Trine Dyrholm em "Rainha de Copas" (2019) © Nordisk Film Production

Rainha de Copas, em análise

Rainha de Copas é uma das melhores obras do cinema dinamarquês do último ano, com uma interpretação transformadora de Trine Dyrholm. A sua estreia acontece em exclusivo em streaming. 

Estreia hoje, no âmbito da iniciativa Bold X6 – Ainda Não Viste Tudo, “Rainha de Copas” o mais recente e hipnótico filme de May el-Toukhy, realizadora e argumentista dinamarquesa de origem egípcia. O drama reflete sobre um segredo familiar, que nasce da relação entre Anne (Trine Dyrholm), uma mulher na casa dos quarenta, e o seu enteado de 17 anos Gustav (Gustav Lindh), tratando-se de um dos mais subtis enredos sobre o poder dos abusadores sexuais e a fragilidade das suas vítimas, com interpretações que parecem saídas de um filme de Alfred Hitchcock.

Rainha de Copas” venceu o Prémio do Público no Festival de Sundance em 2019 e foi selecionado pela Dinamarca para o Óscar de Melhor Filme Internacional nos Óscares 2020. Acabou por não ser nomeado, mas a escolha foi no mínimo arriscada, tendo em conta que a denúncia de assédios sexual e moral têm vindo a dominar em Hollywood, desde o eclodir dos casos contra o magnata Harvey Weinstein. Certamente, os mais rigorosos defensores do Time’s Up e do #MeToo, consideraram que o filme veio subverter os princípios dos seus movimentos e, por isso, passaram-lhe ao lado. No entanto, ainda é mais peculiar quando descobrimos que esta longa-metragem foi escrita por duas mulheres, May el-Toukhy com Maren Louise Käehne, realizada por uma mulher e protagonizada por uma mulher, na casa dos quarenta. Tudo para mostrar que o assédio não é uma questão circundante à demonização do sexo masculino e, consequente, vitimização do sexo feminino.

Mesmo assim, o olhar sensível de May el-Toukhy não tenta identificar onde está o bem e o mal nesta luta de géneros, pois não nos oferece personagens unilaterais. Temos personagens intensas de facetas multíplices. A cineasta esmiuça a ideia pré-concebida de que os relacionamentos entre mulheres adultas e adolescentes é mais romantizado, do que uma relação entre uma adolescente e um homem maduro.

Rainha de Copas
Trine Dyrholm e Gustav Lindh em “Rainha de Copas” (2019) © Cinema BOLD

Anne é uma mulher que vive um mundo perfeito e invejável. Advogada bem-sucedida de jovens indefesos e vítimas de abuso, Anne vive numa casa modernista com as suas filhas gémeas Frida e Fanny (as Liv Esmår Dannemann e Silja Esmår Dannemann), fruto da relação com o médico Peter (Magnus Krepper), um homem viciado em trabalho, que tem um filho problemático de uma relação anterior. Inicialmente reticente face à vinda do enteado, Anne acaba por ver em Gustav um escape ao tédio familiar. O relacionamento secreto começa na atmosfera rural e cálida do verão nórdico, em que os dia são mais longos e as águas calmas dos lagos permitem mergulhos relaxantes, sendo que um simples toque ou atirar de água ao corpo do outro, possíveis de despertar em Anne os sentimentos mais recônditos, que ela própria havia esquecido. Aliás, este cenário soalheiro, que pouco vezes vemos em filmes escandinavos, parece ser uma forma de criar um ambiente onírico, levando o espectador a esquecer que o relacionamento é tido como moral e judicialmente incorreto. E mais do que o espectador, Anne sabe do erro que comete, porque reflete aquilo que tem lutado contra, ao longo da sua carreira nos tribunais.

