Fleabag © Amazon Prime

Fleabag, segunda temporada em análise

Depois de arrecadar 6 Emmys, “Fleabag” tornou-se a série de que todos falam. Com idênticas doses de vulnerabilidade, arrogância, humor e paixão e fazendo muito com pouco, a comédia britânica de Phoebe Waller-Bridge atreveu-se a deixar ajoelhados todos os fãs de boa televisão.

Permitam-me um desabafo e um mea culpa, algo que claramente não pediam quando abriram o artigo para ler sobre “Fleabag”. Não me considero nem almejo ser um crítico, assumo-me como alguém que precisa de escrever sobre séries ou filmes para os transpirar e digerir – mais interna do que externamente – como merecem. Por isso sou mais seletivo e, salvo casos pontuais, procuro filtrar e analisar preferencialmente aquilo que acho realmente bom. Aquilo que merece ser divulgado. O mau e o comum ou banal não precisam de ser pisados; e o tempo trata de ignorar a obra que não deixa marcas, sendo importante não esquecer que o mau e o comum são o resultado final da colaboração de muitos, dos sacrifícios de muitos. O mea culpa é breve: em 2018 perdi o tempo certo para escrever sobre “Better Call Saul”, sobre “Sara” e sobre “My Brilliant Friend”. Este ano perdi o timing em relação a “Fleabag”. Felizmente, uma cerimónia invulgarmente justa encheu a série de Emmys, abrindo uma nova janela para me redimir e babar em prosa sobre Phoebe Waller-Bridge.

Em 2013, “Fleabag” nasceu na forma de um monólogo criado para o festival Fringe de Edimburgo, na Escócia. Em 2016 virou série; a mesma série que três anos mais tarde entraria pela porta dos fundos dos Emmys para tomar de assalto elites confortavelmente instaladas, pesos pesados, vencedores expectáveis e galardoados crónicos. A derradeira cerimónia de “Game of Thrones” ou “Veep” tornou-se um banquete servido com chá e o mundo conheceu, finalmente e como deve ser, a mulher que criou também “Killing Eve” e deu uma mãozinha no argumento do próximo James Bond.

Fleabag © Amazon Prime

Há três anos atrás “Fleabag” já tinha na sua essência – e sim, aquele padre faz muita diferença – quase tudo o que contribuiu para o estrondoso e recente sucesso. Na sombra da estreia de “Atlanta” e de uma inesperada segunda temporada de “Master of None” (talvez seja preciso recuar a Dev e Francesca para encontrar a última grande relação platónica da TV antes de Fleabag e do padre), a série da BBC/Amazon estabeleceu desde o começo uma confidente cumplicidade com o espectador. Entre maquilhagem desbotada, roedores, vários one-night stand (um deles com uma espécie de homem-roedor), esculturas roubadas, a quebra da quarta parede (ao nível de Elliot Alderson e Frank Underwood) e uma traição em forma de segredo, Waller-Bridge apresentou 6 episódios muito bons, mas não épicos.

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Só o melhor humor negro de uma autora original, plena de inteligência emocional e descomplexada no modo de observar, comentar e interagir com o mundo em seu redor seria capaz de navegar com tamanha naturalidade por estados de luto, depressão e trauma. Tudo a partir do olhar e da voz de uma protagonista fragilmente segura e de vulnerável confiança. Alguém auto-destrutivo que preferia ser corpo a ser alma. Alguém com a necessidade de esconder atrás do escape da sexualidade e da descontração de uma persona a dificuldade de se entregar, desarmada, em definitivo. Alguém capaz de nos dizer a nós, seu porto de abrigo seguro, o que não conseguia dizer aos outros. Até conseguir.

Fleabag © Amazon Prime

Finda a primeira temporada, Phoebe Waller-Bridge não pretendia fazer renascer a série. A razão era simples: nos 5 minutos finais do sexto e último episódio, envergonhada pela revelação do seu segredo, Fleabag tinha deixado de se relacionar com a câmara, connosco. Até que a autora – numa das decisões mais criativas e marcantes a nível de escrita da televisão recente, materializada no episódio 3 desta segunda temporada – se lembrou do potencial de alguém se aperceber das suas interações connosco.

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A fé cumpre um papel determinante na segunda vez de “Fleabag”. Ora estamos numa igreja ao som de Jennifer Lopez (quem nunca?), ora a acompanhar um padre na sempre difícil escolha da batina certa, ora num banho de imersão a ler a Bíblia (quem nunca?), ora cai um quadro em protesto para com quem não acredita em Deus. Momentos pontuados por um coro voraz e ritmado.

