"O Meu País Imaginário" | © Midas Filmes

Patricio Guzmán é, muito provavelmente, o mais importante cineasta chileno das últimas décadas. Em termos de cinema documental, ninguém chega aos calcanhares do seu legado, há muito forjado por uma imparável convicção em filmar e expor ao mundo as injustiças impregnadas na História da sua nação. Além do mais, entre o trabalho como pedagogo e a fundação de um festival de documentários em Santiago, muito fez ele para preparar as próximas gerações de cineastas que, como ele, se dedicam a capturar a verdade a 24 fotogramas por segundo sem a mediação de ficções, narrativas ou outros elementos fora do foro mais estritamente documental.

A carreira dessa lenda do cinema chileno começou nos anos 60 ainda, mas foi a grande trilogia “La Batalla de Chile,” estreada entre 1975 e 1979, que lhe deu renome internacional, seguido de “Rosa de los ventos” em 1983. Nestes primeiros triunfos, Guzmán olhava para o passado recente do seu país, um período de enorme transformação, como se preservasse o sentimento imediato da insurreição burguesa, do golpe de Estado e da aparente ascensão do poder popular enquanto estes aconteciam. Ele e seu cinema estavam lá quando Allende foi assassinado e o sonho da democracia morreu com a ajuda da CIA.

Pub
Lê Também:
Minissérie de 3 episódios baseada em factos reais já na HBO Max Portugal

“La Batalla de Chile” não retrata a chegada da autocracia ao Chile, contudo. Porque, ainda por cima, Guzmán partiu em exílio durante os anos da junta militar de Pinochet, fazendo “Rosa de los ventos,” sobre uma mais abrangente identidade Latino-Americana, fora da pátria mãe. Só com “Chile, la memoria obstinada” de 1997 é que o realizador pode começar a refletir sobre os anos da ditadura e as atrocidades que haviam varrido a nação nesses anos. Foi um ponto de viragem na carreira deste senhor que, não só pode voltar ao Chile, como aqui encontrou a obsessão e o propósito que lhe viriam a consumir a vida de artista.

Longe de ser um cineasta do momento, Guzmán passou a ser um arqueólogo na cadeira de realizador, forçando os seus conterrâneos e o público mundial a testemunharem o que Pinochet fez no Chile, o que os EUA possibilitaram, e o modo como os crimes da ditadura não cessaram quando ela veio abaixo. “Nostalgia de la luz” de 2010, “El Botón de Nácar” de 2015 e “La Cordillera de los sueños” de 2019 refletem muito sobre o tema daqueles que foram “desaparecidos” pelo regime, sobre os campos de prisioneiros políticos no Deserto do Atacama ou sobre os corpos atirados para as profundezas do Pacífico, agrilhoados a âncoras que os afundassem para que jamais fossem recuperados.

Pub

Será este o filme-testamento do grande mestre do cinema chileno?

o meu pais imaginario critica midas filmes
© Midas Filmes

Patricio Guzmán morreu de problemas cardiorrespiratórios em Paris há dois meses. Deixando-nos aos 85 anos, esta inesperada tragédia também fez com que “O Meu País Imaginário,” que primeiro fez as rondas dos festivais em 2022, se tornasse na sua última obra, um filme-testamento em certa medida. É um fado curioso porque, depois de três décadas a olhar para o rescaldo do assassinato de Allende e dos crimes de Pinochet, Guzmán virou os olhos para uma crise mais atual. Nomeadamente, trata-se de uma tentativa, por parte do realizador, de documentar e refletir sobre os protestos e a revolta popular que assolaram o Chile em outubro de 2019 – o “estallido social.”

Num daqueles milagres acidentais que ninguém pode prever, “O Meu País Imaginário” desenha um círculo perfeito. Pensemos na filmografia do artista que começou por documentar a História do seu país enquanto acontecia e, em seu imediato rescaldo, tornou-se um arqueólogo do passado esquecido no exílio e no regresso, mas voltou aos princípios com que tudo teve início no final da vida. Não que “O Meu País Imaginário” não olhe para trás. De facto, alguns gestos sugerem a autorreflexão, quiçá o solipsismo, de um artista que já começa a suspeitar que este será seu derradeiro trabalho, um ponto final e uma última afirmação perante o público.

