Mustang, mini-crítica

 

Estreado na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2015, ‘Mustang’ e um drama sobre cinco raparigas que lutam pela sua liberdade, num trágico confronto entre a tradição e o presente na Turquia da actualidade.

 

FICHA TÉCNICA

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Título Original: Mustang
Realizador: Deniz Gamze Ergüven
ElencoGünes Nezihe, Sensoy, Doga Zeynep Doguslu, Elit Iscan
Género: Drama
Outsider | 2015 | 97 min[starreviewmulti id=18 tpl=20 style=’oxygen_gif’ average_stars=’oxygen_gif’] 

 

A primeira obra da realizadora Deniz Gamze Ergüven, de origem turca, radicada em   França, têm pelo menos o mérito de ter feito uma carreira de prémios europeus notável (Lux do Parlamento Europeu, EFA Revelação), em 2015, para além das surpreendentes nomeações ao Óscar e Globos de Ouro de Filme em Língua Estrangeira em Hollywood 2016. Mustang é um filme que tem qualquer coisa de trágico e catártico, para a jovem realizadora, que apesar de viver fora do seu país, agita a bandeira da defesa dos valores da liberdade e direitos das mulheres, numa sociedade retrógrada e de grandes contrastes como é ainda a Turquia na actualidade.

Vê trailer de Mustang  

No entanto Mustang é um filme que defende valores universais, faz lembrar muitas histórias de mulheres, mas sobretudo As Virgens Suicidas, de Sofia Coppola (1999), um filme em que as protagonistas são precisamente cinco irmãs, num drama em que assistimos à decomposição das relações familiares na classe média americana da década de 70. Na Turquia os valores machistas e por influência e proximidade da cultura europeia pouco a pouco parecem começar igualmente a decompor-se, para bem das mulheres. E talvez seja este o grande ponto forte do filme.

As cinco raparigas raramente saem de casa.
As cinco raparigas raramente saem de casa.

‘…vamos assistir a casamentos combinados, abusos sexuais, e suicidio numa casa que mais parece uma prisão.’

Mustang conta a história de cinco raparigas adolescentes que perderam os pais e são criadas pela avó numa pequena aldeia da Turquía rural. Depois de uma brincadeira inocente com os seus colegas de escola na praia e no final do ano lectivo com as férias de verão à porta, são acusadas de indecentes, e encerradas em casa, obrigadas a comportarem-se segundo a tradição machista e repressiva da sociedade turca. Neste contexto vamos assistir a casamentos combinados, abusos sexuais, e suicidio numa casa que mais parece uma prisão.

Mustang
Belos planos em contra-luz.

O filme efectivamente procura retratar os problemas que enfrentam as raparigas adolescentes das sociedades marcadas não só pelo machismo, mas igualmente por alguns dogmas do islamismo, relativamente às mulheres. No entanto, há qualquer coisa de contraditório em Mustang quanto à forma e à linguagem visual: a realizadora Deniz Gamze Ergüven, parece às vezes que está a filmar um spot publicitário de roupa interior feminina (lingerie), sexualizando a despropósito as miúdas na sua intimidade dos quartos e do verão, colocando-as em posições e planos de contra-luz (parecem as fotografias de David Hamilton), que em vez de reforçarem o drama da ausência de liberdade, acentuam antes uma certa sensualidade e indecência, da qual foram acusadas no início do filme. Não há mal nenhum em mostrar as hormonas aos pulos e os corpos das jovens e belas adolescentes turcas, mas em Mustang resulta incómodo e até de uma flagrante contradição.

Mustang
Um história familiar e trágica.

‘…é uma história familiar que tem qualquer coisa de autobiográfico, senão de facto não seria necessário para a contar e levantar as questões expostas…’

Há ainda outra questão contraditória que diz respeito à construção narrativa, num momento em que as miúdas escapam de camioneta para assistir a um jogo de futebol em Istambul (que fica há mais de 1000 Km do local onde estão) e parecem regressar no mesmo dia sem que dêem por falta delas. O futebol na Turquia é de facto muito apreciado pelas mulheres sobretudo como uma forma de afirmação em relação aos homens. De facto Mustang, é uma história familiar que tem qualquer coisa de autobiográfico, senão de facto não seria necessário para a contar e levantar as questões expostas, ter cinco protagonistas, todas muito semelhantes, bonitas mas quase indistinguiveis, à excepção da mais nova. Teria sido melhor a realizadora ter trabalhado mais a singularidade de cada uma e a profundidade dos problemas abordados: os casamentos combinados, abusos sexuais, entre outros.

Mustang

Mustang não é um grande filme, mas é belo, não deixa de ser comovente, e sobretudo uma obra cheia de boas intenções, pode decerto agradar ao grande público (mesmo falado em turco), de acordo com os valores eurocentristas, e surpreende pela sua notável carreira internacional. Para um filme contraditório, nada melhor que uma análise um pouco contraditória.

O MELHOR: É um filme bem intencionado, fácil de ver, apesar das complexas questões abordadas;

O PIOR: A banalização e a ligeireza com que são tratadas essas mesmas complexas questões.

 

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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