Comecemos pela parte vista como a mais controversa do filme e que poderá ser uma barreira para o seu visionamento. “Rainha de Copas” tem cenas explícitas de sexo, pouco habituais em filmes sobre a temática da violação sexual, muito menos quando são as mulheres representadas como agressoras. Porém, este tom erótico não visa preencher uma potencial fraqueza narrativa, como acontece em vários filmes americanos (temos os desprezíveis “Cinquenta Sombras”, como exemplo), muito pelo contrário. Mais do que visão “carnal”, a cineasta e argumentista May el-Toukhy procura que o espectador mergulhe na psicologia do desejo das personagens. O desconforto gerado no espectador pela sexploitation é só uma forma sofisticada deste entender toda a complexidade em torno da personagem de Trine Dyrholm e o núcleo familiar onde está inserida.

Se as sequências mais intensas entre Anne e Gustav são sinónimo de libertação, o “amor” entre Anne e Peter é filmado com uma outra tonalidade, dando-nos a entender uma certa inibição da protagonista em se submeter ao marido. Curiosamente, quando tenta ser dominante e agressiva, percebemos a inquietude de Peter, que aos poucos se revela uma personagem influenciável e débil, piscando o olho à perca do poder do patriarcado na contemporaneidade.

Rainha de Copas
Trine Dyrholm e Gustav Lindh em “Rainha de Copas” (2019) © Nordisk Film Production

As dicotomias destas relações permitem a May el-Toukhy decompor a própria sociedade burguesa da Dinamarca, que não é “tão feliz” como várias vezes repetem os índices de felicidade mundial. Por exemplo, Anne e Peter adoram dar festas e reunir os amigos, passando a ideia hipócrita de que tudo é perfeito quando, na realidade, o seu casamento monótono trata-se apenas de uma via para salvaguardarem os seus papéis sociais. Pelas leis impostas no ocidente, Anne e Peter foram absorvidos por uma sociedade de aparências, enraizada em ideais obsoletos de que duas pessoas bem sucedidas profissionalmente, serão igualmente realizadas no plano familiar. Não será por mera coincidência que aquela casa idílica está localizada numa floresta, servindo quase de gaiola daqueles dois pássaros sem asas…. Curioso, como a certo momento Anne procura esquecer os problemas e tagarelices entre os seus convidados e só quer dançar ao som de “Tainted Love” dos Soft Cell e todos nós sabemos o que diz a canção…. O seu desejo sexual por Gustav nasce, portanto, como consequência do seu inconsciente desejo de fuga do ambiente familiar, idiossincrasia do próprio género melodramático.

Quando Anne desperta da ilusão para a realidade, percebemos que ela não só vive presa aos moralismos da sociedade em seu redor, como começa a estar encurralada nas suas próprias mentiras. Mas não odiamos Anne, não há como. Embora seja uma personagem bondosa para as vítimas que protege em termos de trabalho, vai percebendo aos poucos as consequências dos seus atos no plano familiar, sendo uma das vítimas da condição humana. Sem revelar demasiado, Anne até poderia ser vista como espelho da femme-fatale. Aproxima-nos dessa ideia, a sua desmedida capacidade em ser cruel amarrada ao seu erotismo. O que Anne não tem da mulher fatal seja talvez alguma da juvenilidade, comum às mulheres fatais dos films-noir hollywoodescos como “Gilda”. Mesmo assim, esta é uma mulher que na hora de se contemplar nua ao espelho, não vê apenas uma mulher madura com rugas e estrias, mas alguém que aceita o seu corpo e toma a sua sensualidade (e sexualidade) como algo ousado.

Honestamente, desde “A Primeira Noite” (Mike Nichols, 1967), têm existido vários filmes empenhados em aprofundar os micro-universos de mulheres adultas que desencadeiam as suas fantasias mais ocultas com amantes bem mais jovens. No entanto, “Rainha de Copas” está mais próximo a filmes como “O Porteiro da Noite” (Liliana Cavani, 1974), “Escândalo” (Salvatore Samperi, 1976) ou até a “Ela” (Paul Verhoeven, 2016), pela representação de mulheres que quebram com a ideia da mulher-mãe presa ao ambiente doméstico. “Rainha de Copas” é quase uma mostra do outro lado da moeda de uma mulher intrigante, mas que não precisa de ser completamente tresloucada para expor os seus pensamentos. A mise-en-scène de May el-Toukhy relembra até os filmes do seu conterrâneo Thomas Vinterberg, em especial “The Hunt – A Caça” (2012), onde a temática do assédio também foi trabalhada.

