Charlotte Gainsbourg no SBSR 2019 (foto de Margarida Ribeiro)

SBSR 2019 | Charlotte Gainsbourg reclassifica

No segundo dia do festival SBSR, nomes como Phoenix, Charlotte Gainsbourg e Shame envidenciaram o poder que a performance ao vivo tem.

Depois de um primeiro dia cheio, olhando para o cartaz era de prever que o segundo dia do festival tivesse menos afluência. De facto teve, notando-se grande diferença no número de pessoas que se dispunha em redor do palco principal. O dia foi marcado por nomes não tão estabelecidos e não tão comerciais, comparativamente aos outros dois dias. De antemão, íamos já de olhos postos em Calexico and Iron&Wine, Shame, Charlotte Gainsbourg e Phoenix. Todos eles subverteram qualquer ideia pré-concebida que houvesse do lado de cá do que seriam as atuações no lado de lá.

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Com Calexico and Iron&Wine, confesso que as minhas expectativas saíram ligeiramente frustradas, tendo sido Gainsbourg e Phoenix as grandes surpresas. Os Shame deram outra cor às suas canções de louvor, trazendo-nos também material novo.

SBSR 2019: Calexico and Iron&Wine©Margarida Ribeiro
SBSR 2019: Calexico and Iron&Wine©Margarida Ribeiro

COM CALEXICO AND IRON&WINE, NA RELVA MAL NÃO SE ESTARIA

Pelas suas sonoridades country e folk, Calexico and Iron&Wine eram, neste segundo dia, a atuação mais esperada por este redator. Assim sendo, quinze minutos antes do início do concerto aproximei-me do Palco EDP, tendo-me cruzado com Fugly, uma ruidosa banda nacional que me suscitou curiosidade. Aproximei-me do palco, não havendo qualquer dificuldade em chegar às barreiras. Como já acontecera ontem com Marlon Williams, as sobreposições desfasadas obrigavam a deixar a colaboração a meio e rumar ao palco principal, para Shame.

No entanto, hoje foi mais fácil trocar um artista pelo outro. Apesar de um bom repertório, a plateia demonstrou-se um tanto passiva e, no que toca a cativar, o grupo foi moderado. Certamente as minhas altas expectativas terão contribuído para tal, mas, desta vez, o lugar em primeira fila pouco acrescentou à experiência. Teria, talvez, ficado igualmente bem servido, sentado na relva, uns metros mais atrás.

SBSR 2019: Shame©Margarida Ribeiro
SBSR 2019: Shame©Margarida Ribeiro

APESAR DE SEGURANÇAS POUCO SATISFEITOS, PROSSEGUIU-SE SEM VERGONHA

De forma a conseguir um lugar privilegiado, dirigi-me ao Palco Super Bock uns dez minutos antes das 19h15, hora de início da performance de Shame. Consegui, de forma igualmente simples, um espaço mesmo à frente. Aqui era clara a diferença no número de festivaleiros de um dia para o outro, havendo muito pouco público aquando a entrada em palco da banda britânica, comparativamente a Cat Power, que brilhara no dia anterior, à mesma hora, mesmo sítio.

Contudo, à medida que a atuação se desenrolava, foi aumentando a concentração de pessoas em frente ao Palco Super Bock. Como anteriormente no Palco EDP, os Shame não foram de encontro ao que formulara mentalmente, desta vez, por excesso. Se, em Songs of Praise, Shame exibiam a sua intensa energia, aqui, no palco principal, as canções ganharam outro nível de agressividade que os habituais auscultadores ainda não tinham comunicado.

O aclamado álbum de 2018 não foi o único material que a banda trouxe ao Meco. Ainda relativamente no princípio, o vocalista explicou que, para além dos temas já conhecidos, viriam também umas “newer songs”, referindo-se a um próximo álbum do grupo, que, pelos vistos, vem a caminho.

Toda a performance de Shame foi elétrica, sobrando para os quatro ou cinco pobres coitados que tinham a ingrata função de guardar a fronteira entre o palco e os fãs. O baixista, Josh Finerty, corria e saltava de um lado para o outro, acabando mesmo por derrubar suportes de microfone. No entanto, o que deixou os seguranças de rastos foi a atitude do líder da banda Charlie Steen. Durante a atuação, houve dois momentos de crowd surfing por parte deste, que, embora já fosse espectável, não deixou de requerer a forte atenção da equipa. O ponto alto desta tripla interação entre Steen, plateia e seguranças foi quando o artista abriu uma garrafa de água. Depois de a abrir, atirou a tampa em direção aos fãs, não passando das colunas. Sem desistir, deu um golo e, de seguida, um chuto na garrafa aberta, que, desta vez sim, voou até ao público, salpicando dois dos seguranças que se encontravam mais próximos. Compreensivelmente, houve uma cómica (pelo menos para mim) troca de olhares e esgares entre ambos. Mas, quer dizer, como Steen proferiu no final, “Shame, Shame, Shame. It’s our fucking name”. Estavam à espera do quê?

