Queer Lisboa Bixa Travesty

Queer Lisboa ’18 | Vencedores e Balanço Final

Marilyn” e “Girl” foram alguns dos grandes vencedores desta 22ª edição do Queer Lisboa, um dos grandes eventos cinematográficos anuais do nosso país.

A 22ª edição do festival de cinema mais antigo de Lisboa terminou ontem, na noite de dia 22 de setembro. Foram nove dias cheios de maravilhas cinematográficas, descobertas e delícias queer. Tudo começou com “Diamantino”, onde o imperialismo português foi alvo de tanta paródia como Cristiano Ronaldo com cachorrinhos gigantes à mistura. No segundo dia começaram as competições, com correspondências entre um realizador brasileiro e um ladrão de livros, as vidas cruzadas de duas mulheres na Islândia e a odisseia pessoal de um prostituto francês em busca de liberdade.

Ao longo dos seguintes dias de festividades, perscrutamos histórias de sereias como metáforas para a puberdade, tivemos sonhos lúcidos nas ruas de Tijuana, imiscuímo-nos no seio de uma família chinesa, vimos o culto de Santa Morte em Queens, testemunhámos uma praga de hortênsias nos Açores, explorámos a história do cinema sobre a epidemia do HIV/SIDA, prestámos homenagem ao altar de Janelle Monée e muito mais. Na noite de encerramento, tudo terminou com “Bixa Travesty”, onde Linn da Quebrada apaixonou todos os espectadores e cantou o valor do transtorno.

Queer Lisboa Marilyn
MARILYN (2018) de Martín Rodríguez Redondo foi o grande vencedor do 22º Queer Lisboa.

Com o fim dos dias de festa cinematográfica, os júris das várias secções divulgaram os seus prémios e os galardões votados pelo público foram também entregues. Aqui pela Magazine HD, a longa-metragem de ficção favorita foi “Tinta Bruta”, mas essa jóia brasileira de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon teve de se contentar com uma Menção Especial. Nas palavras do júri: “Uma narrativa com uma linguagem orgânica sobre uma geração num universo agressivo. Um filme representativo de um país que se tornou uma prisão para as minorias e para a sua juventude.”

Didier Roth-Bettoni, Hugo van der Ding e Leonor Silveira escolheram “Marilyn” de Martín Rodríguez Redondo como o grande vencedor do festival. O cineasta argentino, que assina aqui a sua primeira longa-metragem, ganhou 1000 euros para além do troféu e da honra. A razão do júri foi o modo como Redondo “(…) com uma linguagem nunca manipuladora, um olhar realista que nos propõe um retrato de uma pesada sociedade (…)”. Os atores galardoados foram Kristín Thóra Haraldsdóttir que muito sofre em “And Breathe Normally” e Victor Polster que é “Girl”. O filme belga sobre uma bailarina trans ganhou ainda o Prémio do Público.

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Na Competição de Documentários, o júri composto por Esra Özban, Margarida Leitão e Rui Filipe Oliveira deu o Prémio de Melhor Longa-Metragem Documental a “Room for a Man”. Este ensaio poético e muito pessoal do realizador Anthony Chidiac ganhou assim 3000 euros dados pela RTP2 em pagamento pelos direitos da obra, que será exibida no canal. Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros, que o ano passado ganharam o Prémio do Público, contentam-se este ano com uma Menção Especial do júri pelo seu filme “Cartas Para Um Ladrão de Livros”. O Prémio do Público desta secção foi, este ano, para “Lunàdigas” de Nicoletta Nesler e Marilisa Piga.

Ainda no panorama das longas-metragens, o Queer Lisboa tem ainda a secção competitiva conhecida como Queer Art. Este ano o júri foi composto por Paula Arantzazu Ruiz, Ricardo Teixeira e Victor dos Reis, que atribuíram o Prémio de Melhor Filme Queer Art a “Inferninho”, mais um filme brasileiro a cimentar o domínio desse cinema nacional sobre esta edição do festival. Os realizadores são Guto Parente e Pedro Diogenes que surpreenderam os jurados com a poesia visual e narrativa do seu filme, assim como a celebração ternurenta que faz dos protagonistas. “Martyr” de Mazen Khaled recebeu uma Menção Especial.

Queer Lisboa curtas metragens
WOULD YOU LOOK AT HER (2017), O ORFÃO (2018), MATHIAS (2017) e THREE CENTIMETERS (2018) foram as curtas premiadas nesta edição do festival.

O Júri da Competição de Curtas-Metragens, composto por Maria Leite, Rob Eagle e Thomas Mendonça, deu o Prémio de Melhor Curta-Metragem a “Would You Look At Her”, uma produção macedónia realizada por Goran Stolevski. A RTP2 pagou 1500 euros pelos direitos de exibição desta comédia negra sobre uma comunidade religiosa e uma adolescente queer que luta por se afirmar e quebra muitas convenções pelo caminho. “O Orfão” da brasileira Carolina Markowicz retrata as atribulações de um menino queer rejeitado pelos seus pais adotivos e ganhou tanto o Prémio do Público como uma Menção Especial do júri.

Por fim, na competição In My Shorts, que se foca em curtas-metragens feitas em contexto escolar, o grande vencedor do Prémio de Melhor Filme Escola foi “Mathias” de Clara Stern. A cineasta ganhou equipamento vídeo oferecido pela MUCH Underwear, um dos grandes colaboradores do festival. Os jurados Ágata Pinto, Fernando Galrito e Marta Fernandes atribuíram ainda uma Menção Especial a “Three Centimetres” de Lara Zeidan.

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Ao contrário de algumas edições passadas, o 22º Queer Lisboa teve uma certa carência em grandes obras-primas a brilharem na sua programação. Em contrapartida, o festival ofereceu uma seleção dominada por propostas politicamente transgressivas e com uma qualidade geral bastante alta. Não houve grandes feitos merecedores de canonização cinematográfica, mas também não houve nenhum desastre. Os filmes que lidaram com temas de migração foram particularmente bem-vindos. Vale a pena ainda mencionar que esta edição teve mais espectadores que a anterior, representando um sucesso inegável para a organização do festival que continua a ser um ponto de destaque no calendário de qualquer cinéfilo lisboeta.

Aqui ficam ligações para a dezena de críticas que a MHD publicou como parte da sua cobertura. Basta clicares nos títulos dos filmes para acederes às suas análises:

Não percas as nossas coberturas de festivais de cinema. Todos os anos, a MHD segue os filmes do Queer Lisboa, LEFFEST, festival de Cannes, Berlim, Veneza e o MOTELx, entre outros. Fica atento!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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