Birds of Prey (E a Fantabulástica Emancipação De Uma Harley Quinn) | © Warner Bros.

Óscares 2021 | A extravagância de Harley Quinn de volta à corrida

Harley Quinn é a estrela do filme “Birds of Prey (e a Fantabulástica Emancipação de Uma Harley Quinn)” que pode ser nomeado aos Óscares 2021.

Ainda se lembram quando “Esquadrão Suicida” realizado por David Ayer e ganhou um Óscar da Academia? Aparentemente “Birds of Prey (e a Fantabulástica Emancipação de Uma Harley Quinn)” pode voltar a conquistar uma nomeação e/ou vitória para edição de entrega das estatuetas douradas deste ano, embora gere alguma controvérsia e estranheza, tendo em conta a ausência de blockbusters na decorrente temporada de prémios. Antes de comentarmos esta possibilidade recuemos um pouco atrás no tempo, ao exato momento da vitória de “Esquadrão Suicida”.

“Esquadrão Suicida”, filme com Harley Quinn vence o Óscar

Esquadrão Suicida” estreou nos Estados Unidos e em Portugal em 2016 e passados pouco menos de 5 anos, poderemos analisar a sua vitória nos Óscares na categoria de Melhor Maquilhagem e Cabelos como um momento justo, apesar dos grandes candidatos nessa edição – concorria contra “Um Homem Chamado Ove” e “Star Trek: Além do Universo”, aparentemente o favorito. Com uma intensa campanha de marketing, “Esquadrão Suicida” prometia dar forma ao Universo cinematográfica da DC Comics. O sucesso evidenciou-se nas bilheteiras, onde “Suicide Squad” (título original) arrecadou mais de 746 mil milhões de dólares de receita, sem sequer ter estreado na China. Junto da crítica norte-americana, o filme foi controverso e havia uma ridicularização massiva perante as interpretações do elenco, desde logo, a performance de Jared Leto como Joker, dita inferior a Heath Ledger a “O Cavaleiro das Trevas” (Christopher Nolan, 2008).

Além de Joker, tivemos a aparição de várias personagens icónicas das bandas-desenhadas da DC neste filme, como Amanda Waller interpretada pela poderosa Viola Davis, Deadshot interpretado por Will Smith e ainda Harley Quinn, tão irreverente e interpretada por Margot Robbie. Um all-star cast permitiu levar este filme ao sucesso, para já não falar da exuberância técnica envolvente a Harley Quinn, permitindo Margot Robbie vencer um Critics Choice Award. Eleito o filme mais popular de 2016 em vários inquéritos online, “Esquadrão Suicida” tornou-se um dos filmes de super-heróis de culto, capaz de provar que o cinema de ação tem espaço junto da Academia.

Com a vitória do Óscar de Melhor Maquilhagem e Penteados, os votantes da Academia provaram que um filme merece sempre elogios, e que deve ser examinar minuciosamente o trabalho feito pelos seus profissionais. Há espaço para a diversidade na Academia e podemos honrar filmes diferentes em várias categorias e não apenas os mesmos em categorias técnicas e categorias principais. De facto, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood tem vindo a abraçar cada vez mais filmes nas suas nomeações.

Harley Quinn e restante "Suicide Squad"
Harley Quinn e o restante “Esquadrão Suicida” | © Warner Bros

Apesar das falhas no argumento, a maquilhagem e os penteados feitos pelo trio Alessandro Bertolazzi
Giorgio Gregorini e Christopher Allen Nelson para “Esquadrão Suicida” mostravam um estudo adaptado a cada personagem da banda-desenhada e a sua respetiva transposição para o grande ecrã. O trabalho usado para o rosto de Killer Croc deixou o seu intérprete Adewale Akinnuoye-Agbaje irreconhecível. Com camadas de maquilhagem, o ator conseguia ainda assim expressar-se e ser visível a vários metros de distância. Nem sempre isso acontece em termos de próteses, em que muitas vezes os atores estão petrificados e têm dificuldade em movimentar-se.

