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Ciclo Satyajit Ray | Charulata, em análise

O ciclo de Satyajit Ray continua com a chegada de uma das maiores obras do cineasta, “Charulata”.

FOGO QUE ARDE SEM SE DAR A VER…!

Uma obra-prima do cinema universal, CHARULATA, 1964, encerra por agora a abordagem que aqui fizemos do Ciclo dedicado a Satyajit Ray que, nesta longa-metragem considerada a sua favorita, volta a assinar o argumento, a realização e a banda sonora musical, numa afirmação autoral sem margem para dúvidas. E a música, e neste filme o canto, possui uma dimensão estrutural imprescindível para a compreensão da proposta ficcional e do pulsar das paixões exacerbadas que os protagonistas e improváveis amantes partilham sem consumar, consolidando uma atmosfera verdadeiramente melodramática, no sentido nobre da palavra, que qualquer espectador poderá sentir em pleno ao longo da narrativa, até ao desenlace final que já está para além da dimensão humana, da materialidade das relações dentro e fora da célula familiar. Nesses momentos derradeiros, entramos na dimensão mais espiritual que corre sem freio como o caudal de um rio em fúria, mas condicionado pelas margens que o apertam. Nessa altura damos de caras com a síntese da manipulação puramente cinematográfica das imagens e dos sons, assim como da história e dos que lhe dão corpo, a alma combinada com a substância da matéria.

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Mas, antes de passarmos ao filme propriamente dito, recordemos aqui um nome fundamental na formação do jovem Satyajit Ray, o poeta, dramaturgo, filósofo, compositor, pintor e Prémio Nobel da Literatura, Rabindranath Tagore (1861–1941).