Passado o hiato de 3 anos, é logo desde o ponto de partida que a série mostra que o nível subiu, não se coibindo de avisar na primeira cena “isto é uma história de amor”. Circular na sua estrutura concepcional, o capítulo 1 – considerado nos Emmys o episódio de comédia do ano a nível de realização e escrita – senta a família à mesa num jantar desconfortável com o intuito de celebrar o noivado do Pai e da Madrasta e que acaba num nariz em sangue e num aborto emprestado; funciona na perfeição quase como curta-metragem independente, reintroduz de modo irrepreensível o tom e universo da série e apresenta uma personagem (Andrew Scott passou a ser conhecido como hot priest) fundamental.

Fleabag © Amazon Prime

Tal como “Atlanta” há um ano atrás, a série que foi elevada a fenómeno de 22 para 23 de Setembro tem um brilhantismo difícil de exprimir mas muito fácil de sentir. Possivelmente pela amplitude de emoções que explora, pela verosimilhança na dinâmica do núcleo familiar (ex.: Fleabag e Claire, não confundir com o finlandês Klare, aquilo sim é uma autêntica relação entre irmãs), pela honestidade inapropriada e sem tabus e sobretudo pela forma como despe a sua protagonista, retirando-lhe as defesas e fazendo-a por fim baixar a guarda, perdendo o medo de confiar e confessando apaixonada, desprotegida e de copo na mão o tudo e o nada que quer.

Quer alguém que lhe diga o que vestir todas as manhãs, alguém que lhe diga o que comer, o que gostar, o que odiar, o que ouvir e de que banda gostar, em que acreditar, em quem votar, quem amar e como lhes dizer. Quer alguém que lhe diga como viver.

Num elenco absurdo de tão bom (Olivia Colman é corrosiva com o seu cinismo passivo-agressivo, Sian Clifford uma atriz extraordinária e subvalorizada, Bill Paterson tem o seu momento no sótão, Brett Gelman é adequadamente asqueroso, a convidada Kristin Scott Thomas relaciona os conceitos de mulher e dor numa das cenas do ano, o pecado Andrew Scott deixou o mundo inteiro aos seus pés), Phoebe Waller-Bridge acaba por ser a surpresa da temporada. Talvez por isso tenha batido a superlativa concorrência de Julia Louis-Dreyfus e Rachel Brosnahan, mesmo sem se confundir a obra e a prestação da sua criadora, sem confundir ideias e desempenhos.

fleabag rotten tomatoes
Fleabag © Steve Schofield

À partida, “Fleabag” não vai regressar (Phoebe já revelou em entrevistas que apenas teria curiosidade de recuperar a personagem quando tivesse 50 anos) e só temos que aceitar isso. Da mesma forma que uma raposa (fun fact que parece inventado de tão bom: antes de optarem por uma raposa CGI, a produção tentou filmar a cena final com raposas reais, que só se acalmavam ao som de Coldplay) aceita uma indicação numa paragem de autocarro grafitada em russo, da mesma forma que um cabeleireiro aceita deixar alguém a parecer um lápis (“cabelo é tudo!”), da mesma forma que se aceita o caráter efémero de um Amo-te retribuído mas platónico.

À falta de melhores adjetivos, o génio de “Fleabag” é ser uma série tão pessoal e tão… britânica. É oficialmente a comédia do ano e é uma das obras-primas de 2019 (“Dark” e “Chernobyl” completam para mim o pódio, mas “Succession” está-se a fazer e “Mr. Robot” deve mandar tudo e todos abaixo).

Não preciso do copo na mão, mas é um mínimo ajoelhar-me para curvado e rendido dizer que Phoebe Waller-Bridge é uma Voz que tão cedo não quero saia da minha cabeça. A série sempre foi sobre cura e sobre seguir em frente. Fleabag conseguiu-o, acenando serena um adeus. Para os espectadores será mais difícil… Mas para onde for Phoebe-Waller Bridge, nós vamos com ela.

TRAILER | “FLEABAG”

Agora vá, vão a correr ver ou rever “Fleabag”, que as duas temporadas vêem-se em cerca de cinco horas.

Fleabag - Temporada 2

Name: Fleabag

Description: Um padre ajuda a modificar a visão que Fleabag tem do mundo.

  • Miguel Pontares - 90
90

CONCLUSÃO

O MELHOR – A paragem de autocarro, o confessionário, a raposa, a química surreal entre Phoebe Waller-Bridge e Andrew Scott. O fim, o início e o meio.

O PIOR – Suspeito que se virem a série 20 vezes seguidas comecem a fartar-se. Mas mesmo sobre isso não tenho a certeza.

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Miguel Pontares

Licenciado em Comunicação Empresarial, estudou ainda Escrita de Argumento para Cinema e Televisão. É um dos autores do blog Barba Por Fazer.

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