"Ofélia" | © NOS Audiovisuais

Ofélia, em análise

A realizadora Claire McCarthy concebeu uma nova interpretação do “Hamlet” de Shakespeare centrada na figura de Ofélia, a heroína trágica que o rio não guardou. Daisy Ridley e Naomi Watts interpretam os papéis principais.

Poucas tragédias de William Shakespeare são tão estudadas e encenadas, tão adoradas e veneradas, como o seu “Hamlet”. A história sobre o intransigente príncipe da Dinamarca, o homem que não se conseguia decidir, é um dos grandes trabalhos do Bardo inglês, assim como um dos seus textos mais complexos e compridos. Ao longo dos últimos séculos, muitos têm sido os escritores que se têm aventurado por reinterpretações da peça original, subvertendo suas premissas e explorando a perspetiva de outras personagens. Famosamente, Tom Stoppard pegou nas figuras marginais de Rosencrantz e Guildestern, fazendo deles os protagonistas de uma odisseia de meta-teatro tragicómico, cheio de absurdo existencialista.

A romancista americana Lisa Klein tem feito carreira com a reinterpretação das obras de Shakespeare. Mutando as peças ao modelo do livro para jovens adultos e dando-lhes uma perspetiva feminista, Klein concebeu histórias centradas em Lady Macbeth e Ofélia. Esse segundo trabalho teve agora direito a uma adaptação cinematográfica, realizada por Claire McCarthy e com Daisy Ridley no papel da enamorada infeliz do príncipe da Dinamarca. Com isso dito, convém esclarecer que somente o esqueleto narrativo de “Hamlet” se mantém nesta “Ofélia”. Os detalhes são delirantemente transformados, como a personagem da rainha Gertrude que agora tem direito a uma irmã gémea e uma história de origem belicosa.

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Gostaríamos de dizer que estas mutações textuais são sempre bem-sucedidas, mas estaríamos a mentir. Os temas complexos do original são, na sua maioria, atirados borda fora sem cerimónia e substituídos por uma tapeçaria de enredos retorcidos sem grande sentido ou potência dramática. Na procura pelo protagonismo de Ofélia, essa figura trágica perdeu muitas das suas características mais interessantes. Até a sua espiral de loucura é tornada em engodo, somente uma manipulação de uma heroína cheia de genica, mas muito pouca complexidade psicológica. Enfim, é o que acontece quando se dilacera uma tragédia clássica para agradar a um público jovem contemporâneo mais habituado a Katniss Everdeen que à Ofélia da imaginação quinhentista.

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Não queremos com isto denegrir as boas intensões da obra. Injetar uma valente dose de feminismo a narrativas ancestrais é uma missão valerosa que muitas vezes resulta em excelentes trabalhos de ficção. “Ofélia” não é um desses triunfos, mas também não é a sua proposta dramática que justifica o fracasso. O problema, neste caso, é a execução. Trata-se, de facto, de uma desgraça que se abate sobre os vários elementos do filme, desde a conceção visual até ao texto, passando pelas performances e os clichés musicais que compõem sua banda-sonora. Somente um ou dois aspetos da produção se safam da praga de mediocridade, quer seja pelo seu inegável esplendor ou pelo prazer irónico que despertam no espectador.

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Em termos de esplendor, os figurinos do italiano Massimo Cantini Parrini surpreendem pela positiva. Costuradas no atelier preferido do lendário Piero Tosi, a Casa Tirelli, as roupas de “Ofélia” posicionam o filme num cruzamento entre a fantasia romântica e o historicismo medieval que recorda as pinturas dos Pré-Rafaelitas do século XIX. Com cores vibrantes e quilos de bordadura, véus vaporosos e saias que se arrastarem pelo chão, coroas de filigrana e damascos pesados, o guarda-roupa sugere muita da magia e do espetáculo que o argumento indica, mas não produz. Só é pena que estes milagres estilísticos sejam exibidos dentro dos cenários sensabor de David Warren e fotografados com triste displicência por Denson Baker. Tais criações mereciam mais do que “Ofélia” tem para dar.

Também há algo de jubilante no trabalho das atrizes principais de “Ofélia”, mesmo quando elas caiem no ridículo. Com dois papéis, Naomi Watts é especialmente fabulosa, levando suas gémeas medievais a níveis de exagero que rondam o camp e nos deleitam. Pela sua parte, Daisy Ridley pode não chegar aos calcanhares das outras Ofélias que já agraciaram o grande ecrã (Kate Winslet, Helena Bonham Carter, etc.), mas o seu carisma e charme natural compensam quaisquer deficits dramáticos. O mesmo não se pode dizer do elenco secundário masculino que, na sua totalidade, são um colossal desapontamento. George MacKay é um dos Hamlets mais insípidos que já se viu, o Claudius de Clive Owen é para esquecer, o Polonius de Dominic Mafham é uma não-entidade, e por aí a fora.

Ofélia, em análise
ofélia

Movie title: Ophelia

Date published: 2020-07-23

Director(s): Claire McCarthy

Actor(s): Daisy Ridley, Naomi Watts, Clive Owen, George MacKay, Tom Felton, Noel Czuczor, Martin Angerbauer, Dominic Mafham, Nathaniel Parker, Jack Cunningham-Nuttall

Genre: Drama, Romance, 2018, 114 min

  • Cláudio Alves - 50
50

CONCLUSÃO:

Daisy Ridley e Naomi Watts, esplendorosamente vestidas e investidas na loucura do seu argumento, avivam a “Ofélia” de Claire MCarthy, mas não a conseguem salvar. Contudo, se este filme ajudar algum jovem a ir à descoberta do universo dramático de William Shakespeare, então temos de aplaudir o engenho de “Ofélia”.

O MELHOR: Os figurinos requintados de Massimo Cantini Parrini, sua fantasia medieval e esplendor arcaico.

O PIOR: O elenco secundário masculino deixa muito a desejar. Como um Claudius carrancudo com feiíssima cabeleira, Clive Owen é particularmente mau.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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