A linha ténue que separa Hollywood e Política: Netflix e o whitewashing

O segundo tópico desta crónica recai sobre o whitewashing e da crescente polémica com o serviço de streaming mundial Netflix.


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A televisão é, atualmente, um meio de constante ebulição em retratos sociais. A diversidade sexual e racial no panorama televisivo continua progressivamente a quebrar barreiras e tabus. A Netflix é responsável por trazer algumas das mais diversificadas séries até aos dias de hoje. Desde o super-herói Luke Cage, passando pela tragicomédia prisional Orange is the New Black até à exuberante Sense8, a plataforma de streaming tem-se revelado uma autêntica caixinha de surpresas no que toca a questões de diversidade. No entanto, o gigante do streaming está a ser alvo de críticas severas. O seu novo herói Iron Fist e o recente remake cinematográfico do anime Death Note têm sido constantemente “destruídos” nas redes sociais pelo chamado whitewashing.

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Netflix

O que é isto de whitewashing?

Este é um novo conceito que tem crescido com estas recentes polémicas na indústria das artes visuais. Vamos imaginar que estamos a realizar um filme sobre a Muralha da China e, em vez de selecionarmos protagonistas chineses, optamos por trazer atores caucasianos para que o impacto do nosso filme seja maior a nível mundial. É uma questão que está intimamente relacionada com as raízes culturais do que pretende ilustrar um determinado filme ou série.

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O exemplo mencionado em cima vai ao encontro precisamente do recente filme de Zhang Yimou The Great Wall, que conta com Matt Damon como protagonista (podem consultar aqui a nossa crítica). Numa película em que se luta pela defesa de um marco cultural chinês, qual é a necessidade de Matt Damon ser o protagonista? Porque não dar a oportunidade a um ator chinês? O mesmo acontece com o remake de Death Note, da Netflix, baseado numa manga e que já conta com um anime e alguns live-actions japoneses. Porquê dar o mérito a um ator caucasiano americano quando o produto que se está a adaptar tem fortes raízes asiáticas?

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É difícil, nos dias que correm, que a sociedade consiga permanecer imparcial a estas decisões. O cinema e a televisão são duas áreas que privilegiam a celebração do ser humano pela sua multiculturalidade, mas não deixam de ser indústrias que envolvem milhões de dólares. Na maioria dos seus projetos mais comerciais, estas indústrias procuram alcançar as massas através de elementos com que elas se identifiquem. Neste momento, a fatia da população mais lucrativa aos olhos dos produtores tende a ser a caucasiana.

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Devido à instabilidade política que, por consequência, gera instabilidade social, cabe aos meios audiovisuais promoverem um sentimento de união, de tolerância, de aceitação e de inclusão. Ao retirarem a oportunidade às minorias de poderem brilhar no grande ou pequeno ecrã, torna-se cada vez mais difícil difundir este sentimento.

Netflix

ConfereDivulgados os primeiros minutos de Ghost in the Shell

Matt Damon foi alvo de críticas por liderar o elenco de The Great Wall e agora juntam-se a ele Scarlett Johansson e Nat Wolff pelos filmes Ghost in the Shell (já podem ler a nossa crítica fresquinha aqui) e Death Note. Na verdade, não está em causa o seu talento, nem tão pouco como se safaram ou irão “safar” nos filmes; o grande problema é que eles dão rosto e corpo a algo que está intimamente ligado ao retrato de uma cultura que não a deles. Neste caso, há uma legitimidade na indignação causada por estas escolhas dos produtores. No lugar de Matt Damon, Scarlett Johansson ou Nat Wolff poderíamos ter um talento emergente (ou até mesmo veterano) proveniente dos países em cujo material argumentativo se baseia.

Qual é a vossa opinião sobre o whitewashing?


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