Venice Sala Web | Orecchie, em análise

Filmado em cristalino preto-e-branco, Orecchie é uma comédia absurdista italiana em que um misantropo infeliz aprende a ver o mundo com outros olhos. Tal como todos os filmes presentes no Venice Sala Web, esta obra foi exibida no Festival Internacional de Veneza e está, de momento, disponível no Festival Scope.

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Os primeiros cinco minutos de Orecchie, a segunda-longa metragem do cineasta italiano Alessandro Aronadio, são um soberbo exemplo de como se estabelece de forma económica e eficiente um mundo, personagens, uma abordagem estilística e, talvez o mais importante de tudo, um tom. Neste caso, esse tom é cómico com um potente rasgo de misantropia carrancuda proveniente do nosso protagonista sem nome, um professor de filosofia (Daniele Parisi) que um dia acorda com um irritante zumbido nos ouvidos e uma misteriosa mensagem deixada pela sua namorada no frigorífico. Aparentemente o seu amigo Luigi morreu, o único problema é que ele não sabe quem é esse tal Luigi.

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Mas não há tempo para grandes ponderações pois duas freiras estão á porta a perguntar-lhe se tem esperança no mundo e uma vizinha enlutada depressa começa a partilhar fotos de família numa absurda sequência de eventos que acaba com uma das freiras a ser levada de maca para o hospital. Note-se de novo que tudo isso se trata apenas dos primeiros minutos de um filme com hora e meia, onde se testemunha um dia na vida do nosso protagonista sem nome. Ao longo de umas atribuladas 24 horas, vemos como ele protagoniza uma série de tableaux insólitos onde inconveniências, absurdos e desentendimentos são a ordem do dia. Numa ocasião particularmente ridícula, um médico diz-lhe que ele é um hermafrodita e que se engravidou a si mesmo, para depois logo revelar que era tudo uma piada de mau gosto.

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Histórias como esta, onde homens filosóficos são confrontados com um mundo estranho e hostil que não os compreende, há-as aos pontapés na história do cinema e basta recuarmos alguns anos para observarmos um trabalho de aparência quase indistinguível deste, Oh Boy do alemão Jan Ole Gerster. No entanto, há uma diferença fulcral entre Orecchie e esse projeto germânico, pois o filme italiano vai progressivamente questionando o homem descontente no seu centro, escolhendo criticá-lo a ele e não ao mundo que o rodeia.

A ajudar a esta perspetiva crescentemente crítica da atitude do protagonista, temos uma série de inteligentes escolhas formais e interpretativas. A mais óbvia é, sem dúvida, o alargamento do frame ao longo do filme, que começa em 1:1 e vai-se estendendo até chegar a 1.85:1. Menos vistoso que em Mommy de Xavier Dolan, este mecanismo visual tem sensivelmente o mesmo efeito que é o de abrir o mundo e deixar a imagem respirar com uma liberdade que dificilmente existe no claustrofóbico formato quadrado do início. Também a música reflete o modo como o nosso filósofo infeliz vai questionando a sua atitude, passando de repetições insistentes a ritmos mais tradicionalmente melódicos e agradáveis ao ouvido.

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O elenco também contribui para esta eficiência, quase mecânica, que caracteriza todo o filme. Repare-se, por exemplo, como todos os atores que partilham cena com Parisi vão contrastando a sua atitude neurótica (ele parece saído diretamente de um filme de Allen ou Jarmusch) mas fazem-no de modo modulado, evitando tornar-se grotescos facilmente ignorados. Aliás, tirando algumas questões de originalidade narrativa, o único grande passo em falso do filme está num elogio fúnebre perto do final, onde o protagonista se expõe num comprido monólogo e explica, de modo desnecessariamente didático e óbvio, toda a moral e tese do filme.

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Ainda bem que Orecchie tem uma coda, depois desse desastroso momento funéreo, onde os temas anteriormente verbalizados são expressos de modo audiovisual, com a câmara de Aronadio a se aventurar nas ruas de Roma e a se maravilhar com os rostos que por elas encontra, cheios de vitalidade e idiossincrasias humanas. Não é o suficiente para lavar o gosto amargo da cena anterior mas sublinha de modo eficaz e elegante os temas principais do filme, assim como um dos seus mais valiosos elementos. Falamos, pois claro, da atitude humanista e fortemente otimista que marca todo o projeto e que, infelizmente, é uma raridade num panorama cinematográfico onde o cinismo e a ironia são sempre mais celebrados que qualquer mostra de sinceridade. Logo aí, Orecchie afirma-se como uma comédia valiosa com uma mensagem que, apesar de não ser muito original, merece admiração.

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O MELHOR: A fotografia a preto-e-branco de Francesco Di Giacomo é belíssima, especialmente no seu uso do já elogiado jogo de alargamento da imagem.

O PIOR: Para além do elogio fúnebre, há que mencionar como, apesar da abordagem à usual história do homem descontente que não é entendido pelo mundo ser feita com um otimismo admirável, a premissa narrativa nunca transcende a sua condição de enorme e cansado cliché.


 

Título Original: Orecchie
Realizador:  Alessandro Aronadio
Elenco: Daniele Parisi,  Pamela Villoresi, Milena Vukotic, Silvia D’Amico, Re Salvador
Festival Scope | Comédia | 2016 | 90 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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