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Queer Lisboa ’23 | Playland, a Crítica

Exibido a 23 de setembro no Cinema São Jorge, por ocasião do 27º Queer Lisboa, “Playland” é um filme híbrido que homenageia o bar gay do mesmo nome, um pedaço da história de Boston que se viu esmagado por interesses políticos e financeiros. Integra a Competição Queer Art em 2023. 

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“Playland”, a estreia nas longas por parte de Georden West, recupera, ao longo de 72 minutos, sem linearidade narrativa alguma, e através de um encontro multidisciplinar de artes, aquela que foi a história do “The Playland Café”, em tempos o mais antigo bar gay de Boston, em atividade entre 1937 e 1998.

O “Playland” foi em tempos um dos locais mais vibrantes para a manifestação da cultura queer desta cidade, mas a selvática ganância residencial capitalista acabou por condenar o estabelecimento ao encerramento e mais tarde à demolição (no filme, um off na forma da rádio vai-nos informando acerca de muito do que aconteceu, as alegações de prostituição, de violência, da criação de um ambiente inseguro nas redondezas, que, indicia a obra, não passaram de desculpas).

Playland Café Queer
©IFRR

Aqui, pinta-se um retrato daquilo que foi em tempos o bar, numa espécie de história de fantasmas performativa (acima de tudo, “Playland” habita o espaço da performance, do teatro e é mais um híbrido de géneros do que uma obra de ficção), num elogio fúnebre a um espaço e às pessoas que por ele passaram (muitas delas também já partiram, e o filme presta-lhes a devida homenagem).




Incrivelmente experimental e político em natureza, “Playland” aclama pela memória de quem povoou estes espaços, impedindo que caiam no esquecimento, recuperando os eventos cronológicos de uma forma quase atemporal, recordam-nos golpes difíceis, como o momento em que este lugar perdeu a sua licença de bebidas ou fechou as portas.

“Playland” desenrola-se como uma peça de teatro melancólica, povoada pelas marcas do passado. Esta é sem dúvida uma forma invulgar de narrar a vida e fantasmas de um espaço, mas uma capaz de criar um sentido de comunidade e de lugar pleno. Todavia, torna-se uma canção funebre com pouca alegria a partilhar.

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Experimental e livre (e nada senão extremamente fluído), o filme de Georden West viaja através de vários formatos de tela, ao longo dos pedaços de memória apresentados. Parte fictícios, parte documentais (com imagens de arquivo impactantes), parte performance artística.

No âmago da crítica, a natureza puritana da Boston que selou o destino do “Playland Café”, bem como a sua classe política. Toca-se na guerra contra a prostituição, contra a pornografia, contra “o outro” e também na matéria do racismo sistémico. É deveras gritante o constante entre o comentário político que ouvimos na rádio (e as notícias que nos “puxam” para o mundo real) e entre os momentos belos e íntimos que se desenrolam nesta recriação do Playland.

©IFRR

Nesta medida, a reconstituição histórica aqui pensada é astuta, com um forte sentido estético e com décors que conseguem na perfeição apontar para uma alegria exuberante que se perdeu – o fim da linha para um grande legado que aqui é recuperado ao longo de várias décadas.




E apesar dos méritos evidentes, a narrativa não sequencial de “Playland” poderia ter resultado melhor no formato de curta. Volvida a primeira meia hora, o gesto de revolta não deixa de ser sociologicamente interessante, mas vai se tornando menos impactante junto de quem vê. Não obstante, a cenografia destes espaços é bela e envolvente. O sentido de atmosfera é inegável. Contudo, na “Playland” de 2022 já não há vivos, só fantasmas, e esse desgaste faz-se sentir.

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Sim, achamos que a obra se torna algo cíclica nas suas ideias (boas, mas muito repetidas) – gentrificação, ganância capitalista, puritanismo político – e nas suas imagens, tornando-se algo cansativa.

Por exemplo, Lady Bunny,  enorme lenda do drag, tem uma posição elevada nos créditos do filme, como não podia deixar de ser, mas um papel demasiado pequeno – ansiamos pela sua grande persona e pelo momento em que irá gracejar o ecrã e a recompensa tarda em vir.

Quando surge, por fim, está majestosa, mas temos saudades daquele que sabemos ser o seu maior trunfo – a comédia (recordo-me  de uma prestação ao vivo, num espectáculo de “Comedy Queens”, onde o seu número foi o mais aguçado, sexualmente brincalhão e repleto de trocadilhos para lá de astutos). Aqui, temos uma Lady Bunny sóbria e funebre.

Sim, é inegável a beleza do seu lamentoso momento de lipsync, o mais pleno e tocante da obra. Ainda assim, “Playland”, com tanta melancolia, esqueceu-se de que a população queer que povoava o “Playland” continua a sua jornada, cidade e mundo fora, e merece um reconhecimento da sua alegria ao lado da sua tristeza. Onde pára a queer joy?

TRAILER | PLAYLAND NO QUEER LISBOA ’23

Playland, em análise
Georden West POSTER

Movie title: Playland

Movie description: Um extravagante trabalho de história e fantasia queer, Playland invoca os diferentes tempos de uma noite no mais antigo e notável bar gay de Boston. Com um eclético elenco de performers queer, onde se incluem a ícone drag Lady Bunny e Danielle Cooper da série Pose, o filme é transdisciplinar em todos os sentidos da palavra: música, dança, imagens de arquivo, quadros, ópera e performance art, são as camadas que constroem uma obra etérea que subverte todas as fronteiras.

Date published: 28 de September de 2023

Country: EUA

Duration: 72'

Author: Georden West

Director(s): Georden West

Actor(s): Lady Bunny, Danielle Cooper, Maine Anders

Genre: Drama, Performance, Queer

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  • Maggie Silva - 70
70

CONCLUSÃO

“Playland” desenrola-se como uma peça de teatro melancólica, povoada pelas marcas do passado. Esta é sem dúvida uma forma invulgar de narrar a vida e fantasmas de um espaço, mas uma capaz de criar um sentido de lugar pleno. Todavia, torna-se uma canção funebre com pouca alegria a partilhar.

Pros

  • Belíssima criação de sentido de comunidade e retrato de um tempo e de um local sem imperativos da sucessão cronológica auto-evidentes.
  • Grandes prestações por parte das pessoas queer presentes na tela.
  • Sentido de espaço, de lugar sublime, grandes décors.

Cons

  • Algo repetitivo nas ideias e demasiado fúnebre (a alegria e a tristeza coexistem, aqui, e em todo o lado, mas “Playland” é um espaço povoado por espectros).
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