O mesmo pode ser dito sobre a personagem de Cara Delevingne, a Feiticeira, com uma face bastante suja onde a personagem parece ter saído das trevas profundas de um pântano. Para o Diablo, o ator Jay Hernandez teve muitas horas sentado para que as suas tatuagens pudessem ser pintadas à mão. Muitas das personagens no filme têm pouca roupa, e a maquilhagem precisou de ser prolongada da cabeça à ponta dos dedos dos pés. E uma vez que estamos aqui para falar de Harley Quinn de Margot Robbie, vale a pena destacar a criação de um trabalho específico para a personagem neste filme.

A equipa de maquilhagem de “Esquadrão Suicida” salienta a tonalidade pálida da sua pele, como o seu caráter obscuro e problemático evidenciado nos contornos azul e rosa dos olhos, para já não falar das tatuagens e alguns hematomas ao longo do seu tronco. Harley Quinn é uma mulher complexa e isso precisava de ser transposto para o cinema de maneira fortemente colorida. Acompanham-na um guarda-roupa sensual e assim, a Harley Quinn transfigura-se numa psicopata real, mais do que os efeitos visuais CGI seriam capazes de fazer.

Harley Quinn, a maquilhagem do empoderamento feminino

Harley Quinn
Suicide Squad | Harley Quinn (Margot Robbie)

Se “Suicide Squad” foi aclamado junto da Academia, foi porque esta percebeu como a maquilhagem e os penteados de Alessandro Bertolazzi, Giorgio Gregorini e Christopher Allen Nelson podem vender não só as personagens, como o conceito total do filme. Podem apelar às audiências e levá-las ao cinema. Não é isso que a sétima arte deve ser? O certo é que o seu spin-off “Birds of Prey (e a Fantabulástica Emancipação de Uma Harley Quinn)” pode levar ao triunfo da mesma personagem na categoria de Melhor Maquilhagem por duas vezes. Os nomeados só serão anunciados no próximo dia 15 de março, mas ao integrar a lista de finalistas é já um grande passo dado. Desta vez, a equipa não é composta por homens, mas apenas por mulheres – Deborah Lamia Denaver, Sabrina Wilson e Adruitha Lee (esta última já vencedora do Óscar em 2014 por “O Clube de Dallas”). Que relevância tem? Bem, tendo em conta que “Birds of Prey” é um filme feminista de emancipação de uma super-vilã de Gotham tornada heroína, só artistas femininas seriam capazes de oferecer uma maior autenticidade à sua maquilhagem.

Acresce o facto de “Birds of Prey (e a Fantabulástica Emancipação de Uma Harley Quinn)” ser realizado por uma mulher, Cathy Yan, e o seu elenco ser maioritariamente feminino. Nele encontramos Margot Robbie, Rosie Perez, Mary Elizabeth Winstead, Ali Wong, Jurnee Smollett, Chris Messina e Ewan McGregor, entre outros. Na mesma linha que “Capitã Marvel” (2019) e os filmes de “Mulher-Maravilha”, a obra de Yan quer apelar à indústria e às audiências para aceitação de tramas 100% femininas, igualmente capazes de atingir sucesso nas bilheteiras. Em termos de maquilhagem e penteados há uma explosão de cor e de glamour, tudo de uma forma bastante carnavalesca. Os Óscares gostam disto. 

Birds of Prey (e a Fantabulástica Emancipação de Uma Harley Quinn)
Birds of Prey | © NOS Audiovisuais

De novo, o rosto de Harley Quinn – e os seus figurinos extravagantes e ostentosos desenhados por Erin Benach – são uma expressão externa da sua identidade. O estilo agressivo, faz o espectador levar a premissa da trama e os interesses de Harley Quinn a sério, embora de forma cómica e leve. O fascínio perante Margot Robbie, atriz com alguns traços de Grace Kelly, Marilyn Monroe ou até Nicole Kidman, eleva ainda mais toda a sua caracterização a cada minuto da trama. São os traços criados pelas artistas do respetivo departamento que tornam Harley Quinn selvagem, que tornam a sua companheira Renee Montoya uma mulher decidida, ou Black Canary uma personagem extremamente protetora. São mulheres que sabem o que querem e aquilo que precisam sem serem objetos de desejo fechados em si mesmo. Graças ao trabalho de maquilhagem e figurinos ganham força para deitar abaixo toda estrutura patriarcal.

