sociais apontados anteriormente. Em salvaguarda, a figura de Raquel que Mariana Bastos e sua atriz principal, Valentina Herszage, criaram é forte o suficiente para sustentar os devaneios mais insólitos da fita. O apelo final ao “Carrie” de Stephen King e Brian de Palma funciona principalmente devido à cumplicidade criada entre a audiência e esta estranha heroína. Trata-se de um elo emocional que sobrevive às chamas e ao tableau conclusivo em modos de ressurreição maneirista.

Raquel 1:1, em análise

Movie title: Raquel 1:1

Date published: 15 de September de 2022

Director(s): Mariana Bastos

Actor(s): Valentina Herszage, Priscila Bitterncourt, Ravel Andrade, Emílio de Mello, Eduarda Samara

Genre: Thriller, 2022, 90 min

  • Cláudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO:

“Raquel 1:1” explora o terror enquanto manifestação das ansiedades de uma sociedade conservadora face a ideias progressistas, face ao feminismo de raparigas para as quais a fé não significa obediência cega. Mariana Bastos é uma realizadora promissora e a jovem Valentina Herszage tem uma presença intensa que nos deixa curiosos. O elenco todo é exímio, verdade seja dita, assim como as imagens coloridas que Fernanda Tanaka captura enquanto diretora de fotografia.

O MELHOR: As cenas de estudo bíblico através do feminismo das adolescentes modernas. A química entre as atrizes juvenis é fantástica e os interlúdios são como momentos de idílio entre a crueldade abjeta da comunidade religiosa. Também louvamos o trabalho de Emílio de Mello como o pai de Raquel, quiçá o papel mais seguramente multidimensional do filme e seu melhor desempenho também.

O PIOR: Os flashbacks sonoros tornam-se demasiado insistentes, puxando pela simpatia em jeito tão recorrente que se torna redundante.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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