Os Enforcados — Análise
Em “Os Enforcados”, de Fernando Coimbra, Shakespeare desce à Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e o Brasil sobe ao cadafalso num noir tropical sobre casamento, crime e ambição, num país onde o destino raramente castiga quem devia e onde reina a impunidade. Estreia a 1 de janeiro.
Há quem ainda ache que o jogo-do-bicho é uma relíquia folclórica, uma excentricidade simpática da malandragem carioca, boa para piadas e sambas-enredo. “Os Enforcados”, de Fernando Coimbra, chega para lembrar que essa leitura é tão ingénua como achar que “Macbeth” era apenas um problema de casal. Aqui, Shakespeare desce o morro — ou melhor, instala-se na Barra da Tijuca — e descobre que o Brasil, e em particular a chamada “Cidade Maravilhosa”, é mais noir do que o próprio noir. E que a tragédia, quando encontra dinheiro vivo, camarotes VIP no Maracanã, desfiles de Carnaval na Sapucaí e uma fé inabalável na impunidade, vira espectáculo.

Quando Shakespeare se instala na Barra da Tijuca
Basta olhar, quem conhece, — ou quem por exemplo teve a sorte de ver, como que vos escreve, a série documental “Vale o Que está Escrito”, na Globoplay — o universo do jogo-do-bicho para perceber que estamos longe do folclore inofensivo. Trata-se de uma verdadeira ópera criminosa: máfias, fortunas em dinheiro vivo, diplomacias paralelas, lavagem de dinheiro, tiros e, claro, o Carnaval como grande palco onde tudo desfila com brilho e cinismo. “Os Enforcados” — mais uma co-produção luso-brasileira com a Fado Filmes, de Luís Galvão Teles — entra exactamente neste território, misturando Shakespeare com film noir, samba com sangue e a velha vocação brasileira para transformar tragédia em entretenimento.
O Brasil dos “homens de bem”
Fernando Coimbra já tinha provado em “O Lobo Atrás da Porta” (2013) que sabe filmar a violência com uma elegância quase indecente, como quem não quer chocar, mas acaba a espetar uma faca no espectador. Agora regressa ao Brasil dos “homens de bem”, essa categoria tão nacional quanto contraditória, onde a contravenção convive com mansões, apartamentos de luxo ou escritórios milionários na Barra da Tijuca e uma certeza absoluta de impunidade. A premissa parece simples — bicheiros, família, Shakespeare e uma reforma de casa — mas é precisamente nessa banalidade que o filme encontra o seu veneno.

Um casamento como campo de batalha
O coração do filme bate no casamento de Regina e Valério. A actriz Leandra Leal — sempre magistral e já conhecida do público por “O Lobo Atrás da Porta” — surge como uma Lady Macbeth saída da Zona Oeste (Barra da Tijuca) — que sociologicamente no RJ, marca um estilo de vida de novo rico, que quer parecer aquilo que não é, em todos os sentidos onde até os criminosos passam por gente de bem — com humor venenoso, ambição sem pudor e uma inteligência prática que percebe cedo demais como o mundo funciona.
O pernambucano Irandhir Santos — vimo-lo em “O Som ao Redor” (2012), de Kleber Mendonça Filho, entre muitos outras grandes obras do cinema brasileiro — está agora inclusive na excelente telenovela “Guerreiros do Sol”, disponível também só na Globoplay — que é um dos maiores actores brasileiros da actualidade e encarna aqui um marido que vive no fio da navalha: acha que manda, mas só respira porque ela deixa. Juntos, são dinamite pura, uma espécie de “Mr. & Mrs. Smith”. Sexo, manipulação, poder, culpa e desejo num jogo que tanto é sedução como guerra civil doméstica. Coimbra filma este casal como dois animais fechados na mesma jaula: não há plano/contraplano confortável, não há repouso moral para o espectador. Eles circulam, rodeiam-se, atacam-se e recuam num bailado tenso que podia iluminar metade do Rio se a Light — a companhia de electricidade do RJ — não estivesse falida.

O crime como ópera bufa carioca
Se o coração é o casal, o corpo é o próprio Brasil. “Os Enforcados” olha para o jogo-do-bicho como ele é: empresários do submundo com gostos exuberantes, pretensões culturais e zero pudor. Coimbra filma-os sem romantização, mas também sem o moralismo preguiçoso que costuma aliviar consciências. Há humor negro — daquele que faz rir com culpa — porque no Brasil o grotesco e o trágico caminham de braço dado. Há ecos dos Irmãos Coen na ironia, de De Palma no sangue, de Polanski naquele curativo absurdo no nariz de Irandhir. É uma espécie de “Chinatown” com caipirinhas e samba-enredo.

Noir tropical: mais sangue do que estilo
Porém, a violência aqui não é poética nem estilizada: é suja, abrupta, muitas vezes absurda. Mais Brasil do que noir, no fundo, porque o Brasil é assim. Coimbra percebe isso e abraça o caos, o exagero, as contradições. O “homem de bem” mata por causa de um camião do lixo, mas financia alegremente a “cultura popular” no camarote da Sapucaí. Não há lição de moral, há exposição. E isso dói ainda mais.

Lady Macbeth à brasileira
Não é por acaso que Coimbra se inspira também em “Macbeth”, mas escolhe contar a história a partir da perspectiva de Lady Macbeth. “Os Enforcados” é, acima de tudo, um filme sobre um casamento e as suas contradições. Um pacto selado a partir de um crime. Um plano de vida que nasce torto e acaba inevitavelmente em ruína. Não há bem e mal claramente definidos: há personagens que cruzam um limite e descobrem, tarde demais, que o destino não aceita renegociações.

Quem fica pendurado nunca é quem devia
No final, “Os Enforcados” deixa uma certeza desconfortável: no Brasil, quem acaba pendurado raramente é quem devia. A tragédia é inevitável, a comédia é necessária e o espectáculo continua. Shakespeare reconhecer-se-ia neste enredo trágico. Só não imaginaria que tudo se passasse numa varanda com vista para o mar na Barra da Tijuca, enquanto a corda aperta devagar e alguém diz, com um sorriso cínico: toma que já almoçaste.
Os Enforcados — Análise
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José Vieira Mendes - 75
Conclusão:
“Os Enforcados”, de Fernando Coimbra é um noir tropical que entende o Brasil não como cenário exótico, mas como sistema fechado: crime, casamento, poder e impunidade ligados pela mesma corda. Fernando Coimbra filma a tragédia sem solenidade e a violência sem glamour, lembrando-nos que, neste país, o espectáculo raramente termina com justiça, com aplausos ou samba-enredo, mas antes com um silêncio conveniente.
Overall
75User Review
( votes)Pros
O melhor: A dinâmica conjugal entre Leandra Leal e Irandhir Santos: um duelo íntimo, físico e moral que sustenta todo o filme; e a mise-en-scène de Coimbra, seca e venenosa, que recusa moralizar e prefere expor.
Cons
O pior: O universo criminal mais amplo surge por vezes como pano de fundo esquemático, quase folclórico. Fica a sensação de que o monstro sistémico do negócio do jogo-do-bicho, merecia ainda mais densidade e risco.

