10 filmes esquecidos pelos Óscares | O Nascimento de uma Nação

Portador de uma das histórias mais controversas da Awards Season, O Nascimento de uma Nação é uma obra com tantos méritos como fragilidades.

 


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Aquando da sua estreia no festival de Sundance do ano passado, O Nascimento de uma Nação recebeu o tipo de explosiva aclamação crítica que normalmente torna sucessos de festival em frontrunners aos Óscares. Muitos viam neste projeto sobre uma das mais mortíferas e maiores insurreições de escravos na América pré-guerra da Secessão, uma maneira de facilmente corrigir a falta de diversidade que estava a resultar em acusações de racismo contra a Academia de Hollywood. No entanto, algumas vozes, especialmente de críticos afro-americanos, já começavam a apontar para inúmeras falhas do filme e para o caráter dúbio do seu realizador, produtor, ator principal e argumentista, Nate Parker.

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Mais ou menos, pelo meio do ano, quando se planeava uma distribuição muito mediática para o filme nos EUA e Nate Parker estava a começar uma ativa campanha pelo filme, mostrando-o para fins educativos em escolas do país, o caos sensacionalista abateu-se sobre o projeto. Ou melhor, finalmente os jornalistas que tinham celebrado o feito de Parker, decidiram pesquisar um pouco sobre o cineasta e descobriram no seu passado, graves acusações de violação sexual, cujo rescaldo resultou no suicídio da alegada vítima. Pior ainda que as revelações foi a atitude de Parker, que inebriado com a importância social e política da suas ambições, começou por negar tudo, antes de começar um processo de desculpabilização que, se possível, o tornou ainda mais vil aos olhos do público.

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No meio de toda esta controvérsia, os sonhos áureos de O Nascimento de uma Nação morreram, mas questões talvez mais importantes se levantaram. Falamos especialmente, da separação entre apreciação de arte e validação pública do artista em si, um tema que tem sido diabolicamente recorrente nesta Awards Season. É fácil entender quem não queira celebrar o trabalho de Parker, especialmente considerando o tratamento negligente das figuras femininas do filme, cuja vitimização sexual é reduzida a uma mera motivação para os protagonistas masculinos se revoltarem. No entanto, pensamos também que há legitimidade na procura por uma apreciação artística independente de julgamentos morais sobre os seus criadores. Afinal, poucas pessoas defenderão a moralidade, humanidade e ética de Leni Riefenstahl ou os gostos pederastas de Caravaggio, mas parece-nos monstruoso negar o valor estético dos seus filmes e pinturas, respetivamente.

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Tentando assim descartar julgamentos morais e indignações éticas sobre a conduta criminosa de Nate Parker, será que O Nascimento de uma Nação merecia ter sido considerada para os Óscares? Sim e não, pois o filme está bem longe de ser uma obra-prima digna de honras como Melhor Filme, realizador ou Argumento. Enquanto a faceta sociopolítica implícita a uma história de escravos oprimidos a revoltarem-se violentamente contra os seus opressores é de enorme importância e relevância na conjuntura política em que nos encontramos atualmente, também é verdade que o modo como o filme distorce a história da revolta liderada por Nat Turner é muito questionável. Nomeadamente, o modo como o argumento de Parker torna a revolta num esforço quase individual de Nat em vingança pela indignação que tem sofrido. Na realidade, a religião de Turner e seu estudo da Bíblia foram um impacto muito maior que um chicoteamento, e o ato revoltoso foi certamente uma reação coletiva da comunidade oprimida.

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De certo modo, o filme copia os mesmos padrões e defeitos narrativos de Braveheart de Mel Gibson, tornando o seu protagonista num mártir heroico em detrimento de uma exploração mais matura da história real e seu complicado contexto. Igualmente, a realização de Parker deve muito à oeuvre de Gibson, sendo que existem cenas compostas de modo quase igual ao famoso épico escocês. Emparelhe-se isso com uma montagem cheia de problemas em cenas individuais, apesar de uma estrutura macro bem construída, assim como um dos piores trabalhos de fotografia deslavada e tingida de azul dos últimos anos, e temos uma obra enfaticamente problemática e merecedora de críticas negativas.

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Mas, de igual modo, existem aspetos muito positivos no filme que, pensando em termos meritocratas, deveriam ter sido reconhecidos na Awards Season ao invés de ignorados. Falamos, por exemplo, do visceral trabalho de maquilhagem e efeitos especiais que materializam culturas passadas, o sofrimento dos escravos e sua furiosa carnificina com impecável e impactante exatidão. O mesmo se pode dizer da modesta cenografia e sonoplastia rica em silêncios expressivos em momentos de grande tumulto e caos. O melhor de tudo é, no entanto, o desempenho de Parker enquanto ator. Por muito que sintamos repulsa pelos seus atos, húbris e geral atitude defensiva, Parker prova-se aqui um magnífico ator capaz de modular a sua personagem com magistral controlo. O modo como o seu corpo vai ficando cada vez mais tenso, mais cheio de raiva reprimida até à sua inevitável explosão é um espetáculo soberbo e certamente mais digno de celebração profissional que algumas das prestações nomeadas ao Óscar de Melhor Ator.

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Ainda não tem data de estreia em Portugal, mas o Nascimento de uma Nação já tem uma distribuidora nacional. Fica atento a novidades e não percas a oportunidade de ir ver este filme e julgares, por ti mesmo, o valor artístico desta obra envolta em justificada polémica.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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