"Polaris", no Serviço de Quarto do ©MOTELX

MOTELX ’22 | Polaris, em análise

“Polaris” (2022) , a segunda longa-metragem realizada pela canadiana Kirsten Carthew, chegou ao 16º MOTELX para uma sessão única incluída na secção Serviço de Quarto. Sem diálogos, pelo menos compreensíveis, e com uma paisagem gélida pós-apocalíptica, este filme prometia uma experiência cinematográfica ambiciosa e rica. Esgotou-se na sua incapacidade de criação de um universo particular, detalhado e verosímil. 

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A narrativa de “Polaris” desenrola-se no ano futuro de 2144 e o seu pano de fundo é um mundo pós-apocalítico onde muito pouco sobrou. Quase nada restou da humanidade e encontramo-nos numa paisagem deslumbrante mas austera de deserto subárctico. Agora, é inverno para sempre, uma gosma verde tóxica corre no sangue de todos os animais selvagens e, por alguma razão nunca justificada, apenas mulheres restam. Como a realizadora Kristen Carthew garante, todas as personagens da narrativa são femininas: das humanas às animais. De forma frustrante, nunca compreendemos o porquê de apenas o género feminino ter resistido ao final dos tempos. E é logo aqui que a mitologia começa a falhar.

No último ano, o MOTELX havia apresentado, também na secção Serviço de Quarto, “After Blue”, outra distopia ambiental feminista, onde também apenas mulheres haviam resistido à destruição da terra por mão humana, mas uma em que cada momento delicioso fora justificado de acordo com uma premissa inicial rica. Quem nos dera estar a assistir a um filme como esse.

Voltando a “Polaris”, como em qualquer narrativa distópica do género, poucas são as habitantes desta vasta terra de ninguém, onde os recursos são escassos e a brutalidade elevada. Algumas mulheres organizam-se em facções de saqueadoras, ou “morads”, que se unem para brutalmente pilhar, caçar, matar e manter alguma ilusão de vida em comunidade. Viver fora destas comunidades organizadas representa um risco imenso e é necessária uma aptidão extraordinária para garantir a sobrevivência.

É neste cenário que conhecemos Sumi, a tenaz protagonista da história. Sumi (Viva Lee) é uma criança humana que foi criada por uma ursa polar (estranhamente gordinha mesmo neste desolador cenário de tóxicos pós-finais dos tempos). Sumi e a sua mãe-ursa passam os dias a rebolar alegremente na neve e a sua vida é guiada por uma ligação mística ao meio natural.

A nossa jovem e feroz protagonista guia-se pela sua luz condutora, a estrela Polaris, que lhe confere também poderes mágicos de cicatrização extra-humanos, entre outros. Tal torna “Polaris” não apenas numa narrativa de ficção científica, mas também numa que opera nos reinos da fantasia. Pode também dizer-se, sem dúvida, que é um filme de mistério, quiçá um thriller e, sem dúvida nenhuma, trata-se também de um filme de ação.

Resumidamente, acontecem aqui demasiadas coisas. Carthew cria uma narrativa que gira em torno da figura de uma lenda e de uma espécie de messias da natureza prometida e, nos últimos minutos da história, de facto cumpre com essa proposta. Todavia, a forma como a sua mensagem de indie sci-fi ecológico é transmitida peca pela falta de subtileza, pela sua estética pirosa (sem ser sequer kitsch), dominada por feixes de luz rosas e por um trabalho de efeitos especiais com muita falta de gosto.

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“Polaris” tem as suas qualidades redentoras, como por exemplo a prestação irrepreensível de Viva Lee (que lhe valeu, recentemente, o prémio de Melhor Atriz no novo Sydney Science Fiction Film Festival, onde a narrativa levou também o Prémio do Público). A atriz está presente durante quase toda a duração do filme e nunca deixa de transmitir um nível de emoção e destreza física notáveis para uma jovem intérprete. Além disso, desempenha grande parte das cenas de ação mais físicas. 

