“My Way-História de Uma Canção": Sinatra, Paul Anka, clássico universal. ©Zero em Comportamento/Projetos Paralelos/Divulgação

“My Way”: da piscina de Claude François ao altar laico de Alvalade

O documentário “My Way — A História de uma Canção” mostra que o hino mais americano do século XX nasceu em França, mudou de pele com Sinatra, Nina Simone e Sid Vicious, e acabou até a ecoar no Estádio de Alvalade em Lisboa, onde a pop se transforma em fé clubística.

Determinadas revelações podem não mudar a História, mas às vezes abanam a mobília emocional de uma pessoa. Esta é uma delas: “My Way”, a canção mais americana do mundo, esse monumento em smoking ao ego, ao balanço de vida e à ilusão simpática de que um homem pode olhar para trás, enumerar as asneiras todas e ainda sair de cena com classe, nasceu em França. Não em Nova Iorque. Não em Las Vegas. Não num bar cheio de whisky, fumo e homens de chapéu a falarem de negócios sujos entre refrões. Nasceu em 1967 como “Comme d’habitude”, com música de Jacques Revaux, com letra e cantada pela estrela da pop francesa na altura Claude François; e o documentário “My Way — A História de uma Canção”, de Thierry Teston e Lisa Azuelos, faz desta ironia um festim delicioso. O filme estreou em Portugal a 23 de abril, foi apresentado no Festival de Cannes 2024 e arrecadou o Prémio SACEM de Melhor Documentário Musical. 

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A canção que toda a gente julgava conhecer

O grande trunfo do documentário está em partir de uma presunção colectiva muito moderna: a ideia de que já sabemos tudo porque reconhecemos o título. “My Way”? Claro, Sinatra, Paul Anka, clássico universal, karaoke de casamentos, funerais, crooners cansados, tios emocionados ao jantar de Natal. E no entanto não. O filme mostra que por detrás desta canção há uma novela transatlântica com mais voltas do que muita série de prestígio: a melodia nasce em França, Paul Anka ouve-a, compra os direitos de adaptação, escreve-lhe uma letra nova em inglês e Frank Sinatra transforma-a em mito global. A partir daí, deixa de ser apenas uma canção para passar a ser uma espécie de passaporte emocional do século XX. 

My Way
Frank Sinatra transforma “My Way” em mito global. ©Zero em Comportamento/Projetos Paralelos/Divulgação

O mais engraçado, e também o mais inteligente, é que Thierry Teston não esconde que começou desconfiado da ideia. Na sua nota de intenções, admite mesmo que não ficou imediatamente convencido de que uma única canção pudesse sustentar um filme. Achava, como quase toda a gente, que a história estava arrumada: um êxito de Sinatra, regravado até à exaustão, mais famoso do que misterioso. Só que à medida que investigou percebeu que “My Way” era, nas suas palavras, “uma história dentro da História”, cheia de repercussões musicais, sociológicas e políticas. É aqui que o documentário deixa de ser apenas divertido e passa a ser realmente muito bom e grande cinema: percebe que uma canção pode funcionar como uma pequena autobiografia do Ocidente, ou pelo menos da sua vaidade. 

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De macho em pose a manifesto, paródia e arma simbólica

Sinatra pegou em “My Way” e vestiu-a de império. Fez dela um tuxedo sonoro, uma despedida altiva, um ajuste de contas com a própria biografia em tom de homem que errou muito, mas errou com convicção. O problema, claro, é que “fiz tudo à minha maneira” é uma frase muito bonita até começarmos a aplicá-la a demasiada gente. O documentário diverte-se justamente com essa ambiguidade: a canção é grandiosa, mas também um bocadinho ridícula; é comovente, mas também profundamente narcísica; é universal, mas parece ter sido inventada para alimentar egos com lustro. 

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VÊ TRAILER DE “MY WAY: HISTÓRIA DE UMA CANÇÃO”

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Depois entram os outros e estragam — felizmente — a ordem da casa. Nina Simone toma conta dela e aquilo que era um balanço viril passa a soar a manifesto de uma mulher negra na América dos anos 70. Sid Vicious aparece e faz de “My Way” uma provocação punk, uma cuspidela estilizada no bom gosto e no consenso. Nina Hagen leva-a para o imaginário da reunificação alemã. O filme lembra ainda que a canção continuou a ser usada em contextos cada vez mais improváveis, do espectáculo pop ao kitsch político, mostrando que a mesma letra pode servir causas, egos, máscaras e delírios radicalmente opostos. Essa é talvez a sua força e também o seu perigo: “My Way” cabe em toda a parte porque é suficientemente vaga para ser ocupada por toda a gente. 

