© Twentieth Century Fox

Queer Lisboa ’22 | All About Eve, em análise

Como já é tradição anual, parte da programação do Queer Lisboa foi feita em parceria com a Cinemateca Portuguesa. Nesse palácio lisboeta do cinema, desenrola-se um ciclo sobre o Gay Girls Riding Club, um coletivo artístico de homens gay que se dedicou à paródia camp de vários clássicos de Hollywood. Em parelha com esses filmes derivados, também o original é celebrado nesta secção do festival. Tal é o caso de “All About Eve,” também conhecido como “Eva,” obra Oscarizada que viria a inspirar “All About Alice,” o filme do clube que teve honras de abrir este ciclo. Aqui analisamos o filme de 1950, com Bette Davis, Anne Baxter, Celeste Holm e outros grandes nomes do firmamento de estrelas que era a 20th Century Fox.

Há alguns objetos cinematográficos tão famosos e influentes que transcendem a pequenez do seu ser. Tornam-se lendas icónicas, mitos maiores que a vida e que o cinema em si, grandes titãs que fascinam e extasiam lá do alto do cânone, esse Monte Olimpo da sétima arte. “All About Eve,” realizado e escrito por Joseph L. Mankiewicz com base na história de Mary Orry, “Wisdom of Eve,” é um desses monstros magníficos. Em 1950, a produção revitalizou a carreira de Bette Davis e tornou-se num extraordinário êxito de bilheteiras. Os críticos amaram a fita e a indústria também, exaltando o triunfante trabalho com 14 nomeações para os Óscares – um recorde que ainda não foi superado.

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© Twentieth Century Fox

Outro recorde se marcou com as quatro nomeações para o elenco feminino – Davis e Baxter para Melhor Atriz, Holm e Thelma Ritter para Melhor Atriz Secundária. Nenhuma ganhou, mas o feito mantém-se nos anais da história. De facto, apesar das muitas honras, “All About Eve” ganhou somente seis estatuetas. O somente só se justifica pelo número colossal de nomeações, visto que meia dúzia de homenzinhos de ouro é um tesouro invejável. Entre eles, estava o galardão para Melhor Filme e, até hoje, muitos são aqueles que contam o título entre os mais merecedores campeões dessa categoria. Enfim, o prémio é muito e a aclamação ainda é maior, definindo o filme como um desses clássicos intemporais que jamais serão esquecidos.

Mas de onde vem essa adoração? Mais importante para esta análise em contexto de festival, será que se justifica a fama do filme entre a comunidade queer? Para responder a essas questões temos de esquecer o legado e olhar além da lenda, considerando um filme sobre o qual nada de novo há a escrever. A história é clássica, quase arquetípica, centrando-se nas intrigas de bastidores que deflagram pela comunidade teatral. Tudo começa in media res, perfeito exemplo do mecanismo narrativo, aqui adocicado pela melíflua narração de numerosas personagens. Encontra-se o filme numa dessas cerimónias de entregas de prémios teatrais, onde os sorrisos falsos são figurino essencial e o champanhe sabe a veneno.

A jovem Eve Harrington é a mais jovem vencedora do Sarah Siddons Award e, perante a sua pessoa, o ecrã congela e o tempo sustem-se numa respiração contida. A narração contextualiza o momento, saltando de perspetiva em perspetiva, ora seja o venal crítico Addison DeWitt ou Karen, esposa do dramaturgo cuja peça levou Eve à ribalta. Também os planos de reação sem texto passam ideia forte, um desprezo ácido de Margo Channing, antiga estrela dos palcos e grande vítima das manipulações dessa convidada de honra. Logo aqui se denotam as melhores qualidades do filme, desde o afiado trabalho de ator até ao texto, uma milagrosa coletânea de insultos refinados e personagens fortes.

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Também se preza o figurino cheio de insinuações subtextuais, o truque de montagem e o modo como Mankiewicz e companhia tomam partido do milieu teatral para conferirem teatralidade à encenação. Isso só se torna mais evidente quando a ação se precipita para o passado, recordando a ascensão de Eve e seus jogos de mentira e engodo, rumor cruel e psicologia estilhaçada – tudo em nome do estrelato. Considere-se o modo como as cenas se apresentam em jeito comprido, mini-atos de uma peça cómica ao invés de cinema rápido. O estilo não é intrusivo, a mise-en-scène sempre mais interessada em trabalhar no espaço entre corpos do que no poder da imagem capturada em celuloide.