Charulata
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Este homem, que se pode colocar ao lado de um Walt Whitman nos Estados Unidos, foi como ele activista que não deixou de olhar para as questões sociais do seu país. Em 1921 fundou a UNIVERSIDADE DO MUNDO, VISVA BAHRATI, não muito longe de Calcutá, se considerarmos a percepção das distâncias num país imenso como a Índia. Em 1940 ali ingressa o adolescente Satyajit Ray, dando início aos seus estudos no campo das artes. Não obstante a sua passagem pela universidade não coincidir em grande medida com a vida do mentor do chamado RENASCIMENTO BENGALI, que iria falecer um ano depois, esse facto não impediu que o futuro cineasta acabasse fortemente influenciado pela sua personalidade e pela sua herança nos domínios apontados e, para o que nos interessa nesta análise, sobretudo na componente política, literária e artística. De facto, o argumento de CHARULATA constitui a adaptação para cinema do romance Nastanirh, publicado em 1901, originalmente escrito na língua bengali e que em português se poderia chamar O Ninho Quebrado. E que ninho vem a ser este? Satyajit Ray, com a sua habitual capacidade para nos dar, por vezes logo no genérico inicial, uma visão clara e, quase diria, “profética” do que mais para frente vai connosco partilhar, mostra-nos uma mulher, Charu, petit-nom de Charulata (fabulosa presença da grande actriz Madhabi Mukherjee), primeiro a bordar um lenço, depois em movimento pelos corredores e salões da casa onde se encontra encerrada entre mil e uma paredes e um labirinto de quartos, uma casa da alta burguesia de Bengala. Damos conta da sua solidão, mas damos conta igualmente de que se diverte a observar, com os seus binóculos de ópera, as pessoas que circulam no exterior onde, por contraste com a confortável protecção do lar, o sol bate impiedoso sobre os corpos, pertençam eles ao mais comum dos mortais ou ao mais circunspecto cidadão, cujo sistema de castas os diferencia de um modo muito visível no quotidiano que Charu regista, com o seu olhar atento e curioso, como se vivesse num mundo paralelo, ou melhor, por viver precisamente num mundo segregado onde na verdade encontra o seu microcosmos de bem-estar e luxo, base do seu equilíbrio existencial. Trata-se de uma situação privilegiada que no entanto a sufoca, não a deixa respirar outros ares que não sejam os raros vendavais que penetram no interior invadindo a normalidade rotineira do lar, doce lar. Notável a ironia amarga que se depreende do gesto de Charu que, face ao desapego do marido pela jovem mulher, o observa de longe, com os mesmos binóculos, como se ele fosse não um ser ausente mas uma figura fora do seu alcance, como o povo da rua. Mas a aparente ausência de interesse do marido, Bhupatinath Dutta (papel defendido pelo notável actor Shailen Mukherjee), deve-se ao facto de ele ser um homem de boas intenções que passa os dias e, presume-se, as noites a congeminar artigos de natureza política que publica no seu jornal em língua inglesa, “The Sentinel”. Este periódico possui uma linha editorial que defende, numa perspectiva nacionalista e militante, uma nova via para a Índia no interior do Império Britânico, assumindo os ecos de uma possível independência. Há que dizer que a acção decorre em 1879. Satyajit Ray precisa o ano numa sequência rodada no local onde o jornal se imprime, ou seja, no auge da agitação gerada pelo Renascimento Bengali, de que o já citado Rabindranath Tagore foi um dos nomes de maior relevo. Para atenuar a solidão da mulher, o marido vai chamar o irmão de Charu, a quem promete um lugar de contabilista, que veremos depois ser um erro de monta, e com ele virá a mulher do dito, mais para fazer companhia a Charu do que para ajudar seja no que for. Mas nada desta atmosfera familiar daria início a uma revolução no interior da sua casa, nada iria quebrar o ninho, se o primo de Bhupatinath Dutta não aparecesse para desequilibrar esta rotineira equação. Ele, Amal (papel confiado, e bem, a Soumitra Chatterjee), rapaz muito diferente do dono da casa, não se interessa por grande coisa, muito menos pela política, dedicando as suas horas perdidas no gozo da boa vida, da boa comida e no deambular pelos espaços de um círculo íntimo onde de forma hedonista se pavoneia sem grande esforço, dedicando-se sobretudo aos meandros da arte poética. Neste contexto, Charu vai gradualmente sentir a sua presença como um vento de mudança, algo que a desafia a seguir por caminhos mais arriscados onde o prazer se atravessa, não necessariamente o de carácter físico, mas o que se manifesta, porventura com mais fulgor, no pulsar de uma paixão que se instala, pouco a pouco, e que crepita no seu coração como um fogo que arde sem se ver. Mas nós vemo-lo, e bem, no olhar de Charu. São vibrantes as cores inflamadas do braseiro que lhe vai na alma. Cada olhar que lança a Amal queima. Cada gesto que assume perto dele resulta de uma coreografia corporal cada vez mais intensa do ponto de vista sensual. Magnífica a sequência do baloiço no jardim, com a câmara apontada ao rosto em plano próximo de Charu, fazendo com que o baloiçar seja sentido pelos olhos de quem observa, mas igualmente os planos em movimento de Amal, languidamente deitado em busca de inspiração, que correspondem ao ponto de vista de Charu, que o olha sem ele notar. Pormenor delicioso, a inserção ritmada, e por mais do que uma vez, do pé de Charu que, fincado no chão ao jeito de uma mola, permite dar continuidade ao movimento pendular que inicialmente Charu pedira a  Amal. Um empurrãozinho que vale por mil palavras, o contacto físico que mal se sente no afloramento de uma sensibilidade ou de um jogo de emoções, muito ligeiro, mas que resulta materialmente sólido no quadro de aproximação daqueles que vivem condenados a relações distantes, fruto de uma “natural” impossibilidade de assumir a liberdade de um desejo legítimo que se reprime por razões legítimas, que ultrapassam a própria noção de pudor ou recato. Relações algo impossíveis, determinadas pelas regras do jogo social e do casamento, sobretudo numa sociedade com uma forte identidade de classe, mesmo entre iguais. Tudo isto perdura na memória, e a partir daqui seria impossível economizar palavras para descrever a elegância e o virtuosismo artístico com que Satyajit Ray descreve a subida ao céu de uns e a descida aos infernos de outros, onde os anjos e os demónios se misturam com as vitórias e derrotas do quotidiano. Por um lado, o clamor com que se recebe da distante Inglaterra a eleição dos Liberais que permite vislumbrar uma mudança no futuro próximo da Índia, um novo rumo para um povo subjugado pelo domínio colonial e imperial. Por outro, a canalhice engendrada pelo protegido irmão de Charu, que dá uma facada criminosa nas finanças de Bhupatinath Dutta, comprometendo o seu projecto jornalístico e estatuto de homem forte dos meios mais influentes e cultos de Bengala. Pelo meio, o filme reforça com música os momentos mais altos, quer os do amor subliminar, quer os que apelam ao sentimento patriótico. Duas grandes sequências fazem parte desta opção: aquela que Amal protagoniza ao cantar de forma exemplar uma canção de exaltação sentimental, que de certo modo completa a canção quase celestial que Charu entoa durante a citada cena do baloiço, e a do sarau musical organizado para comemorar a vitória na longínqua Europa de políticos, como William Gladstone, que os indianos julgavam ser-lhes favoráveis.