Christine and the Queens©Margarida Ribeiro
SBSR 2019: Christine and the Queens©Margarida Ribeiro

POLÍTICA, MUITOS DANÇARINOS E OUTRAS COISAS PARA FAZER PELO PALCO PRINCIPAL

Depois de Shame no principal do SBSR, atuaria Christine and the Queens. Juntando uma certa curiosidade à falta de outros nomes apelativos àquela hora, sentei-me na bancada a assistir ao espetáculo. Desde o princípio que sobressaía o magote de dançarinos em palco, nos quais Chris se integrava. Com o avançar da performance, também se tornou clara a tónica política, ou, pelo menos, de protesto. Protesto talvez seja mesmo mais exacto, pois, à exceção de alguns momentos em que era feita uma crítica específica, os comentários da cantora não passavam de vaga diatribe. A francesa apostou no discurso de “nós contra a sociedade”, como se nós, ali naquele recinto, fôssemos elementos exteriores a este último conceito. Pelo contrário, a música é assertivamente apelidada de linguagem universal, unindo qualquer um que se queira juntar, do que Christine and the Queens eram a prova viva. Mesmo para mim, não percebendo nada de francês, quando a artista usava este idioma, não me sentia de fora, pois a música mantinha-me lá (mesmo sem os dançarinos…). Acredito até que a francesa se teria conseguido ligar não só ao “nós”, mas também a membros da “sociedade” que acontecesse estarem no festival e passassem por ali, à procura de atuações em que a música viesse em primeiro lugar.

SBSR 2019: Charlotte Gainsbourg©Margarida Ribeiro
SBSR 2019: Charlotte Gainsbourg©Margarida Ribeiro

CHARLOTTE GAINSBOURG FUROU O ESQUEMA E RECLASSIFICOU OS PALCOS DO SBSR

Por volta das 22h, Charlotte Gainsbourg dava início à atuação no Palco EDP. Este, decorado por lâmpadas brancas compridas formando várias molduras, era suficiente para fixar alguém. A iluminação do espaço estava à responsabilidade das tais molduras, que intermitentemente eram apoiadas pelos holofotes.

Mais uma vez, era claro o poder de uma performance ao vivo. O palco, com os seus minimalismos, era digno de se apreciar. Previamente menos envolvente, a música agora chamava-nos à dança. Mesmo sem os temas variarem muito de estilo, não houve momento algum em que me fosse possível dizer “OK, já chega!”, algo bastante frequente nas mais de duas horas que antecederam Lana del Rey.

À volta do palco, a multidão cresceu rapidamente, havendo muitos a comentar algo como “Não sei quem é mas a música é fixe”. Lá está, a música uniu. Olhando várias vezes para trás, a afluência era maior do que a de alguns concertos que, naquele dia, passaram pelo palco principal. A qualidade do repertório também. Durante aquela hora, Charlotte Gainsbourg deu a volta ao esquema, fazendo do Palco EDP o principal do festival.

SBSR 2019: Phoenix©Margarida Ribeiro
SBSR 2019: Phoenix©Margarida Ribeiro

PHOENIX TERMINAM A SUA DIGRESSÃO DE FORMA AGRADÁVEL

Cheguei mesmo a tempo dos Phoenix. Não lhes dera primazia porque, por aqui, Phoenix eram tidos como uma banda sobrevalorizada, mas é preciso reconhecer que, depois desta sua performance no Super Bock Super Rock, a banda conquistou a minha consideração.

Ao vivo, as canções ganharam em variedade e tornaram-se agradáveis ao ouvido. O palco colorido era cativante e o grupo interagia frequentemente com a plateia. A dado momento, a banda comunicou-nos que aquela era uma performance especial, pois ali acabavam a sua digressão. Também agradeceram ao Meco por serem tantos, algo que me levou a assumir que estes cabeça de cartaz não tinham certamente lá estado no dia anterior. Aqui, mais uma vez, sentia-se a diferença no número de pessoas no recinto. Uns agradáveis três quartos de hora depois do início da atuação, o recinto ficou com, pelo menos, um festivaleiro que saiu com mais alguns artistas a adicionar à lista “A seguir” no Spotify.

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