Jane Fonda, Bowie e a biografia de uma música

A narração de Jane Fonda é também uma escolha brilhante. Dá à canção uma espécie de consciência própria, como se estivéssemos a assistir não a um documentário musical, mas ao retrato comentado pela própria, de uma estrela envelhecida, cheia de casos, versões, acidentes diplomáticos e sobrevivências miraculosas. Há aqui uma ideia deliciosa: filmar uma canção como se fosse uma diva com passado complicado. E resulta. O elenco de testemunhos e participações — Paul Anka, Jacques Revaux, Ben Harper, Janelle Monáe, Gabriel Yared, os Sparks e Sydney Sweeney — poderia parecer uma salada improvável, mas funciona precisamente porque sublinha uma evidência: “My Way” já não pertence apenas à música. Pertence ao imaginário global. 

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MY WAY
“My Way” já não pertence apenas à música. Pertence ao imaginário global. ©Zero em Comportamento/Projetos Paralelos

O documentário também se permite brincar com os ecos e descendências da canção, incluindo a célebre ligação melódica que ajudou David Bowie a chegar a “Life on Mars?”. É um daqueles detalhes que reforçam a ideia central do filme: uma canção popular nunca acaba numa gravação; espalha-se, contamina, renasce, muda de roupa e reaparece onde menos se espera. “My Way” não é apenas uma obra musical. É uma máquina de apropriação sentimental com passaporte diplomático. 

E depois há Alvalade, porque a pop não tem vergonha nenhuma

Ora, é aqui que a história fica ainda mais portuguesa — embora obviamente, and disso apareça no documentário e, convenhamos, ainda mais bonita na sua absoluta falta de pudor. Porque esta canção nascida em França, americanizada por Sinatra e reciclada por décadas de cultura popular global, acabou também por ganhar uma vida nova em Lisboa, no Estádio José Alvalade, sob a forma de “O Mundo Sabe Que”. A versão é hoje um dos momentos emocionais mais fortes da liturgia sportinguista e é cantada em massa pelos adeptos antes dos jogos em casa; Pedro Pernas é a voz associada à gravação que popularizou o cântico, algo confirmado pela Rádio Renascença e visível também em múltiplos registos públicos do clube e dos adeptos. 

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MY WAY
Sydney Sweeney, também aparece numa salada que parece improvável. ©Zero em Comportamento/Projetos Paralelos

Aqui, de repente, “My Way” deixa de ser o monólogo final de um homem sobre a sua vida e transforma-se numa declaração colectiva de amor clubístico, uma profissão de fé de cachecol no ar, uma missa de estádio com menos latim e mais garganta. É pop reciclada em religião civil. É a canção da auto-mitologia individual transformada em coro de pertença. E isso, sendo um bocadinho absurdo, é também profundamente comovente. Afinal, o futebol e a música popular vivem da mesma matéria-prima: repetição, identificação, memória, exagero e a necessidade desesperada de dar forma sonora a emoções que, ditas normalmente, pareceriam patetas.

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O lado menos romântico do cântico

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A única nota desconfortável desta deriva leonina é que a autoria da letra de “O Mundo Sabe Que” tem sido atribuída publicamente a Miguel D’Almada, também referido como Miguel Pacheco, por páginas ligadas à Rapaziada 1906 e por notícias recentes da imprensa portuguesa. Em abril de 2026, vários meios noticiaram que ele foi condenado no Brasil a seis anos e seis meses de prisão por integrar um grupo neonazi, o que inevitavelmente lança uma sombra sobre a biografia periférica desta apropriação futebolística da canção. Não é assunto do documentário, nem o filme tem culpa da fauna que foi produzindo ao longo da vida desta melodia, mas a ironia é forte: uma canção que já serviu crooners, punks, divas, ditadores e nostálgicos acabou também a roçar o lodo político contemporâneo. 

Uma canção maior do que o seu próprio mau gosto

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É precisamente por causa de tudo isto que “My Way — A História de uma Canção” é um magnífico documentário. Porque percebe que esta música não sobreviveu apesar das contradições; sobreviveu graças a elas. Aguenta o ridículo, a pompa, o kitsch, o abuso sentimental, a apropriação ideológica e a banalização de karaoke porque tem no centro qualquer coisa de muito simples e muito humana: a vontade de transformar a própria vida numa narrativa suportável. Toda a gente quer acreditar que houve rumo, estilo, grandeza e um certo controlo coreográfico do desastre. “My Way” vende exactamente isso. Não a verdade da vida, mas a sua versão cantável.

Depois deste filme, ouvir a canção da mesma maneira torna-se impossível. E ainda bem. Há obras que melhoram quando lhes tiramos a camada grossa de familiaridade. Esta melhora muito. Porque percebemos que nunca foi apenas uma balada de Sinatra. Foi, desde o início, uma criatura mutante: francesa na origem, americana na consagração, mundial na circulação e tribal na apropriação. Da piscina de Claude François ao estádio de Alvalade, poucas canções viajaram tanto sem perder o vício de parecer que nasceram precisamente onde estão a ser cantadas naquele momento. É o mais perto que a pop conseguiu chegar de uma religião portátil, como o futebol.  

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