Charulata
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Mas CHARULATA possui muito mais para além da explosão dos conflitos emocionais, sobretudo o drama de uma mulher numa dialéctica permanente entre a casa que habita, o mundo e o homem que ela a certa altura quer agarrar com vigor, soçobrando por uma vez face a uma inevitável separação de Amal. Neste filme são visíveis os elementos estruturais que o catapultam para a pontuação máxima na filmografia do realizador. Nota máxima para a Direcção Artística e para aquela casa profusamente decorada com os adereços certos nos locais certos, para nos dar a noção de uma Índia a meio caminho entre a sua cultura milenar e o peso e presença do estilo da época vitoriana. Nota máxima para a Direcção de Fotografia, em que Satyajit Ray assume a função de operador para melhor defender a sua ideia de planificação, algo que fazia com rigor e arte, por ser um exímio artista gráfico mas igualmente um homem em busca de uma visão precisa sobre o que desejava filmar. Muitos dos cartazes publicitários dos seus filmes foram por ele desenhados. Já o dissemos, peça fundamental, a música composta pelo autor. Muito mais “cinematográfica” do que a de Ravi Shankar, que com ele colaborou na fase inicial da sua obra. E, senhoras e senhores, nota máxima para os actores, protagonistas e secundários, que permitiram a Satyajit Ray concretizar esta obra maior da História do Cinema.

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Charulata, em análise
Satyajit Ray Charulata

Movie title: Charulata

Date published: 22 de September de 2022

Director(s): Satyajit Ray

Actor(s): Madhabi Mukherjee, Soumitra Chatterjee, Shailen Mukherjee

Genre: Drama, 1964, 117min

  • João Garção Borges - 100
  • Cláudio Alves - 100
100

Conclusão:

PRÓS: Tudo o que foi dito e mais o que se não disse.

No Festival de Berlim de 1965, Satyajit Ray recebeu o Urso de Prata para a Melhor Realização.

Na verdade, o Ciclo Satyajit Ray está prestes a dar lugar a outras e importantes retrospectivas, nomeadamente a dedicada a Rainer Werner Fassbinder (mais uma vez pela mão da LEOPARDO FILMES e MEDEIA FILMES). Mas quem quiser levar para casa as seis longas-metragens que foram exibidas na revisão da obra do cineasta bengali pode adquirir um pack com seis DVDs, a saber, por ordem cronológica: A GRANDE CIDADE (1963)CHARULATA (1964)O COBARDE (1965)O SANTO (1965)O HERÓI (1966) e O DEUS ELEFANTE (1979). E, ao contrário dos preços alucinados da CRITERION, a um valor bem acessível.

CONTRA: Nada.

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