Vale a pena mencionar um dos momentos mais curiosos da trama de “Birds of Prey (e a Fantabulástica Emancipação de Uma Harley Quinn)” para entender a sua maquilhagem e os seus penteados. Existem realmente referências genuínas a personagens e atrizes icónicas em termos de emancipação. Falemos da sequência de “Diamonds are a girl’s best friend” (“os diamantes são os melhores amigos das raparigas”, na tradução literal). Apesar de ser uma sequência de sonho, é uma referência direta ao filme “Os Homens Preferem as Loiras” (Howard Hawks, 1953), numa das imagens mais evocativas da sétima arte sobre os jogos de poder entre os homens e as mulheres. Há assim uma apropriação da cultura popular, adaptada segundo outro ponto de vista. Se Marilyn Monroe nesse filme era uma mulher relativamente ingénua à procura do seu par romântico, Harley Quinn não precisa disso. Curiosamente, a sequência pisca os olhos ao videoclipe “Material Girl” de Madonna e por sua vez a “Moulin Rouge!” (Baz Luhrmann, 2001), no qual o próprio Ewan McGregor – o inimigo a abater de Quinn em “Birds of Prey” – interpretava o par romântico de Nicole Kidman que também canta essa música.

 

Atualmente, pelas redes sociais e canais de Youtube existem muitos espectadores e fãs de Margot Robbie ou de Harley Quinn a tentar imitar a caracterização de “Birds of Prey (e a Fantabulástica Emancipação de Uma Harley Quinn)” da maneira mais fidedigna possível. Faz sentido sobretudo se gostas de boas histórias comerciais sobre a maior atenção que as mulheres precisam em Hollywood. O público gosta de personagens fortes, com alguma semelhança para com os nossos dias.

Fará, por isso, todo o sentido voltarmos a ver Harley Quinn nos Óscares. As personagens deste spin-off estão à altura do desafio. Ao mesmo tempo, o seu enredo mantém uma certa dinâmica com “Esquadrão Suicida”, consegue estar a um passo à frente pela sensação das personagens serem apresentadas de maneira vibrante. Harley Quinn não tem apenas uma ou duas roupas, tem muitas mais e não tem apenas uma ou duas linhas de lápis de maquilhagem. A nossa psicopata pintarolas merece estar presente no palco (virtual) do Dolby Theatre.

Ainda não viste “Birds of Prey (e a Fantabulástica Emancipação de Uma Harley Quinn)”? A sua sinopse oficial pode ser lida abaixo. Também podes ver o trailer português legendado.

Depois de romper definitivamente com Joker, seu amante, a instável ex-psiquiatra Harley Quinn sente-se uma mulher nova. Ao tentar encontrar o seu lugar no mundo – e escapar de todos os que a querem assassinar –, acaba envolvida numa parceria muito improvável. As suas companheiras no crime são Black Canary, Huntress e Renee Montoya; a missão é impedir os planos do narcisista Roman Sionis, que se autodenomina de Máscara Negra, de tomar de assalto a cidade de Gotham.

Birds of Prey | Trailer legendado em português

Acreditas que “Birds of Prey (e a Fantabulástica Emancipação de Uma Harley Quinn)” pode estar na corrida ao Óscar de Melhor Maquilhagem e Penteados? Será que estará também na corrida ao Óscar para Melhor Design de Produção? Ou ao Óscar de Melhores Efeitos Visuais? Todas as respostas teremo-las a 15 de março quando forem anunciados os nomeados aos Óscares 2021. Fica atento aos nossos artigos especiais.

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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