Dir-se-ia que o filme não é sofisticado em termos audiovisuais, não fosse essa abordagem tão bem adequada ao material. Este gesto de negação autoral perante o texto e o ator transcende o trabalho de câmara. Mankiewicz era homem que conhecia e trabalhava com base no poder de estrelas, aprumando o filme às personas dos intérpretes e não o reverso. Longe de deixar o elenco cair na monotonia mecânica de quem repete truque antigo, o realizador leva os preceitos de cada indivíduo a extremos de expressividade e dominância. Nada é mais apropriado para um texto onde o tema principal é a procura de poder por quaisquer meios necessários. O diálogo é memorável pelos floreados, mas há propósito na sua mesquinhez e no modo como é dito.

Tudo trabalha em função dos conflitos internos que regem o enredo e delineiam uma tragédia por detrás da farsa amarga que todos tanto amam. Veja-se o falsear de idolatria com que Eve primeiro conquista Margo, um instinto de predador fazendo-se sentir por entre o espetáculo de lisonja insincera. Nem Baxter nem Eve enganam o espetador, pelo que a facilidade com que ela sucede no golpe diz mais sobre o ecossistema do teatro americano do que sobre sua eficiência enquanto vilã. Tudo isso os atores expressam e muito mais também, orientados por Mankiewicz que aqui reúne uma das performances coletivas mais extraordinárias do cinema. São esses excessos de personalidade aliados a prestações precisas que contribuem para a fama queer da película.

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© Twentieth Century Fox

Bette Davis sempre foi inspiração predileta de muitas drag queens e todo o seu apelo de diva camp aqui atinge sua suprassuma forma. Há a arrogância da vedeta, pois claro, e glamour também. Contudo, essas qualidades são negociadas em conjunto com o grotesco, com a vulnerabilidade de uma mulher insegura sobre a idade e os talentos desta nova rival cheia de fogo e música. Ela sintetiza em Margo todas as suas manias e trejeitos, todo a sua imagem de marca pronta a ser subvertida por um papel que talvez estivesse mais próximo da realidade do que era confortável. Não obstante esses potenciais paralelismos, a prestação nunca se reduz a um exercício metatextual ou a uma paródia de celebridade. Ao invés, é um retrato complexo, ocasionalmente feio e piedoso, que se integra perfeitamente com o resto do elenco genial.

Dava para escrever um livro sobre estas caracterizações, desde a mistura de astúcia e ingenuidade que Holm engendra aos rasgos de fome animalesca por parte de Baxter. George Sanders ganhou o Óscar por DeWitt e muito mereceu essa honra, enquanto Ritter se contentou com uma nomeação por interpretar aquela que é a voz da razão nesta história diabólica. E aí está o maior ponto a favor de “All About Eve” e sua intemporalidade – o filme é profundamente amoral, fugindo à lição e à mensagem e dando asas ao cinismo mais puro e duro que Hollywood já viu. No fim de tudo, Eve não é verdadeiramente uma vilã. Simplesmente é a melhor jogadora num jogo traiçoeiro e, chegada a última cena, até já tem uma fã-rival pronta a usurpar-lhe a glória – um ciclo vicioso sem fim, diva contra diva até o fim do mundo.

All About Eve, em análise
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Movie title: All About Eve

Date published: 21 de September de 2022

Director(s): Joseph L. Mankiewicz

Actor(s): Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Celeste Holm, Thelma Ritter, Gary Merrill, Hugh Marlowe, Gregory Ratoff, Marilyn Monroe, Barbara Bates, Walter Hampden, Randy Stuart

Genre: Drama, 1950, 138 min

  • Cláudio Alves - 95
95

CONCLUSÃO:

Portador de uma ferocidade digna de diva drag e a língua mais afiada na história do meio, “All About Eve” é um desses clássicos eternos da Velha Hollywood, um triunfo que jamais perderá o lustro. Desde um elenco perfeito a um argumento insuperável, este drama com muito humor é uma coleção de génios por detrás e à frente das câmaras, todos eles a trabalharem em alta forma. Nem os limites habituais na realização de Joseph L. Mankiewicz são problema, inserindo-se no milieu de teatro sardónico sem defeito percetível.

O MELHOR: Os atores, o diálogo, o gesto fincado com que Davis recusa mais uma bebida e lança um olhar desdenhoso à sua rival vitoriosa.

O PIOR: Nada a apontar. Até os traços mais homofóbicos que um espetador pode reconhecer no filme acabam por se perder na amoralidade total da obra. Num mundo em que ninguém é santo, também ninguém é legitimamente demonizado pela câmara.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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