Pub

Porque, aliás, “O Meu País Imaginário” nem começa em tempos de “estallido social” nem com os seus antecedentes imediatos. Pelo contrário, Guzmán cede à indulgência de uma recordação pessoal, ilustrada com filmagens de arquivo. Fala-nos de como Chris Marker, esse nome de peso da Nouvelle Vague, visitou o Chile e gostou do que viu nos primeiros filmes de Guzmán, levando cópias para a França e, lá, distribuindo comercialmente as fitas. Na correspondência trocada entre dois documentaristas, o chileno diz ter vivenciado uma escola de cinema epistolar e preza pelos conselhos do mestre francês.

Fica no ar uma ideia assim partilhada, de que, para filmar um fogo, há que já se estar presente no sítio onde este se acenderá, testemunhando as primeiras sugestões de fumo antes de as labaredas se levantarem. Guzmán posiciona esta memória enquanto prólogo, em parte, porque, como ele admite na narração em voz-off, desta vez não estava presente para filmar as primeiras chamas. Sediado em França na sua idade avançada, ele só chegou ao Chile meses depois do início do “estallido”. Dito isso, ainda consegue capturar muito do flagelo, pois a revolta não foi coisa curta, que explodisse num momento e se apagasse logo de seguida.

Pub

Ainda as ruas se enchem de jovens enfurecidos, e as rochas lançadas contra a polícia militarizada deixam para trás uma paisagem urbana que sugere o apocalipse em que, do céu, choveram pedras em vez de água. Há lirismo nas imagens que Guzmán captura, mas também uma certa incompreensão e um certo distanciamento. Por admissão própria, o realizador não entende bem os manifestantes, vendo-os como algo novo, unidos em torno de um movimento sem líder e sem filiação política clara, em forte contraste com o que ele experienciou no Chile dos anos 60 e 70. Isso não quer dizer que ele não busque a compreensão ou que se identifique com os revolucionários do momento.

Ele mesmo diz que passou a vida a observar como o país se tornava um centro comercial, movido por interesses do capital, sempre sacrificando os interesses e a dignidade do povo. Mas, por estar distante geograficamente e também geracionalmente dos rebeldes, Guzmán olha tudo com um tom meio alienado. Jamais conseguiria prever que a subida do preço dos bilhetes do metro seria a faísca que incendiaria o Chile, já predisposto ao descontentamento da população comum e desprivilegiada devido aos custos crescentes da habitação, ao sexismo e ao racismo sistematizados, à privatização constante dos serviços públicos, ao aumento das propinas nas universidades, ao desemprego e ao abismo entre ricos e pobres.

Pub

Cinema sem conclusão, só reticências e pontos de interrogação.

o meu pais imaginario critica
© Midas Filmes

Em outubro de 2019, isto culminou numa manifestação com mais de um milhão de participantes, a maior na História do Chile. Mas também levou a uma resposta imediata de um governo que declarou guerra aos seus constituintes, mobilizando o exército contra os manifestantes, quer fossem violentos ou pacíficos. Tudo isto Guzmán reconta como algo que aconteceu sem que ele ou a câmara pudessem testemunhar diretamente. De facto, há uma prevalência de entrevistas a manifestantes, rebeldes e intelectuais chilenos, em um jeito hiperconvencional do documentário enquanto género e enquanto modelo de cinema. Entrevistas estas que parecem ser uma tentativa de Guzmán compensar estas lacunas pessoais, mas, ao mesmo tempo, enquadrar os eventos na analogia entre a repressão militar do momento e as forças de Pinochet.

Há aqui uma marcada ironia. Depois de anos a fazer filmes sobre o período em que o realizador esteve em exílio político, este “Meu País Imaginário,” sobre algo que Guzmán consegue filmar uns meses depois de começar – ainda no momento, mesmo que não no seu deflagrar – parece tão mais remoto, afastado dos seus sujeitos e principais ideias. Também há um reforço da curiosidade do cineasta. Os seus trabalhos mais recentes foram todos construídos em torno de uma tese que precedeu a sua filmagem. Este derradeiro filme desenrola-se numa constante procura da sua conclusão, como se, até na mesa de montagem, Guzmán se estivesse a questionar.

