"Las Flores de la Noche" | © QueerLisboa

QueerLisboa ’21 | Las Flores de la Noche, em análise

O vencedor na competição de longas-metragens documentais do QueerLisboa 2021 é “Las Flores de La Noche“, um retrato precioso sobre um grupo de jovens trans no México contemporâneo. Esta é a primeira longa-metragem dos realizadores Eduardo Esquivel e Omar Robles.

Mezcala de la Asunción em Jalisco é uma cidade muito pequena e conservadora que vive em comunhão com o maior lago do México. Suas paisagens aquosas servem de pano de fundo para esta fita documental, um retrato coletivo que tanto se interessa pelo elemento humano como pelo ambiente que o envolve. “Las Flores de la Noche” é como se chama o filme, mas também representa o título com que seus protagonistas queer se autonomeiam. Como flores elas desabrocham, mas suas pétalas respondem melhor à calada da noite que à claridade do dia, sua luz quente e impiedosa.

Longe dos olhares acusadores de uma comunidade religiosa, estas jovens trans vivem abertamente e celebram sua mesma identidade. Como é evidente, a vida não se faz só às escondidas e, de facto, estas raparigas lutam para viver abertamente, mesmo durante o dia. Celebrando-se a si mesmas elas praticam aquele tipo de resistência onde o mero ato de existir se torna numa ação política. Estas flores vivem melhor de noite, mas querem também estar abertas quando o sol está alto, querem suportar um furacão que as ataca, uma força que as quer dilacerar, esconder.

las flores del olvido
© QueerLisboa

Contudo, por muito belas que sejam, nem todas são resistentes à censura alheia. Uriel outrora era uma destas beldades noturnas, mas a pressão exterior levou a uma transição inversa, um mergulho de cabeça na “terapia de conversão” e suas ilusórias promessas de cura, de salvação, de resignação às conformidades regentes. Só que, mesmo depois da incursão por esse caminho espiritual, Uriel volta às suas flores, unido por um forte laço que nem a submissão ao preconceito consegue quebrar. “Las flores de la noche” captura esse apego, a magia de uma mini comunidade delineada pela amizade e compreensão mútua.

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Eduardo Esquivel, Omar Robles e o diretor de fotografia Freddy Padilla esforçam-se para cristalizar o júbilo destas moças numa estética de lirismo cinematográfico. Entre jogos de perucas, maquilhagem, brilhantes, concursos de beleza e coroas reluzentes, vemos como o artifício do glamour serve de doce ambrósia, uma falsidade que permite viver autenticamente. Longe dessa esfera carnavalesca, as passagens mais íntimas encontram paralelismos fascinantes entre “Las flores de la noche” e o ambiente geográfico de Jalisco.

las flores del olvido critica queerlisboa
© QueerLisboa

Muito a imagética do lago se afigura como uma expressão natural do tipo de fluidez de género com que este grupo se identifica. Tão flexível é a água, sua capacidade para esticar e desfazer, evocar a rigidez vítrea e tão depressa se quebrar em ondulações sedosas. Tal como a câmara perscruta a beleza de uma identidade humana liberta de binários constritos, também o esplendor molhado a fascina. Em alguns momentos de particular sublimidade, acompanhamos peregrinações individuais ao lago, instantes quando só existe a pessoa solitária e o olho mecânico que a observa. O corpo despido submerso na magia líquida é um quadro que assombra.

Por muito que essa virtuosidade fotográfica sugira uma melancolia poética, “Las flores de la noche” é uma película que repudia uma leitura trágica com tanta fúria como rejeita os paradigmas da heteronormatividade. De facto, essa busca pela alegria é o elemento mais poderoso do filme e também aquele que mais desculpa a amorfia da montagem, da estrutura. Tanto o trabalho depende da emoção e da ideia de fluidez que a falta de discurso bem arquitetado se subsume a um detalhe incidental. Alexa, Gardenia, Violeta e Uriel são o centro da fita e, ao longo de “Las flores de la noche” quase sentimos uma partilha de amizade. O filme é uma homenagem, mas também é um convite. As flores estendem-nos a mão e convidam-nos a sermos flores também. Quem tem coragem de seguir esse caminho? – Essa é a questão.

Las Flores de la Noche, em análise
las flores de la noche critica queerlisboa

Movie title: Las Flores de la Noche

Date published: 30 de September de 2021

Director(s): Eduardo Esquivel, Omar Robles

Genre: Documentário, 2020, 85 min

  • Cláudio Alves - 72
72

CONCLUSÃO:

Terno e delicado, “Las flores de la noche” é um retrato coletivo e uma belíssima homenagem ao poder da amizade que nasce da convivência honesta e da partilha íntima. Os traços de melancolia na imagética jamais sufocam a celebração de alegria unificante. Assim se vai refletindo uma resistência política que existe no simples ato de viver e ser feliz apesar de todas as forças sociais que tentam impedir tal fado. Quer seja na luz ou na escuridão, estas flores abrem-se e mostram suas cores vibrantes, seus perfumes sedutores, um néctar de liberdade própria.

O MELHOR: As protagonistas da vida real e fotografia aquosa.

O PIOR: A falta de estrutura. Os realizadores passaram quatro anos com estas quatro flores e percebe-se que há uma generosidade muito grande no seu olhar, uma vontade de mostrar tanto material que a forma geral do filme cai sobre o peso da ambição.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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