Queen of Hearts
Trine Dyrholm e Magnus Krepper em “Rainha de Copas” (2019) © Nordisk Film Production

Se o título original “Dronningen” quer dizer rainha em português, a distribuidora nacional do filme acabou por ir mais longe e traduziu-o como “Rainha de Copas” (talvez como aconteceu com o título em inglês “Queen of Hearts”), remetendo o espectador para a memória cultural em torno da personagem do clássico “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll. Aliás, quer o filme quer o livro mostram-nos como a chegada de alguém jovem ao reino das maravilhas pode desestabilizar e colocar em causa o poder de uma monarca complicada. Em várias sequências percebemos também que essa é a história de adormecer preferida das gémeas Fanny e Frida, que poderiam ser Tweedledum e Tweedledee desta película – afinal, estão sempre vestidas de igual, têm sempre os mesmos presentes e até partilham o mesmo gosto pela equitação. Anne tem também uma irmã que se aproxima à Rainha Branca, com quem tem vários atritos e que nunca chegou a obter a projeção profissional desejada. Há, inclusive, uma presença importante dos espelhos com imagens borradas, novamente como um jogo de ilusões.

Mas se “Rainha de Copas” tem muito de “Alice no País das Maravilhas“, onde é que estão os relógios? Bem, os  relógios também fazem-se presentes na direção de fotografia de Jasper J. Spanning e na forma como a câmara filma as árvores, no sentido contrário aos dos ponteiros do relógio. Além disso, temos planos mais luminosos ao início, quando a relação entre Anne e Gustav tem toques de alguma inocência e ilusão, que contrastam com as sombras e o ambiente mais frio e retraído da segunda parte, no qual observamos até onde uma pessoa poderá ir para proteger-se. A acompanhar a fotografia, temos a banda-sonora original de Jon Ekstrand que, pouco a pouco, prolonga a ansiedade gerada pela história e repete o encolerizante som do tic-tac do relógio. Muita associada a esta questão está, inclusive, a perspicaz a construção da narrativa. A ilusão criada pelo filme levanta uma série de questões, mas o mais pertinente é o facto da história parecer revelar os remorsos que acompanharão Anne até ao resto da sua vida (e que está além do próprio filme). Afinal, ela é uma pessoa bondosa que também pode cometer erros graves.

Enfim, por irónica força das circunstâncias, a estreia de “Rainha de Copas” não acontece em sala de cinema, mas em plataformas de video-on-demand. A obra poderia ser mesmo rodado em tempos de quarentena, uma vez que nos conduz a uma casa escondida, entre a floresta dos subúrbios de Copenhaga, e onde uma família tenta reestabelecer os seus laços desfeitos. À parte disso, “Rainha de Copas” prevalecerá não só como estudo de uma agressora e do caos que desponta, mas essencialmente uma mulher que se engana a si mesma e que, pelos preceitos ocidentais, não pode escapar de onde sempre quis. Talvez alguns espectadores sintam total empatia com Anne e a compreendam, outros talvez irão considerá-la uma personagem perturbada. Mas essa é a força da interpretação catedrática de Trine Dyrholm, que garante a multiplicidade de leituras do caráter de Anne. Só isso, já valerá o aluguer do filme, que confirma a atriz como a atual rainha do cinema nórdico.

Com toques de um thriller hitchcockiano, “Rainha de Copas” está disponível na plataforma de streaming FILMIN Portugal e, inclusive, nos videoclubes das televisões portuguesas da MEO, NOS, Nowo e da Vodafone. Assiste aqui!

Rainha de Copas, em análise
  • Virgílio Jesus - 90
90

CONCLUSÃO:

O MELHOR: A interpretação completamente transformadora de Thrine Dyrholm e o facto do filme não se limitar ao caráter pejorativo da sua personagem.

O PIOR: “Rainha de Copas” poderá parecer um pouco lento na forma como tenta criar a atmosfera fria envolvente aos protagonistas. Alguns dos espectadores habituados ao frenetismo de histórias de suspense hollywoodescas poderão considerá-lo maçador.

VJ

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Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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