The Lost Daughter/©Netflix

78º Festival de Veneza | ‘The Lost Daughter’

Maggie Gyllenhaal escolheu Olivia Colman para interpretar Leda em ‘The Lost Daughter’, um filme baseado no romance homónimo de Elena Ferrante. Trata-se do primeiro filme da atriz como realizadora e logo na competição. Um retrato feminino talvez, mais real, que nunca sobre a maternidade.

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‘The Lost Daughter’, trata-se de um filme baseado no romance A Filha Perdida, de Elena Ferrante que marca a estreia na realização de Maggie Gyllenhaall, a jurada de Cannes 2021, a irmã de Jake, a atriz refinada e intelectual que na sua carreira nunca fez escolhas simples e por isso parece muitas vezes que está parada. Basta pensar em ‘A Secretária’ que protagonizou e que se tornou numa espécie de filme-escândalo de 2002; lançou a sua carreira, que atingiu o limiar nos Óscares em 2009, como actriz secundária em Crazy Heart (filme que deu a estatueta a Jeff Bridges). Gyllenhaall decidiu agora dar continuidade à tradição familiar, já que ambos os pais são realizadores e argumentistas: o  seu pai, Stephen, é autor de alguns filmes interessantes, como ‘Paris Trout’ ou ‘Uma Mulher Perigosa’ e de alguns episódios de ‘Twin Peaks’, entre outras coisas. Leda (Olivia Colman) é uma melancólica mulher de quase meia-idade, que está a passar férias num resort à beira-mar na Grécia. Os seus dias são marcados pela presença na praia de uma jovem mãe e da sua filha, acompanhadas por uma família muito peculiar. Presenças essas que desencadeiam um mau-estar vinculado em Leda e no seu passado. Isso, em resumo, para não revelar muito, do brilhante enredo de ‘The Lost Daughter’. ‘A Filha Perdida’ é uma história no feminino que tocou imediatamente a nova realizadora quando leu o romance e pediu a Ferrante para adaptá-lo. O filme é magnífico e um mistério cheio de mal-entendidos, sucessivas e surpreendentes revelações, com várias mães e pais imperfeitos. Faz talvez aquilo que Almodóvar não conseguiu em ‘Madres Paralelas, em que é tudo tão óbvio e previsível. ‘The Lost Daughter’ combina vários géneros, comédia, drama familiar, mistério, mas é sobretudo embelezado com interpretações de alto nível, a começar pela protagonista: Olivia Colman, a vencedora do Óscar de Melhor Atriz Principal por A Favorita, que em Veneza, foi o filme de abertura em 2018, e terminou triunfante a sua temporada de prémios. O mesmo se espera deste ‘The Lost Daughter’. É Colman quem dá corpo e paixão a essa Leda, que não para de olhar para sua jovem mãe Nina, interpretada por Dakota Johnson. Leda também pode ser vista mais jovem e encarnada pela fabulosa Jessie Buckley, uma atriz irlandesa em ascensão (lembramos dela nas duas séries de culto Chernobyl e na quarta temporada de Fargo, mas também no maravilhosa Wild Rose de 2018). O elenco principal inclui também Ed Harris, que como Gyllenhall trouxe seu filme de estreia atrás das câmaras aqui em Veneza: ‘Pollock’ (2000), um filme biográfico sobre o grande artista plástico norte-americano. E como o cinema por aqui nesta Veneza 78, até agora e o próprio ‘The Lost Daughter’, são assuntos de família, não poderia faltar Peter Sarsgaard, o marido da realizadora. Um dos melhores filmes e uma boa surpresa até agora na competição.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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