14º IndieLisboa | Pamilya Ordinaryo, em análise

Pamilya Ordinaryo é um sôfrego melodrama sobre o sofrimento de um casal de adolescentes sem-abrigo que tentam encontrar o seu filho recém-nascido que foi raptado.

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Histórias de pobreza, miséria e marginalização social não são nada de novo nem no contexto do cinema internacional nem no panorama específico do IndieLisboa. Muitas vezes apoiados em estéticas realistas, estes filmes correm sempre um risco de grave hipocrisia ideológica, independentemente de quaisquer boas intenções da parte dos seus cineastas. Falamos do perigo da exploração abusiva e objetificação dos corpos, figuras e narrativas reais em que tais retratos sociais se baseiam. Falamos do repugnante pseudo género conhecido como “poverty porn”, uma comoditização da miséria alheia e distante não com a intenção de sensibilizar, mas sim como condutor de choque lúgubre e veículo para o melodrama.

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Não obstante as claras intenções de sensibilização social contidas no discurso e ideologia dos seus criadores, Pamilya Ordinaryo é um dos casos mais gritantes deste fenómeno sensacionalista no presente IndieLisboa. Esta é a história de Aries e Jane, um casal de adolescentes filipinos que vivem nas ruas e recentemente tiveram o seu primeiro filho, Arjan. Longe de serem idílicas figuras de responsabilidade e união familial, os jovens são criaturas hedonistas que passam os dias a roubar, que desperdiçam rações em nome de uma partida, que gritam com o bebé quando este chora, que têm sexo junto à estrada e se entretêm a snifar cola. Ou seja, pelo menos o filme não os idealiza ou faz de Jane e Aries mártires unidimensionais.

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Por entre a comunidade mais pobre e dos sem-abrigos juvenis, vamos observando a passagem de uma figura ominosa. Ela é Ethra, um travesti ou mulher transgénera (o filme nunca especifica), que se apresenta como um Mefistófeles da urbe filipina, incitando Jane a pedir-lhe um empréstimo para comprar roupas de bebé. Um dia, a pressão de Ethra sobre a jovem lá tem algum resultado e as duas vão comprar fraldas a uma mercearia, onde Jane é ludibriada e deixada sozinha à espera do regresso da sua “amiga” e do filho. Mesmo antes do pânico se instalar na protagonista, já há muito que a audiência se apercebeu do sucedido: Arjan, que, ainda nem trinta dias tinha, foi raptado. A partir daí, Pamilya Ordinaryo desdobra-se numa odisseia sisífia em busca do filho.

Ao longo da sua procura, o casal depara-se com uma miríade de pessoas que ora estão indiferentes ao seu sofrimento, ora o exploram de modo cruel. A sociedade retratada em Pamilya Ordinaryo é um pesadelo de abuso e desumanidade, onde os marginais podem servir como fonte de drama televisivo, como uma boa história para um programa de rádio, como objetos sexuais, como vilões a serem castigados e como pais desesperados dispostos a dar todo o dinheiro em que conseguem por as mãos na fraca esperança de voltarem a ver o filho. Em termos formais, esta mesma ideia atinge a sua apoteose no constante uso de filmagens de câmaras de segurança como presságio do ato criminoso. Estas imagens que olham passiva e superiormente o suplício distante, dão-nos uma visão “objetiva” dos acontecimentos, mas também sugerem um observador desumano, quase divino na sua autoridade mas perfeitamente indiferente a tudo o que vê.

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Tirando esse mecanismo, os restantes elementos formais do filme seguem os ditames usuais do realismo social no cinema contemporâneo. Temos câmara ao ombro que persegue as personagens de modo tão tremido como hostil, isolando-as num mundo que nunca nos é bem definido para além da desfocada periferia que envolve as figuras principais. O som também ajuda a essa desorientação, usando um naturalismo sónico levemente manipulado de modo a sugerir a perspetiva subjetiva dos protagonistas perdidos. De forma geral, não há aqui nada de particularmente interessante, sendo que o filme parece dever muito ao estilo cru e visceral de Brillante Mendonza.

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Algo interessante a denotar é que, de forma geral, a montagem da imagens e uso do som segue essa já referida perspetiva dos protagonistas, a não ser quando o realizador vê oportunidade para chocar o público com uma quebra dessas regras. Uma tortuosa cena passada na esquadra da polícia exemplifica bem isso. Quando Jane é assediada, abusada e forçada por um dos agentes a lhe mostrar os seios lactantes, a câmara quase que adota a perspetiva do abusador, movendo-se da face chorosa da rapariga para o seu peito. A presença de Jane na esquadra já é duvidosa, sendo que mostra uma violenta inconsistência na sua personagem face a forças da autoridade, mas o seu tormento é muito forçado, dramaturgicamente desnecessário e filmado de um modo que trai o discurso estético do filme. Em nome da miséria, estes cineastas estão dispostos a fazer tudo, o que leva a que momentos potencialmente acutilantes como a perda das únicas fotos de Arjan, se tornem em meras roldanas na máquina do choque lúgubre.

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Tudo isso tem o terrível efeito de reduzir Pamilya Ordinaryo a um filme que não é sobre pessoas, mas sim sobre sofrimento e miséria. Combatendo os problemas textuais, os atores ainda tentam salvar o filme, especialmente Hasmine Kilip e Moira Lang como Jane e Ethra respetivamente, mas não é o suficiente para ofuscar as fragilidades narrativas e a falta de criatividade formal. Um poço de miserabilismo sem fundo, Pamilya Ordinaryo não é desprovido de qualidades, mas a sua forma final deixa muito a desejar e parece, num rasgo de desoladora ironia, ser tão insensível para com o sofrimento dos jovens marginais das ruas como algumas das personagens mais antagónicas da narrativa.

 

Pamilya Ordinaryo, em análise
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Movie title: Pamilya Ordinaryo

Date published: 10 de May de 2017

Director(s): Eduardo W. Roy Jr.

Actor(s): Ronwaldo Martin, Hasmine Kilip, Maria Isabel Lopez, Moira Lang, Menggie Cobarrubias

Genre: Drama, 2016, 107 min

  • Claudio Alves - 62
62

CONCLUSÃO

Pamilya Ordinaryo é uma acutilante exploração de vidas marginalizadas na sociedade das Filipinas que, apesar das suas boas intenções, é vítima de um argumento pejado de caracterizações inconsistentes e outras fragilidades semelhantes que o aproximam do repugnante género conhecido como “poverty porn”.

O MELHOR: O modo como o filme nos permite perscrutar realidades distantes das nossas, servindo como uma máquina de empatia poderosa que, infelizmente nem sempre é bem calibrada pelos cineastas.

O PIOR: Para além dos problemas já mencionados, há que se referir como o filme tende a demonstrar um venenoso retrato de pessoas LGBT. Travestis ou mulheres transgéneras são raptoras asquerosas, homens gays são espancados pelos protagonistas em busca de justiça ou então são abusadores que procuram prostitutos jovens nas ruas. Afinal, parece que o filme só consegue ter empatia para com um certo tipo de marginais da sociedade.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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