Pub
Lê Também:
Os 4 melhores filmes desta semana na Netflix Portugal (1 novembro)

Há algumas certezas, como a descontrolada e total desconexão entre as forças policiais e militares e a população civil. Mas muito fica na incógnita, na reticência com um ponto de interrogação atrelado. Isso é tão valioso e valeroso quanto é frustrante. Porque, renegando as falinhas mansas, chega-se à triste conclusão de que, na sua œuvre completa, “O Meu País Imaginário” acaba por ser um esforço menor de Guzmán. Sua importância surge enquanto objeto de estudo do seu cinema, por ser o último, por compreender em si uma certa admissão da desconexão do realizador, outrora revolucionário, em relação aos revolucionários que, hoje em dia, exigem o progresso social no Chile.

Se falta precisão ao filme na estrutura, se transborda algum convencionalismo, é porque se trata de uma produção do artista desamparado que não ousa esconder essa mesma condição. A certa altura, um dos sujeitos de entrevista – senhora mais próxima em idade de Guzmán que dos estudantes nas ruas – fala sobre a revolução como uma chama. Há chamas que alimentam e outras que destroem. Qual das duas será este movimento do “estallido social”? Nem Guzmán nem seus revolucionários e intelectuais entrevistados o sabem. Mas há valor em aceitar isso. Pode não resultar num grande filme, ou tornar “O Meu País Imaginário” num instrumento político de grande utilidade. Pelo menos, é honesto. Se for esse o legado de Patricio Guzmán, que o seja!

Pub
O Meu País Imaginário

Conclusão:

  • “O Meu País Imaginário” é um trabalho menor na carreira de Patricio Guzmán. Contudo, por ser o seu último filme, ganha um peso considerável, fechando um ciclo retratista da História política do Chile desde os anos 60 até aos dias de hoje. Vale, sobretudo, como uma reflexão do cineasta sobre a distância criada entre si e seu país, entre ele, enquanto revolucionário que ajudou a levar Allende ao poder, e os jovens revoltosos que, no final de 2019, transformaram o Chile num campo de batalha e reivindicaram os seus direitos como nunca antes havia acontecido na nação.
  • Trata-se de um filme de convencionalismos feitos por necessidade, porque Guzmán não estava presente para documentar os antecedentes ou o deflagrar imediato desse “estallido social” enquanto movimento (des)organizado. Não deixa, por isso de ter o seu valor, especialmente em capítulos finais, quando questiona as razões pelas quais tanta da ação policial contra os manifestantes se apoiou numa constituição ainda em vigor, apesar das suas origens durante a ditadura de Pinochet e a junta militar dos anos 80. Para entender o presente e trabalhar para um futuro melhor, há que investigar o passado – disso, o cinema de Guzmán sempre nos recordará, até depois da sua morte.
  • Tentando ser mais específico, prezo, em particular, o foco no feminino. Revolucionárias e pensadoras entrevistadas são sempre mulheres, mesmo as que se anonimizam com máscaras e outras precauções, como as da manifestante que luta contra um Estado hóstil e altamente militarizado. Também há que celebrar a honestidade de Guzmán, que sempre admite suas limitações, até quando elas se tornam evidentes na amorfia e na reticência de um filme à procura de uma tese que nunca realmente alcança ou articula de forma clara.
  • “O Meu País Imaginário” teve antestreia no DocLisboa deste ano, em parte para homenagear um dos grandes documentaristas do cinema contemporâneo, em memória da recente morte. Mas, olhando para o que se passa nas ruas de Lisboa e do Porto, parece-me mais relevante do que nunca. Até sem nos dar respostas concretas ou alcançar uma forma tão revolucionária como o trabalho passado do cineasta ou a ação dos manifestantes em “cena,” esta reflexão deveria ecoar pela imaginação do público português, pela sua consciência moral, política e humana.
Overall
7/10
7/10
Sending
User Review
0 (0 votes)

google news

Sobre o Autor


Leave a Reply