Já se esquecermos os desastrosos efeitos especiais, a idealização de um mundo gélido pós-apocalítico tem certos méritos, especialmente do ponto de vista visual e da fotografia. Esta é uma paisagem que consegue ser, em simultâneo, fantasiosa, sóbria e surreal. Acima de tudo é uma paisagem que, embora perigosa, se afirma como bela.

Todavia, a apresentação do filme no MOTELX introduziu a obra como um “Mad Max do Ártico”. Ora, tal é francamente um desfavor para com George Miller e até para com as expetativas de quem assiste à longa-metragem. “Polaris” não é nenhum “Mad Max”. Falta-lhe intencionalidade, falta-lhe personagens bem construídas, falta-lhe a edificação de um universo específico e detalhado, falta-lhe também um trabalho verdadeiramente empolgante no campo da ação, capaz de criar um frenesim em quem vê.

Aqui temos antes uma sucessão de cenas de ação que depressa se tornam maçadoras, as quais são intercaladas por alguns momentos de genuína beleza relacional entre seres humanos e pessoas e animais. Sumi interage com a sua mãe-ursa, com uma cadela caridosa, com uma senhora idosa que lhe ensina coisas preciosas ou com uma rapariga jovem que encontra congelada e procura salvar. Há mistério e há emoção em “Polaris”, mas as pontas nunca se atam como gostaríamos e a indeterminação reina e envenena.

Os esforços ambientalistas da narrativa de “Polaris” são belos e notáveis. Todavia, o cinema não se faz só de intenções e, como cinema, “Polaris” vive no reino da imperfeição.

O filme exibiu na 16ª edição do MOTELX, no dia 7 de setembro de 2022, em conjunto com a curta-metragem sueca “Phlegm”, uma interessantíssima visão do mundo laboral que, em apenas seis minutos, acabou por conseguir dizer mais do que “Polaris”. A longa de Kristen Carthew exibiu em sessão única; já “Phlegm” contou com segunda data a 11 de setembro, pelas 13h00, na Sala 3 do Cinema São Jorge. 

Polaris, em análise
Poster MOTELX'22 serviço de quarto

Movie title: Polaris

Movie description: Situado no ano de 2101, tendo como pano de fundo um deserto subárctico, Sumi, uma criança humana criada por uma ursa polar, escapa por pouco da captura de um brutal grupo de caça Morad, e foge pela vasta paisagem de Inverno. Quando Sumi se depara com uma rapariga congelada, uma amizade improvável é forjada.

Date published: 11 de September de 2022

Country: Canadá

Duration: 88'

Author: Kirsten Carthew

Director(s): Kirsten Carthew

Actor(s): Viva Lee, Muriel Dutil, Khamisa Wilsher

Genre: Ficção Científica, Fantástico, Ação

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  • Maggie Silva - 55
55

CONCLUSÃO

“Polaris” é uma aventura de ficção científica com um forte cunho ecológico e que, não obstante a sua feroz mensagem e a tenacidade da sua protagonista, nunca deixa de se apresentar como uma proposta não finalizada.

Pros

  • As belíssimas paisagens naturais;
  • A humanidade das interações entre as suas personagens centrais, que vamos vislumbrando entre cenas de ação mais ou menos bem executadas;
  • A premissa inicial;
  • A opção de tornar a narrativa livre de uma língua do tempo atual, aspirando à sua universalidade;

Cons

  • Uma fotografia e efeitos especiais que optam por toques delicodoces que enfraquecem o enredo;
  • A excessiva ambição, com inúmeros elementos a confluírem para uma pouco satisfatória resolução. A história não precisava dos seus (excessivos) elementos fantásticos e poderia ter explorado o ambiente criado de forma mais detalhada;
  • Um desenlace demasiado sentimentalista, embora concordante com a premissa;
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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